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Web precisa achar seu idioma, diz pioneiro

Publicado em 17 outubro 2005

Por Agência Estado

Não há diferença entre beber um copo dágua e usar um equipamento hi-tech para o empresário Aleksandar Mandic, de 51 anos. De tão presente desde a infância, a tecnologia virou parte inseparável do seu cotidiano.
Tanto que ele não dá muita importância a detalhes como marcas e modelos - o que o atrai são as funcionalidades dos aparelhos, descobertas de modo quase intuitivo. Foi também assim, de uma maneira natural, que a internet entrou na vida de Mandic, e ele se tornou um dos pioneiros da rede mundial de computadores no Brasil.
O empresário percebeu o potencial comercial da web quando ninguém sabia direito o que eram e-mails e fez sucesso ao montar um dos primeiros serviços de acesso do País, o Mandic BBS. Pouco tempo depois, ajudou a criar um dos primeiros provedores gratuitos do Brasil, o iG. "A gente fundou o iG meio sem querer, assim como eu abri a Mandic sem querer", afirma.
Hoje, ele voltou às origens e comanda uma nova empresa. Embora também tenha sido batizada como Mandic - a antiga foi vendida, mas a marca continuou com o dono - e fique no mesmo endereço onde tudo começou, o conceito é diferente. "Somos o Banco Safra da internet", diz. Ele explica o exemplo: "O Safra é forte, mas não é grande. É um banco de luxo."
Mandic decidiu apostar nesse nicho e oferece um e-mail ultramoderno, "de grife", focado no mercado corporativo. O serviço é o primeiro a vir com assinatura digital, um avançado sistema que prova que o remetente da mensagem é quem a assina, e inclui filtros contra spam, espaço ilimitado e antivírus.
O empresário não espera promover grandes revoluções na web com o novo empreendimento, como ocorria nos primórdios da rede no Brasil. "Lá, era o começo do começo. Ninguém sabia se ia dar certo", conta. "Agora, não. Atingimos altitude de vôo. Não vamos dar aqueles tiros que não se sabe onde vão acertar." Para Mandic, essa "acomodação" reflete um comportamento da própria internet na atualidade. Todo mundo conhece seus concorrentes e há menos surpresas. "Mas coisas acontecem. Vê o Skype?"
O programa de comunicação de voz sobre IP está instalado no seu smartphone - aparelho que mistura as funções de um computador de mão com as do celular - e nos micros da empresa, o que permite que os funcionários façam chamadas de graça. Telefonia convencional, só quando não há outra opção.
O empresário também usa Wi-Fi compulsivamente. Há uma rede sem fio na sua casa e outra na empresa. "Naqueles primeiros tempos, o que estava sendo projetado era o protocolo por onde a informação era transportada", ressalta. "Hoje, isso está feito. Agora estão otimizando meios. Pára de ser por fio e passa a ocorrer pelo ar."
As mudanças não vão acabar por aí. Mandic acha que a web ainda precisa encontrar uma linguagem própria. "É mais ou menos como quando surgiu a televisão", indica. "Fizeram um rádio com imagem. Depois de muitos anos, a TV começou a ter sua própria identidade." Como outro exemplo, ele cita a transposição das reportagens de um jornal impresso para o ambiente da rede mundial de computadores. "É um outro jeito de difundir a notícia. Quando o Estadão entrou no ar, colocou sua primeira página na internet. Isso está mudando."
Mais difíceis de prever, para ele, são as inovações feitas pelas empresas de tecnologia. "É muito difícil dizer. Você vê o iPod, que foi uma revolução. É a coisa mais simples do mundo", acredita. "Não tem invenção nenhuma. É memória e música, e os caras fizeram o maior sucesso. Então, vão surgir outras coisas." Como não gosta de ouvir música, ele jamais se importou em ter um tocador de MP3 da Apple. Também passa longe de filmadoras. "Você tem de ter aquilo que gosta", justifica.
E não foram poucas as suas paixões nessa área. Ainda criança, Mandic amava abrir equipamentos para ver como funcionavam. De barbeador elétrico a despertador, nada sobrevivia à sua curiosidade. Uma vez, seu pai deixou que desmontasse um Ford Fairlane de 1958. "Não sobrou peça sobre peça", lembra. Como recolocar tudo no lugar não era sua especialidade, o carro continuou em pedaços.
O amor pela tecnologia continuou vivo. Sua primeira compra hi-tech foi uma calculadora Casio capaz de fazer as quatro operações básicas da matemática, cujo visor consumia toda a pilha em uma hora e meia. "Ficava no meu quarto, no escuro, com aquele baita display, somando e multiplicando." Anos mais tarde, ele comprou seu primeiro micro, um Ohio Scientific. A máquina tinha 4 kilobytes de memória RAM (33 mil vezes menos que os PCs atuais com 128 megabytes). "Brincava com ele dia e noite. Acho até que minha mulher me deixou por causa disso", diz. "Ele ficava em um quartinho e, quando eu entrava, não saía mais."
Depois, Mandic vendeu sua moto para comprar um Apple II. O tempo passou e ele decidiu se atualizar. Adquiriu então um IBM PC. "Foi meu primeiro micro com disco rígido, de 5 megabytes", afirma. "Daí, começou a perder a graça. Já não sei mais qual veio depois." Nessa época - anos 80 -, era funcionário da Siemens. Ele começou a carreira na multinacional na década de 70, depois de formar-se no curso técnico em eletrônica.

No mundo virtual
Em 1989, Mandic teve uma idéia que mudaria sua vida. Ele sugeriu à Siemens que montasse uma rede, conectando micros de locais remotos a uma central. Com isso, os técnicos não precisariam se deslocar para resolver problemas. "A idéia era boa, mas ninguém comprou", diz. Mesmo assim, resolveu investir no sistema e torná-lo disponível ao público. Saiu da Siemens e, em 1990, montou seu primeiro negócio. "E assim nasceu o Mandic BBS."
No início, o serviço permitia que vários computadores se conectassem por modem a uma central para deixar recados, criar programas e coisas afins. Os primeiros usuários foram os seus amigos. Dois anos depois, eram 400 pessoas. "Foi quando se começou a falar de internet." Ele conseguiu um link com a Fapesp, somente para troca de mensagens, e o negócio explodiu. Em 1995, o número de associados chegou a 10 mil. Quatro anos depois, eram 110 mil.
Com o boom da rede e a chegada de investidores internacionais, ele decidiu vender o BBS. "Naquele mau tempo de compra aqui, vende ali, você não sabia se no dia seguinte estaria quebrado ou dobraria de tamanho. Parecia uma Corrida do Ouro." Não demorou muito para que ele fosse convidado por um fundo de investimento para ajudar a criar o iG. "Foi loucura total", diz. Em 20 dias, conseguiram 700 mil usuários. Prova que, mesmo "meio sem querer", Mandic acertara o alvo de novo. "Na internet, você tem de se mexer rápido. Se for devagar, a turma te pega."