Notícia

Jornal da Tarde

Web permite testar novas linguagens

Publicado em 22 fevereiro 2007

Por FILIPE SERRANO

Os artistas que começaram a publicar HQs na web tiveram um grande sacada. Por que não aproveitar recursos de multimídia para incrementar o visual dos quadrinhos?

A partir da questão, desenhistas inteirados com tecnologia inseriram pequenas animações em Flash nos quadrinhos. Em alguns casos, a novidade provoca a sensação de interatividade com a história. Mas sem perder a característica das HQs de que a pessoa deve imaginar a passagem de tempo e movimento entre um quadro e outro, conhecida como elipse.

'É uma revolução que traz códigos novos para os quadrinhos', diz o pesquisador Edgar Franco, autor do livro HQtrônicas: do suporte papel à rede internet (Ed. Annablume e Fapesp, 284 págs.)

'Uma nova linguagem está nascendo que não se sabe para onde vai caminhar', afirma.

O autor explica que está sendo criado um tipo de arte que não se encaixa em nenhum dos padrões, nem de HQ, nem de desenho animado. 'Eles podem ter trilha sonora, efeitos de som, animações e ser em 3D, mas carregam elementos dos quadrinhos tradicionais', afirma.

O artista Scott McCloud foi um dos primeiros a fazer experiências. Em seu site, é possível conferir algumas delas. Na mais recente, de 2003, The Right Number, o quadro principal com a história fica em primeiro plano. Bem no centro dele você consegue ver o quadro seguinte em tamanho menor. Ao clicar em uma seta, o recorte central se movimenta do fundo para frente, se sobrepondo ao desenho inicial.

Em Zot! Online: Hearts and Minds, McCloud faz uma HQ na vertical que, dividida em 16 capítulos, soma 42,5 metros de altura. É um conceito que ele chama de 'tela infinita', embora, ela tenha, sim, um fim.

Outra experiência que chama a atenção é Carl Comics. A história começa só com o primeiro e o último quadrinho visíveis na tela. Conforme você clica, um novo quadro aparece entre eles e, depois de 51 cliques, a história inteira se completa.

Além de McCloud, outra iniciativa bacana é o site Argon Zark do artista Charley Parker. A proposta dele é menos revolucionária, mas não menos cativante.

Os quadrinhos são bem parecidos com as HQs impressas. Com uma exceção. São feitos em Flash e cada quadro contém uma pequena animação.

Para o pesquisador de análise estética em quadrinhos, Osni Winkelmann, o uso dos PCs na produção de HQs muda o traço do artista. 'A colorização com softwares deixa as áreas coloridas definidas demais. Os traços não são soltos', diz ele.

Uma experiência brasileira com recursos digitais é feita no site da editora online HQNado. Alguns dos quadrinhos de diversos artistas têm uma versão tradicional e uma em movimento.

'É um semidesenho animado', diz um dos criadores, Alessandro Scringolli.

O nome dado para a versão movimentada é Digital Comics. Trata-se de um vídeo em Flash. Os desenhos são fixos, como nas HQs comuns, mas os balões se movem, e a história acompanha efeitos sonoros. Entre um quadro e outro, há pequenas animações em 3D. 'Achei que fosse perder a essência, mas ficou mais fácil de entender', diz Scringolli.