Notícia

Jornal da USP

W. Besnard volta a navegar em grande forma

Publicado em 23 abril 2001

O convite era lacônico, dizia apenas tratar-se de uma "saída a bordo do N/Oc. Prof. W. Besnard, com destino à Ilha da Moela, Baía de Santos, em 2 de abril, às 8h30, no Cais do Porto, Armazém 6, Santos". A mensagem, porém, era outra. Um grande cientista, daqueles que dedicam sua vida inteira à pesquisa, sem medir esforços para garantir o avanço da ciência, estava de novo na ativa. O navio oceanográfico da Universidade de São Paulo voltaria ao mar depois de dois anos e meio de reclusão. Quando o bravo Besnard começou lentamente a deixar o cais, uma forte emoção pareceu contagiar todos a bordo. Waldir da Costa Freitas, o comandante, lembrava uma criança que ganha de volta o seu brinquedo preferido. Todo sorrisos, parecia que estava assumindo pela primeira vez o comando da embarcação. Era, na verdade, o mais antigo tripulante a bordo, com nada menos de 28 anos de convivência com o velho Besnard. Só para a Antártica foram seis expedições, o que lhe confere o título de comandante brasileiro que mais vezes navegou as águas do continente gelado e inóspito. Freitas e Besnard têm uma relação que ultrapassa a simples amizade. Como ele mesmo diz, o, navio é o seu refúgio. "Quando eu e minha mulher nos desentendemos, corro para o Besnard. Aqui tenho minha cama, minhas roupas, minha escova de dentes", brinca. Não é exagero. Freitas passa mais tempo com seu velho amigo do que com a família. Quando subiu a bordo pela primeira vez, em 1972, era segundo oficial. Foi galgando postos até assumir o comando do Besnard, na segunda expedição antártica. Como grandes amigos, Freitas e Besnard enfrentaram juntos bons e maus momentos. O pior deles talvez tenha sido a incerteza de que o navio voltaria ao mar. Foram dois anos e meio de estaleiro e de ansiedades. "O Besnard é o único navio oceanográfico civil do País. É a principal ferramenta de trabalho da maioria dos cientistas que pesquisam a nossa costa. Era agonizante vê-lo parado, sem perspectivas de voltar à ativa. Um navio parado requer muito mais cuidados com manutenção do que quando está em funcionamento. Cada parte da embarcação precisa ser revisada o tempo todo para que não se deteriore. Foi um momento difícil para a tripulação que, felizmente, chegou ao fim." Cada centímetro do casco do Besnard parece guardar uma história. As mais espetaculares certamente aconteceram nas expedições à Antártica, onde, além do estresse diário, os tripulantes têm de centuplicar os cuidados, pois qualquer erro pode ser fatal. "As expedições mexiam, literalmente, com a cabeça da gente", lembra Freitas. "Trabalhar num local onde a previsão do tempo vale para apenas três horas, sabendo que um ser humano não sobrevive mais do que três minutos no mar gelado da Antártica, deixa todo mundo com os nervos à flor da pele." Em 1984 Freitas quase perdeu seu imediato. "Um de meus homens, que até então não tinha apresentado nenhum sinal de desequilíbrio mental, ficou irritado porque não foi convidado para a inauguração da base brasileira, em terra. Alucinado, pegou uma machadinha e saiu no encalço do imediato, dizendo que iria matá-lo. Assustado, o imediato armou-se de um revólver para se defender. Tranquei o imediato na minha cabine e tentei tranqüilizar o rapaz, mas não houve acordo. Tive, então, de acionar o pessoal do Tefé, um navio oceanográfico militar brasileiro ancorado próximo de nós, que tem médico, soldados e cadeia a bordo. Foi a nossa sorte, pois os fuzileiros da Marinha vieram, levaram o rapaz para bordo do Tefé e depois para o Brasil, evitando uma tragédia". Do ponto de vista de Freitas, suspeito, diga-se, Besnard é muito querido nas docas. Mas basta observar alguns detalhes para perceber que ele tem razão. Um deles é a ausência de um prático - profissional especializado em manobrar navios para entrar e sair dos portos- na cabine de comando quando a embarcação deixa o cais. "Mantemos ótimas relações tanto com a Capitania dos Portos como com a Praticagem. As normas exigem que um prático esteja a bordo agora para tirar o navio do porto, mas deixam pra lá quando sabem que é o Besnard que está saindo. Também deveríamos estar sendo conduzidos por um rebocador, pois estamos indo contra a maré, mas como a Capitania conhece nossa experiência, não nos causa problemas. Todos por aqui têm um carinho muito grande pelo Besnard." Verdade seja dita, o navio oceanográfico da USP é muito querido. Dentro e fora das docas quem se refere ao veterano Besnard o faz com muito carinho. Segundo o reitor da USP, Jacques Marcovitch, houve um esforço conjunto da Universidade, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) para reformar o navio. "Foram investidos US$ 500 mil para reequipar e modernizar o Besnard. Agora, o navio dispõe de um motor e de equipamentos científicos de última geração que garantem um desempenho melhor de navegação e de pesquisa. Toda esta infra-estrutura está novamente à disposição da comunidade científica, já que se trata da única embarcação oceanográfica universitária, não militar, que nós temos na América do Sul." Para Paulo Sizuo Waki, diretor do MCT, o Besnard volta a navegar num momento importantíssimo. "Este ano o Ministério está finalizando sua política nacional para ciência e tecnologia do mar. A perspectiva que nós temos de apoio financeiro para a atividade de pesquisa e desenvolvimento oceanográfico é algo em torno de R$ 4 milhões. A presença do Besnard e de outros navios, no futuro, vai ser essencial para que a gente tenha uma atividade de ciência e tecnologia no mar condizente com o tamanho e a importância da costa brasileira." Outro que também não deixou de destacar o valor do Besnard para a ciência foi o diretor da Fapesp Joaquim José de Camargo Engler. "A fundação, reconhecendo a importância desse laboratório flutuante para apoio às atividades de oceanografia, houve por bem participar da recuperação do navio. A Fapesp já vinha apoiando as pesquisas diretamente e agora colaborou também para melhorar a infra-estrutura de laboratório do navio." Como diretor do Instituto Oceanográfico (IO), Rolf Roland Weber, ao lado do comandante Freitas, também estava exultante. "O Besnard nunca esteve em tão boa forma como agora. Com motor, estrutura e equipamentos novos o navio volta a ocupar o lugar que sempre foi o dele, de estudar e conhecer o mar brasileiro, e, mais especificamente, o paulista. É importante destacar que não existe soberania de um país sobre o mar sem a pesquisa oceanográfica. Se você não conhece o que tem, não sabe como explorar e como proteger. É um absurdo o que foi gasto nos últimos 40 anos em pesquisa espacial, se comparado à pesquisa oceanográfica. Conhecer o espaço é importante, mas são o oceano e a atmosfera que controlam o clima e é o clima que garante a existência do homem na Terra. Por isso é que a pesquisa de campo feita através do Besnard é absolutamente necessária." O mar era de "almirante", o teste de máquinas e navegação foi um sucesso, o Besnard estava navegando de novo. E, ao mesmo tempo em que se comemorava a volta ao trabalho, o veterano navio estava sendo definitivamente aposentado para expedições antárticas. O motivo não poderia ser mais óbvio: a estrutura do navio, mesmo reformada, não agüentaria mais os castigos impostos pelo mar polar. Na volta da última expedição antártica, o eixo que movimenta a hélice da embarcação quebrou, deixando o Besnard à deriva por mais de 24 horas, até que fosse resgatado e levado para o Chile, onde foram feitos os reparos. Esta, com certeza, foi a situação mais perigosa já vivida por seus tripulantes e pelos cientistas a bordo. Mas, como centenas de bons pesquisadores da USP, mesmo aposentado compulsoriamente, o Besnard continuará na ativa. Como disse o diretor do IO, há uma imensa costa brasileira que precisa ser estudada e pesquisada. E ninguém melhor que o veterano Besnard para conduzir pesquisadores e cientistas para desvendar os segredos do nosso litoral.