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Vozes de pressão

Publicado em 29 novembro 2007

Por Paula Lacerda, Agência FAPESP

Luciano Coutinho, presidente do BNDES, ressalta a importância da criação de lideranças locais nos arranjos produtivos e inovativos locais de modo a agilizar as demandas por crédito ou por infra-estrutura


"Como fazer com que os sistemas produtivos locais ganhem coesão e capacidade de tomar iniciativas a partir da formação de lideranças locais?" A questão foi levantada por Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Seminário Internacional "Dez Anos de Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais", que terminou nesta quarta-feira, no RJ.

Ao comentar as perspectivas brasileiras de desenvolvimento a partir dos arranjos produtivos, Luciano Coutinho equiparou a importância dos investimentos de grande porte aplicados na indústria e na infra-estrutura com a dos investimentos direcionados a cooperativas e pequenas empresas no país.

Segundo ele, a economia brasileira atravessa um momento positivo no que se refere à concessão de crédito, facilitando a aquisição de bens por parte das classes menos privilegiadas e favorecendo a circulação de capital.

"O BNDES vem alavancando essas mudanças na economia, investindo na área de infra-estrutura física — especialmente no setor de energia, transportes e telecomunicações — e aumentando o volume de crédito disponível ao pequeno e médio investidor, seja empresa, microempresa ou cooperativa", destacou.

Para Coutinho, mudanças como essas beneficiam particularmente as regiões com maiores índices de pobreza.

"Os investimentos na concessão de crédito favorecem as regiões afastadas do Sudeste. O Nordeste, com alto índice de pobreza e oportunidades escassas, é beneficiado com obras de infra-estrutura, como implantação de redes ferroviárias, desenvolvimento portuário e outros projetos com papel multiplicador. O pólo siderúrgico do Ceará e o porto de Suape em Pernambuco são dois exemplos disso", disse.

No entanto, o atual cenário de queda do desemprego e aumento da renda do trabalhador pode ser prejudicado caso haja alguma reversão de termos de troca, recessão ou enfraquecimento das fontes que têm movido a economia brasileira, ressaltou o presidente do BNDES.

Embora a maior parte dos grandes investimentos em infra-estrutura seja realizada pelo governo, a iniciativa privada já corresponde ao percentual de 25% de todos os gastos.

"Desse modo, buscamos fortalecer ao máximo o ciclo de investimentos que circula no país, para que o Brasil não sofra com os impactos relacionados ao quadro político e econômico internacional de forma tão marcante como ocorreu nos anos 1980", disse.

"Nesse cenário, é cada vez mais premente que as pequenas economias sejam estimuladas pelo Estado e pela iniciativa privada. Dos arranjos produtivos e inovativos locais, por seu caráter inovador e capilar, dependem a renda e o emprego necessários ao desenvolvimento local", afirmou.

De acordo com o também professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, as pesquisas sobre arranjos produtivos são fundamentais, pois permitem que instituições como o BNDES tenham contato mais estreito com contextos e realidades até então desconhecidos e que possam pensar, em conjunto, em soluções e formas eficazes de incentivo.

"A criação de lideranças locais é um ponto fundamental para que as demandas tenham como chegar mais depressa às instituições de concessão de crédito, de instalação de infra-estrutura, de escoamento da produção etc", disse Coutinho.

Questionando como a criação de lideranças locais poderia ser estimulada, Coutinho disse entender que essas lideranças seriam vozes importantes para pressionar o governo a atender as demandas dos arranjos produtivos e inovativos locais, reconhecendo toda a sua importância para o desenvolvimento local e, por conseqüência, nacional.

(Agência Fapesp, 29/11)