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Votorantim aumenta aposta em projeto de genoma agrícola

Publicado em 05 julho 2002

Com alguns investimentos do porte da Alellyx - uma empresa que faz pesquisa e desenvolvimento em genômica aplicada a plantas - a Votorantim Ventures realizou aportes que correspondem entre 10 a 15% do total disponível por este fundo de capital de risco criado em maio de 2000. Dos US$ 300 milhões inicialmente disponíveis, a Votorantim já fez investimentos em oito empresas: Estrutura.net, comDomínio, Quadrem, Optiglobe, Telefutura, Anfreixo, Scylla e Alellyx, que recebeu R$ 30 milhões e logo tornou-se uma das estrelas do portfólio de negócios. 'É uma aposta na capacidade da ciência brasileira em produzir inovação, de transformar conhecimento em tecnologia", justifica Artur Ribeiro Neto, diretor-executivo da Votorantim Ventures. Fundo multisetorial focado em tecnologia da informação (TI), comunicações e ciências da vida, o Votorantim Ventures procura investir a partir de US$ 1 milhão até US$ 15 milhões por negócio. A política do fundo é obter retorno do investimento (ROI) em um prazo de três a sete anos. Nos casos de negócio tidos como não usuais para a iniciativa privada, como a Alellyx e a Scylla, Artur Ribeiro admite que o prazo nesse caso possa ser o maior. 'Mas nossa visão nunca é de investir a curto prazo', afirma o executivo, para quem o momento 'é bom de investir pois os preços se ajustam às condições negociais". Muito diferente da época de euforia da internet e de tudo que se relacionasse ao e-business, quando o fundo recebia entre 300 a 500 projetos por ano. Hoje não passam de 200, alguns deles também voltados à biotecnologia - área que começou a ganhar destaque a partir do sucesso de experimentos feitos por renomadas instituições nacionais de pesquisa. Esses trabalhos, realizados por instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp) e que contaram com a participação de pesquisadores que depois seriam os sócios-fundadores da Alellyx, resultaram no seqüenciamento dos genomas da Xyllela fastidiosa, causadora da praga do amarelinho nos laranjais; da Xanthomonas axonopodis pv. Citri, responsável pelo cancro cítrico também em laranjas; a Xylella fastidiosa causadora da doença de Pierce na uva; e a Agrobacterium tumefaciens, bactéria conhecida por suas aplicações em engenharia genética. Para os sócios da Alellyx e Segundo dados de uma pesquisa de 2001 feita pelo Ministério da C&T e pela Fundação Biominas, que envolveu 354 empresas, metade delas possuem algum tipo de financiamento externo, mas apenas 6% são investidas por capital de risco. É uma parcela ainda muito pequena, considerando que 304 dessas companhias foram efetivamente mapeadas e identificadas. Apesar da falta de maiores investimentos, é uma indústria que já apresenta números alentadores. Por intermédio de duas amostragens, a pesquisa do MCT aponta para um faturamento médio entre R$ 5,4 bilhões a R$ 9 bilhões (a variação deve-se à realização de duas medições distintas), referente ao ano de 2000, o que representaria de 0,9% a 1,5% do produto interno bruto nacional (PIB), com a geração de 27,8 mil empregos diretos. "É uma área que pode apresentar crescimento de 15% este ano, se o câmbio não continuar tão desfavorável", diz Roberto Braga, diretor da Applied Biosystems para a América Latina, que também espera um crescimento semelhante para os negócios desta fabricante norte-americana de equipamentos, softwares e reagentes destinados ao trabalho das instituições científicas. Um desses equipamentos é o seqüenciador de DNA usado no Projeto Genoma, e também aplicado em testes de paternidade, aplicações forenses e agropecuárias. Das 304 empresas mapeadas, 246 (81%) estão localizadas na região sudeste do país, com maiores concentrações em SP (42%) e RJ (29%). A grande maioria integra o clube das pequenas e médias empresas (61%), seguida pelas pequenas e médias incubadas (17%), multinacionais (9%), farmacêuticas de produtos genéricos (6%), multinacionais agropecuárias (4%) e públicas (3%). O ramo da saúde humana concentra a maioria desses negócios (74 empresas), seguido pelo setor público, de fármacos genéricos e agropecuário (66 empresas), fornecedores de equipamentos, insumos e suprimentos (51 empresas) e agronegócios como reprodução animal, veterinária e vacinas (37 empresas). Ao analisar a conjuntura do setor, o estudo aponta os entraves para o avanço da biotecnologia: a necessidade de expandir e diversificar instrumentos de financiamento e capitalização das empresas; aperfeiçoamento das atividades de regulamentação por parte das esferas públicas; maiores estímulos às atividades empresariais por parte do governo, com alíquotas diferenciadas em termos de tributação. 'As empresas de biotecnologia são dependentes de tecnologia e o Brasil é absolutamente dependente das importações nesta área. Mas os impostos ainda são muito pesados, inviabilizando o investimento inicial nas máquinas bem como nos reagentes', conclui Roberto Braga, da Applied Biosystems. (Gazeta Mercantil, 3/7)