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Vogt: Fapesp quer converter pesquisa científica em riqueza

Publicado em 25 junho 2002

Por Laura Knapp escreve para 'O Estado de SP':
O interesse pela ciência está baseado no grande interesse do humanista pelo conhecimento. Lingüista, semiótico, poeta, o novo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de SP (Fapesp), Carlos Vogt, lapida esta mesma frase de diversas formas. À frente da maior agência estadual de fomento científico do país, cargo que assume oficialmente nesta quinta-feira, no entanto, é o administrador com passagens pela reitoria da Unicamp, e não o autor de cinco livros de poemas, quem fala. "Precisamos criar uma cultura de relações estruturais e sistemáticas entre as políticas públicas governamentais, os centros de produção do conhecimento, de pesquisa e o setor industrial produtivo", sugere. Seus planos para o mandato não incluem mudanças de rumo. Pretende que a fundação continue a dividir sua atuação - e seus recursos - entre as demandas espontâneas, feitas pelos próprios pesquisadores, e os projetos induzidos, nos quais o tema ou a forma de atuação dos programas são definidos previamente. Entre as áreas que podem receber atenção especial está a de microeletrônica. É uma escolha polêmica, admite Vogt. Não faltam mentes capazes de levar o projeto adiante - a escassez está no parque industrial. E, ao mesmo tempo em que os recursos necessários para suprir essa deficiência são gigantescos, também é enorme o buraco na balança comercial com a importação de componentes eletrônicos. Diretor executivo do Instituto Uniemp (Universidade Empresa) de 94 a 2001, Vogt diz que tomou gosto pela questão da gestão das políticas públicas em C&T quando foi reitor da Unicamp, de 90 a 94. Interessa-lhe o desafio de, num país como o Brasil, "estudar os problemas relativos às condições que permitam que se consiga não só produzir o conhecimento e difundi-lo por meio do ensino, mas também transformá-lo em riqueza, com valor econômico e social." Estado - Como é possível fazer isso? Vogt - Esse talvez seja um dos maiores desafios para o país ultimamente. A gente tem falado bastante disso, mas sem prejuízo da pesquisa básica, do ensino. Ao contrário, requer um reforço muito grande da produção do conhecimento básico. Essa cultura passa por políticas públicas que motivem a cooperação, gerando no empresariado uma sensação de menos incertezas quanto aos investimentos em inovação tecnológica. Estado - Como seria criada a sensação de menos incerteza? Vogt - Isso pode ser feito de várias maneiras. Viria do governo, através de políticas como redução de taxas de juros, de incentivo à exportação, de renúncia fiscal, como é o caso da Lei de Informática. Os fundos setoriais são um pouco por aí. Estado - Quais, na sua opinião, são as boas políticas já aplicadas? Vogt - A criação de um relacionamento estrutural e sistemático entre esses três atores, governo, empresas e centros de pesquisa, é fundamental. Tem um papel que é importante nessa estruturação, que é o funcionamento das agências de financiamento, sejam elas federais, como o CNPq, do Ministério da C&T, ou regionais, como é o caso da Fapesp. A Fapesp vem procedendo de maneira a não só financiar a demanda por investimentos, mas também de maneira a formular políticas públicas de ciência e tecnologia. Estado - Isto é, age também como indutora. Vogt - Isso, criando programas e uma filosofia de pesquisa, que induz um comportamento, agrega pesquisadores de diferentes localidades e instituições. Assim, funciona também oferecendo condições para que agregue outro ator importante, o empresário. Por exemplo, quando faz o programa da Xylella (fastidiosa, que causa a praga do amarelinho nos laranjais), e traz para participar o Fundecitrus no financiamento da pesquisa, está ao mesmo tempo induzindo o comportamento do setor industrial. O mesmo aconteceu com o genoma da cana de açúcar. O do eucalipto agrega quatro grandes empresas do setor de celulose. Estado - Mas até que ponto essas empresas estão modificando seu comportamento? A participação delas no financiamento desses três projetos foi muito pequena. Vogt - US$ 500 mil em um país cuja tradição de investimento em pesquisa é estatisticamente tracinho no setor empresarial, é significativo, porque cria essa exemplaridade. A aproximação estabelece metas comuns e cria, portanto, condições de cooperação que não existiam. Todo o esforço agora, dada a questão da sociedade do conhecimento como valor agregado, obriga o país a tentar de fato encontrar nichos que permitam estruturar a produção em função da inovação tecnológica. A questão é como criar essa cultura, como induzir esse comportamento. Quando se pegam referências históricas de outros países, onde há grande desenvolvimento tecnológico e produção de riqueza, existe uma característica bem visível, que é o fato de que boa parte da pesquisa se faz nas empresas. Estado - O que é preciso para isso? Vogt - Se olharmos os números, vemos o seguinte: o Brasil nos últimos dez anos dobrou sua produção científica indexada. Portanto, em números relativos, o Brasil vai bem do ponto de vista científico. A pergunta é: e esse conhecimento terá ou não condições de gerar riquezas para o país? O governo federal formulou uma série de boas políticas públicas através do MCT, com a criação dos fundos setoriais, do fundo de infraestrutura, do fundo verde-amarelo, do programa Inovar, da Finep. A Fapesp criou vários programas, genoma é um deles, e os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão, só para mencionar alguns. Mas o desafio de fato tem várias frentes. Investir em inovação tecnológica é fazer investimento chamado de risco, venture capital. O nosso empresário não tem cultura de investimento desse tipo. A sociedade como um todo também não tem isso colocado como alternativa de investimento. Estado - Isso acontece em outros países? Vogt - A participação vai desde o estado até a sociedade como um todo, porque tem distribuição de participação em compra de ações, e assim por diante. Criar essas condições é parte também do cenário das políticas públicas de ciência e tecnologia, que têm de estar casadas efetivamente com a política econômica do país, com a política de desenvolvimento industrial, com a política educacional. Essas coisas não acontecem isoladamente. Estado - Qual o papel da Fapesp? Vogt - Eu sempre dizia que o comportamento, além de procurar focar programas que tenham consistência, objetividade, funciona um pouco exemplarmente. No fundo você está dizendo: é possível fazer, e é possível, em torno de focos específicos, criar condições para que o processo se feche, desde o começo da pesquisa básica até o produto na prateleira. A Embraer, um caso sempre citado, atua dentro dessa nova filosofia. Não sei medir quantos componentes brasileiros existem nos jatos comerciais da Embraer. Acho que é pífio. Mas toda a concepção, o conhecimento, é nacional. Isso é a marca, então o avião é brasileiro. É claro que tem desafios aí. Na alta tecnologia, existe um desafio grande para o país, no setor de componentes de microprocessadores, microeletrônica. O país tem zero do ponto de vista industrial, nesse setor, mas tem competência para isso. Estado - Quais seriam as outras prioridades? Vogt - Uma é o setor agrícola, que é de ponta e requer alta tecnologia, que está habituado a trabalhar com inovações. A Fapesp tem os programas de inovação tecnológica de apoio à micro e pequenas empresas de base tecnológica, programas que financiam projetos que já supõe a pareceria empresa-Universidade. No meio de tudo isso tem um assunto, que é também cultural, no qual estamos poucos preparados, que é a questão das patentes, da propriedade intelectual. Estado - Parece que os empresários acordaram para a questão da inovação, mas imediatamente começaram a pedir subsídios. Vogt - Você não vai obrigar o empresário a gastar dinheiro sem que tenha perspectiva de retorno. É diferente da vida acadêmica. Nosso assunto é produzir conhecimento. Como é que se monta esse binômio e associa conhecimento e riqueza? Não dando dinheiro, mas condições de mais conforto quanto ao investimento do capital. Estado - A Fapesp vai fortalecer esse tipo de atuação? Vogt - A Fapesp cresceu. Em 2000, investiu R$ 550 milhões e, em 2001, quase R$ 600 milhões. A tendência é manter o equilíbrio macro entre investimento em ciência básica, ciência aplicada, pesquisa tecnológica, e manter o equilíbrio relativo à demanda das áreas de exatas, humanas e biológicas. (O Estado de SP, 24/6) JC e-mail