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Você sabia que há resquícios do mar amazônico? (15 notícias)

Publicado em 02 de maio de 2023

Não se surpreenda se encontrar animais e plantas da floresta amazônica que tenham semelhanças com organismos marinhos. Fósseis de conchas, centopeias e dentes de tubarões ou raias e outros animais marinhos, a mais de mil quilômetros do oceano, foram descobertos em sedimentos a vários metros de profundidade no solo, levantamentos realizados no Brasil, Peru e Colômbia.

Eles chegaram ao interior do que hoje é uma floresta densa quando o Mar do Caribe invadiu a Amazônia na era geológica conhecida como Mioceno, de 23 milhões a cinco milhões de anos atrás (Ma). As conclusões surgem de análises de sedimentos fósseis das margens dos rios Solimões, Juruá e Javari realizadas desde 1998 por meio de uma organização do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) coordenada pela bióloga Maria Inês Ramos, com organizações de outros estabelecimentos e com a ajuda do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“As enchentes da água do mar contribuíram para a biodiversidade da Amazônia, trazendo animais marinhos e separando populações que criaram novas espécies, que se adaptaram a novos ambientes”

Outro artigo descrevendo as descobertas causou a impressão em dezembro no Journal of South American Earth Sciences. Um exemplo de adaptação é o boto-cor-de-rosa, que acabou surgindo no mar – seus ancestrais teriam sido golfinhos – e hoje vive nos rios da Amazônia.

Em sedimentos extraídos de perfurações pela Mineral Resources Research Company (CPRM) na década de 1970 na área de exame, a equipe do MPEG descobriu um grande número de crustáceos bivalves chamados ostrácios, descobertos recentemente em ambientes costeiros, e outros organismos marinhos, como foraminíferos. Identificados ao microscópio, eles se pareciam mais com os descobertos em um poço no Caribe do que em outros dois, nos oceanos Pacífico e Atlântico.

Outro indício de influência marinha na Bacia do Solimões são os restos de microalgas marinhas, também conhecidas como dinoflagelados, que vivem no plâncton e não são incomuns no Mar do Caribe. Com idade estimada entre 23 Ma e 3,8 Ma, os microfósseis implicam períodos de alta salinidade, resultantes da profissão da água do mar na Amazônia.

“Sabíamos de uma tendência pulsante na inundação, que ocorria aproximadamente a cada 2 Ma ou 3 Ma. O máximo recente que detectamos foi entre 11,1 Ma e 8,8 Ma”, diz Ramos. gigantesca organização de lagos, o sistema Pebas, que se estenderia da Colômbia e do Peru até o componente central da Amazônia brasileira.

“O mar provavelmente entrou pelo vale do Orinoco ao norte”, sugere Leandro. Ainda não se formou. ” Para ela, o mar do Caribe deve ter invadido a América do Sul em uma época em que o continente estava cada vez mais plano, incapaz de bloquear as águas quando o clima esquentava, as geleiras derretiam e os graus do mar subiam.

As hipóteses da equipe do MPEG sobre a invasão do Mar do Caribe foram baseadas em modelos numéricos desenvolvidos pelo geofísico Victor Sacek, da Universidade de São Paulo (USP), levando em conta a dinâmica interna do planeta Terra, as mudanças climáticas e o nível da água do mar. De acordo com essa conclusão, descrita em um artigo publicado em março de 2023 na revista Earth and Planetary Science Letters, a água do oceano ao norte invadiu a região intermitentemente há pelo menos 35 milhões de anos.

Os modelos mostram que a elevação dos Andes teria substituído a paisagem da região, alterando os fluxos dos rios e os padrões de chuva. aos Andes”, diz Sacek. De acordo com o modelo, esse poço de ervas teria conquistado as águas do Caribe.

“Os processos de convecção no manto terrestre ajudaram a dobrar a crosta terrestre para baixo, criando depressões que se estenderam ao componente central da Amazônia”, acrescenta. “Os modelos mostram que essas depressões foram primeiro preenchidas com água do mar e favoreceram a formação de ambientes lacustres. “

Com o tempo, sedimentos dos Andes encheram os lagos, culminando na formação da bacia do rio Amazonas há cerca de 10 milhões de anos. Nos modelos numéricos de Sacek, as incursões marinhas no Mar do Caribe, na bacia do Solimões, teriam terminado antes da formação do rio Amazonas. No entanto, os resultados não descartam a opção de incursões mais recentes, entre 4,7 Ma e 3,8 Ma, como indicado pela equipe do MPEG.

“Parte das diferenças entre os efeitos de Sacek e Leandro possivelmente se deve à falta de conhecimento para verificar os cenários gerados por meio de modelos numéricos e dúvidas sobre os ambientes vivos dos fósseis”, disse o geólogo da USP André Sawakuchi, que não se preocupou com este último. . works. ” A questão é discutível e com muitas incertezas”, acrescentou. Segundo ele, os registros de ajustes ambientais na Amazônia ainda são muito raros e seria difícil comunicar sobre a variação climática de milhões de anos atrás, quando só há conhecimento confiável dos últimos 250 mil anos.

Sawakuchi coordena o Projeto de Perfuração Transamazônica (TADP), apoiado pela FAPESP, com a participação de pesquisadores de 12 países, com o objetivo de perfurar a Amazônia desde os Andes até a costa atlântica. Além de insights mais precisos para alimentar modelos matemáticos, ele espera determinar que o mar invadiu a floresta antes mesmo do que os cálculos de Sacek indicam.

Alocação Transamazônica de Perfuração: Origem e Evolução Florestal e Hidrologia nos Trópicos Sul-Americanos (No. 18/23899-2); Modalidades Trabalho temático – Programa de Investigação sobre Alterações Climáticas Globais; Pesquisador responsável André Oliveira Sawakuchi (USP); Investimento R$ 9. 659. 178,81.

LEANDRO, L. M. et al. Proxy múltiplo de incursões marinhas de origem caribenha no Neogene da Amazônia ocidental, Brasil. Geologia. v. 50, n. 4, pp. 465-469. 5 jan. 2022.

SANTOS, K. ; S. dos e RAMOS, M. I. F. Pesquisa tafonômica em ostrácods neogênicos da Formação Solimões, Poço 1AS-5-AM, Brasil: Uma ferramenta para a reconstituição paleoambiental. Revista Sul-Americana de Ciências da TerraArrayv. 122, 104172. dez. 2022.

SACEK, V. et parág. Os efeitos do paleoambiente amazônico a partir de interações geodinâmicas, climáticas e marinhas. Cartas sobre a Terra e Ciências Planetárias. v. 605, 118033. 1 Março. 2023.

*Este texto foi originalmente publicado em Pesquisa FAPESP sob a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui, escrito por Gilberto Stam.