Notícia

Janela do Abelha

Você está comendo veneno

Publicado em 04 agosto 2019

Por André Vargas | IstoÉ

Diante de mais de mil mortes por intoxicação e da contaminação de águas e alimentos sem que os cidadãos tenham sequer conhecimento, é preciso racionalidade no uso de agrotóxicos. Até as exportações podem sair prejudicadas com a atual política liberalizante, que atrai cada vez mais críticas

Há uma tripla bomba-relógio armada para atingir o Brasil devido ao descaso e o imediatismo do governo, dos parlamentares da bancada ruralista e da cadeia produtiva do agronegócio. É inegável que o uso de pesticidas aumenta a lucratividade das safras nas monoculturas, mas urge planejamento e prevenção. O sinal de alerta já foi aceso: são sucessivos os casos de morte por intoxicação de trabalhadores rurais e agricultores. Além disso, há registro de contaminação do abastecimento de água em mais de mil cidades. São quantidades ínfimas, porém constantes, de contaminantes suspeitos de causar câncer. Hoje, amostras aleatórias dos principais alimentos dos brasileiros, como arroz e feijão, apresentam níveis de elementos químicos centenas de vezes superiores aos tolerados em países desenvolvidos. E sequer os cidadãos têm como saber o que estão ingerindo. Por fim, há o risco econômico. Com o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, as exportações de parte das commodities agrícolas brasileiras destinadas, principalmente, a servir de ração animal, podem ir para consumo humano. Mas só se estiverem livres de agrotóxicos. Ou seja, parte dos US$ 10 bilhões em exportações para o bloco europeu na próxima década não estão garantidos, caso continuemos aspergindo veneno por campos e cerrados sem critério.

Impacto na população

Não se trata de queixas de ambientalistas radicais. Entre 2014 e 2017 foram registradas 1.186 mortes no Brasil por intoxicação com pesticidas, aponta um relatório do Ministério da Saúde. O problema é maior no Paraná, com 231 vítimas fatais. A estimativa é que para cada uma das 30 mil intoxicações registradas nos últimos anos, outras 50 pessoas apresentem problemas crônicos por diferentes níveis de contato com inseticidas, herbicidas, fungicidas e afins. Esta grave questão de saúde pública, que ainda não recebeu a devida atenção, é só um dos vértices da política descuidada de liberação de defensivos. Só neste primeiro semestre 236 produtos foram permitidos, com 93 deles chegando ao mercado. Em contrapartida, 30 princípios ativos estão para ser banidos. Questionada, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou, em abril, que os afetados são pequenos agricultores que não usam equipamentos e trajes adequados. “Às vezes o sujeito fuma aplicando”, disse. A afirmação é simplista. Se há perigo no uso de algo inspecionado pelo poder público, é necessário divulgação e fiscalização. Se isso vale para a condução de veículos automotores, compra de remédios controlados ou posse de armas de fogo, também deveria se aplicar ao que a ministra já classificou como “remédios para plantas”. Sem contar que, no fim, essa conta recai sobre o bolso do contribuinte, pois os afetados vão parar nas filas do Sistema Único de Saúde.

“Nós ficamos só com os impactos”, lamenta a geógrafa Larissa Mies Bombardi, autora do atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e “Conexões com a União Europeia”. Ela se refere ao desequilíbrio entre os lucros advindos das exportações e os custos diretos e indiretos gerados para a população e o meio ambiente. O trabalho de Bombardi foi apresentado na Alemanha e no Reino Unido para legisladores, pesquisadores e ambientalistas. Ela também contesta o argumento de que o uso intensivo de agrotóxicos é necessário por causa do clima tropical. “A opção foi pelo corte de custos”. Cerca de 30% dos agrotóxicos usados no Brasil estão banidos da Europa. Entre eles estão o acefato e a atrazina, que afetariam a fertilidade masculina. O 2-4-D teria contribuído para a morte de 400 milhões de abelhas no Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, aponta um estudo da Fapesp. É uma tragédia ambiental. As abelhas são responsáveis pela polinização de 60% das 191 culturas agrícolas do Brasil. Contestado na Europa por suspeita de ser cancerígeno, o glifosato foi banido da Califórnia, mas segue como o produto mais usado no Brasil. Em maio, a Justiça americana condenou a fabricante Bayer a indenizar em US$ 2 bilhões (R$ 8,2 bi) um casal que teria desenvolvido câncer ao utilizar o herbicida Roundup, que contém glifosato. Quase 20 mil ações similares estão em andamento por lá.

Falta de informação

A contaminação de rios e lençóis freáticos era desconsiderada até agora por falta de dados e métodos de medição precisos. Por vias diferentes, um relatório da ONG suíça Public Eye e pesquisas da Universidade de Campinas (SP) revelaram mais do que se suspeitava. Na água que abastece 1.396 municípios brasileiros foram detectados traços crescentes de pesticidas. O estado mais afetado é São Paulo, onde em 504 cidades foram detectados os 27 compostos de medição obrigatória pelas empresas de abastecimento. Em segundo lugar vem o Paraná, com 326 localidades. Uma das principais causas seria a pulverização por aviões agrícolas, prática que passou a ser contestada e está proibida no Ceará. Os resultados das análises indicam que os métodos de verificação da qualidade da água para consumo precisam ser aprimorados e divulgados. “As variáveis são tão grandes, que não conseguimos distinguir facilmente os impactos”, diz Douglas de Castro, especialista em direito ambiental.

Entre os vegetais in natura que chegam à mesa dos brasileiros, os que apresentam os maiores índices de contaminação são laranja, abacaxi, couve, uva e alface, apontou um estudo de 2016 do Ministério da Saúde, o último a ser divulgado. A única alternativa para os consumidores é lavar bem tudo o que compram. Pena que a água usada vá cair nos rios, alimentando um ciclo de contaminação e dispersão ainda sem solução aparente. No atual compasso, a busca de uma solução equilibrada para os danos pelo emprego de agrotóxicos deve ficar para a próxima geração.