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Diário do Nordeste online

Vizinhos distantes

Publicado em 14 maio 2007

O livro "Vizinhos Distantes", da pesquisadora Denise Mota, recém-lançado pela Editora Annablume, em parceria com a Fapesp, traz no subtítulo seu tema mais explícito: a "Circulação Cinematográfica no Mercosul". O projeto nasceu como dissertação de mestrado apresentada à USP. A autora, jornalista atuante, mantém o livro em registro acessível, de leitura prazerosa e fundamentado em ampla pesquisa, realizada nos quatro países do Mercosul, que lhe servem de solo geográfico (Brasil e Argentina, os dois maiores produtores e consumidores de audiovisual da região, por isto mais influentes, e Paraguai e Uruguai).

A expressão "vizinhos distantes", realista e provocadora, valoriza o conteúdo deste livro vocacionado - com os pioneiros "Cinema Latino-Americano - Longe de Deus e Perto de Hollywood" e "A Ponte Clandestina - Teorias do Cinema na América Latina" — ao enriquecimento de nossa precária bibliografia sobre cinema latino-americano.

Em pouco mais de 200 páginas, a pesquisadora apresenta rico painel dos problemas históricos enfrentados pelas cinematografias do Mercado Comum do Sul. No Brasil vivem 188 milhões de habitantes e são vendidos, anualmente, 100 milhões de ingressos. Os 39 milhões de argentinos consomem 37 milhões de bilhetes/ano. O cinema brasileiro gera, hoje, média de 60 longas/ano, que ocupam de 12% a 15% de seu mercado interno. Dados semelhantes aos argentinos.

Novas ondas

Só que nossos vizinhos vão mais ao cinema (0,94 contra nossos 0,53). E sua produção vive momento especial, que o livro ora define como "Nueva Ola", ora como "Buena Onda". O termo mais adequado é o primeiro, já que a expressão Buena Onda, mais abrangente, soma intencionalmente vocábulos em espanhol e português, para definir a onda latino-americana, que floresceu com o sucesso internacional de "Central do Brasil", "Amores Perros", "Cidade de Deus", "El Bonaerense" e "O Pântano".

O frisson argentino é visível em festivais internacionais e, também, no Brasil. Só em 2006, 12 filmes made in Argentina foram lançados em nossos cinemas. E alguns com bom desempenho de público. Caso notório de "Elsa & Fred" (150 mil ingressos). Já os filmes brasileiros não têm mobilizado os espectadores argentinos.

"Vizinhos Distantes" mostra, com riqueza de detalhes, as desigualdades que deixam revoltados os paraguaios (de produção escassa, embora recentemente tenham assistido ao triunfo em Cannes, de "Hamaca Paraguaya"), e desconfiados os uruguaios (que povoam país de 3,5 milhões de habitantes, contra 6,5 milhões de paraguaios). Mesmo que o Uruguai tenha vivido nos últimos cinco anos, uma verdadeira primavera cinematográfica (com "Pepita, La Pistolera", "25 Watts", "En la Puta Vida" e, principalmente "Whisky", detentor de 17 prêmios internacionais).

Denise Mota busca desvendar razões (especialmente as de natureza político-econômica) para que continuemos vizinhos distantes e desinteressados uns pelos outros. Mostra — como testemunha o distribuidor e exibidor paulista, Adhemar Oliveira — que "se vai a Cannes, e não a Buenos Aires, para comprar um filme argentino". Cláudio MacDowell (que dirigiu o brasileiro-paraguaio "Toque do Oboé") e Henrique Freitas Lima (diretor do brasileiro-argentino-uruguaio "Lua de Outubro") contam sua via crucis junto às autoridades alfandegárias do MercoSul.

Em tom duro, até ressentido, os paraguaios denunciam "o imperialismo interno", ou seja, o poder evidente e o desinteresse de Brasil e Argentina pela história cultural paraguaia. O crítico de cinema do ABC Color, Sergio Ferreira, pergunta: "O brasileiro médio ou o argentino médio tem interesse em conhecer algo do Paraguai?".

Os problemas se revelam ainda maiores do que os imaginamos. Pablo Trapero, um dos grandes talentos do novo cinema argentino, não esconde sua total desinformação sobre o MercoSul. Profissionais veteranos lembram que o bloco alimenta-se essencialmente de interesses econômicos e alfandegários. Interesses que não consegue equacionar. Para piorar o estado das coisas, as autoridades do Mercosul ostentam total desinteresse por assuntos culturais-cinematográficos.

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO

Jornalista

Do que há séculos nos separa

No meio de tanto desalento (a jornalista brasileira Denise Mota ouviu 50 artistas e intelectuais do MercoSul), uma voz se destaca pela lucidez e consistência de suas análises: Octavio Getino, parceiro de Fernando Solanas em "La Hora de los Hornos". Hoje, Getino dirige o Observatório MercoSul, importante banco de dados sobre feitos e desafios de nossas cinematografias (www.oma.recam.org).

O livro de Denise torna-se, de agora em diante, ferramenta de grande valor para quem se dispuser (quem sabe ela mesma) a mergulhar nas razões profundas (subjetivas e simbólicos) do que há séculos nos separa. Há sim, razões políticas e econômicas, que ela estudou com empenho para entender este distanciamento. Mas há, também, causas menos explícitas e igualmente corrosivas. Para revelá-las, será de bom alvitre solicitar que "Freud as explique" (quem sabe convocando as dezenas de psicanalistas que povoam até filmes policiais argentinos, caso do divertido "Tempo de Valentes").

Serviço:

Vizinhos Distantes - Circulação Cinematográfica no Mercosul, de Denise Mota - Editora Annablume/Fapesp. 204 páginas. Capa de Carlos Clémen. Preço: R$ 30,00.

SUCESSO

País - População - Espectadores - Indice - (De 2002-2005 *)

Argentina 39 milhões 37 milhões 0,94

Brasil 188 milhões 99 milhões 0,53

Paraguai 6,5 milhões 600 mil 0,10

Uruguai 3, 4 milhões 2,5 milhões 0,74