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Saense

Viver sem guerra? As violências nas periferias a partir da narrativa de mulheres

Publicado em 10 agosto 2021

Por Margareth Artur, Revistas da USP

As autoras investigaram os efeitos de gênero dessa guerra, priorizando as narrativas de mulheres da Vila Carolina Maria de Jesus [1]

A questão da violência nas periferias é manchete diária nas mídias sociais e jornais: notícias de crianças, jovens e adultos que morreram vítimas de balas perdidas, de preconceitos e de intolerância no Rio de Janeiro. Há a guerra declarada acionada pelo Estado contra o tráfico de drogas, em uma realidade de tiros disparados, explosão de bombas e invasão de casas com a morte dos ocupantes.

Nesse contexto, a guerra pelo controle dos territórios das periferias é consumada pelo uso do poder e da força, tendo como consequência a destruição e danos, não só materiais, mas também emocionais e psicológicos. E as famílias que vivem nesses espaços, como lidam com essa situação? Como se dá esse processo, como ele é visto e enfrentado pelos homens e pelas mulheres? As pesquisadoras Patrícia Birman e Camila Pierobon, autoras do artigo Viver sem guerra? Poderes locais e relações de gênero no cotidiano popular , publicado na Revista de Antropologia, investigam os efeitos do gênero dessa guerra, priorizando as narrativas de mulheres da Vila Carolina Maria de Jesus, ouvidas e registradas pelas autoras, “ao acompanhar situações que envolveram maus-tratos físicos e morais, ameaças e assassinatos enfrentados por mulheres”.

Apresenta-se algumas das histórias de vida de três moradoras da Vila: Sueli, Cristina e Mariana, “mulheres decididas e com uma longa história em várias periferias”. Na busca pela regularização dos territórios e imóveis, em março de 2011, uma facção do tráfico de drogas invadiu a Vila e, assim, estabeleceu-se um novo regime político local, pois a Vila “passou a ter dono, fazendo com que os moradores passassem a entender que seu pequeno bairro havia se transformado em uma favela”. Os moradores, perplexos, estavam diante da brusca mudança no bairro: da autogestão para um regulamento de obediência ao tráfico. Nessa conjuntura, as famílias tinham medo, principalmente as mulheres, em relação à ausência de liberdade e à luta pela vida de seus entes queridos, sobretudo dos filhos.

Segundo as autoras, em relação aos valores morais compartilhados, as mulheres deveriam ficar neutras, sem tomar partido, assim conseguiriam um pouco mais de respeito do que os homens pelo fato de contarem com sutileza, estratégia e esperteza para driblar as situações mais complicadas, como refazer a vida após o assassinato de seus filhos e maridos. Ressalta-se a mobilização e a resistência de uma das entrevistadas perante a pressão de ficar sem moradia, com a elaboração de um plano de denúncia para expulsar os “donos do barracão”, como a carta que enviou à sociedade em geral, cujo final é um grito de revolta: “O povo brasileiro já demonstrou que não é bobo. Nós que vivemos e ganhamos nosso pão aqui, construímos esse bairro e não vamos deixar acabarem com ele”.

Infelizmente a denúncia não obteve resposta, ficando evidente “a indiferença da hierarquia policial e política em interferir para acalmar uma população na margem da pobreza, ainda que exterior às favelas”. A respeitabilidade moral como componente das “relações de gênero e de guerra” deve-se à responsabilidade das mulheres com os filhos e com a comunidade, garantindo o abastecimento de água no barracão, por exemplo. Nessa guerra sem fim, que já dura quarenta anos, os homens, principalmente jovens e negros, estão mais sujeitos a matar e a morrer, e as mulheres, na maioria negras, mães, irmãs e esposas, a elas cabe enfrentar o constante sofrimento das perdas e a difícil, mas inevitável, reconstrução da vida, “mulheres que são forçosamente enredadas às relações de poder que incluem os atores do tráfico de drogas e do estado”, na espera de, um dia, viver sem guerra.

Artigo

BIRMAN, P.; PIEROBON, C. Viver sem guerra? Poderes locais e relações de gênero no cotidiano popular. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 64, n. 2, e186647, 2021. ISSN: 1678-9857. DOI: https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2021.186647 Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/186647 . Acesso em: 15 jul. 2021.

Contatos

Patrícia Birman – Antropóloga, professora do Departamento de Antropologia da UERJ e pesquisadora do CNPq.

patriciabirman@gmail.com

Camila Pierobon – Antropóloga e pós-doutoranda no IPP/Cebrap e bolsista Fapesp.

camilapierobon@gmail.com. [2]

[1] Foto: Lawrence Crayton/Pixabay.

[2] Texto de Margareth Artur/Revistas da USP.

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