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Jornal do Brasil

Viver, ainda não dá; sobreviver de literatura

Publicado em 13 outubro 2007

Por Mariana Filgueiras e Vivian Rangel

A lista é heterogênea: entre os selecionados, desde escritores já consagrados como o poeta Carlito Azevedo, Gustavo Bernardo Krause, indicado ao prêmio Jabuti em 1999, e Cintia Moscovich, que já conta mais de 10 livros publicados, a escritores iniciantes, como Rodrigo Souza Leão e Bruno Zeni. As propostas, idem: há policiais, poesia, romances com histórias ambientadas em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e até com inspiração indígena (veja a lista dos selecionados, com a descrição temática dos livros, no site da Petrobras).

Em comum, a maior parte coleciona cartas-padrão de editoras: "Obrigado, mas a obra não se identifica com o nosso perfil". Desta vez, a carta com o resultado do processo seletivo foi recebida como uma alforria das amarras do mercado editorial - os autores não só receberão R$ 3 mil por mês por até um ano, dependendo do projeto, como já têm certeza da publicação da obra.

- É como se apostassem em você. Uma baita responsabilidade, não? - assusta-se o escritor Rodrigo de Souza Leão, carioca, 41 anos, que defende o livro Todos os cachorros são azuis, uma novela sobre a loucura inspirada em sua experiência pessoal.

"Esquizofrênica" é a maneira pela qual a escritora Állex Leilla, de Salvador, na Bahia, define a condição da literatura no país quando é desvalorizada por pessoas que vivem dela.

- É comum encontrarmos editores que odeiam literatura, professores que odeiam literatura, estudantes que odeiam literatura - critica ela, professora de literatura, dona de livraria e doutoranda que se inscreveu com o livro Primavera nos ossos. - Procurei casar literatura com uma pesquisa acerca da condição feminina na Bahia. O romance vai assumir uma linguagem pop, porque lida com a mistura entre a baixa e alta cultura, com referências musicais, cinematográficas e filosóficas.

Selecionada com o projeto Roça barroca, livro de poesias ambientado no interior do país a partir de referências indígenas, a escritora e tradutora Joselly Vianna - responsável pela tradução no Brasil de obras de Jorge Luis Borges, Alan Pauls e Alejo Carpentier - faz algumas sugestões ao projeto, que considera "bárbaro":

- Nas suas próximas edições, o edital poderia prever a continuidade do apoio a projetos cujo escopo vá além, para que o escritor pudesse realizar uma obra, e não apenas um livro.

Escritor e tradutor, Joca Reiners Terron, escolhido pelo projeto A extinção da infância - ele preferiu não dar detalhes sobre a obra - sugere a ampliação do programa para um de incentivo à leitura.

- Já imaginou um Portugal Telecom de Melhor Leitor? A literatura é uma via de duas mãos, entre emissor e receptor, e a nossa situação é trágica, exigindo estímulo dos dois lados.

Deixar completamente todas as atividades para dedicar-se à escrita, mesmo com a bolsa, é impossível. A professora universitária e tradutora Paula Glenadel foi selecionada com o livro A fábrica do feminino e conseguiu, pelo menos, deixar de lado as traduções, atividade que supria parte de suas despesas.

- O livro será composto de poemas e prosas poéticas em que diferentes personagens terão voz, partindo da idéia geral de que o feminino é um fato cultural fabricado - explica Paula.

O livro, no entanto, ainda espera - os escritores só começam a receber o incentivo depois que tiverem, cada um, seu projeto aprovado pela Lei Rouanet. Um imprevisto para os organizadores do projeto.

- Como é a primeira edição do projeto, é natural que faltem alguns ajustes. Com a greve no Ministério da Cultura e nos Correios, a burocracia emperrou o processo. Mas é só uma questão de tempo - explica Arthur Nestrovski, do conselho do PPC.

Alguns escritores nem vão esperar o dinheiro: o paulista Bruno Zeni, professor de jornalismo na Facamp, já está com 80% do livro prontos. A obra Corpo a corpo com o concreto é um romance que articula a história de um jornalista desiludido com a de um morador de rua de São Paulo.

Ou o escritor Sergio Alcides, que pleiteou a bolsa para terminar o seu livro de poemas Píer, trópico .

- Nem passa pela minha cabeça a idéia de viver de literatura. Sobreviver, talvez: viver além, sair de mim mesmo, viver também na linguagem e nos outros. Esse é o sonho que importa, que tem um significado público e por isso justifica o dispêndio de recursos - analisa.

E há quem esteja contando com cada centavo do incentivo. A escritora Ivana Arruda Leite, que foi escolhida pelo projeto Hotel Novo Mundo, lembra que trabalha oito horas por dia como funcionária pública para ganhar menos do que a bolsa.

- A literatura é a filha enjeitada das artes, a Gata Borralheira que vive no sótão, enquanto as irmãs vão ao baile e se divertem no salão dos incentivos. De vez em quando, uma fada madrinha faz um encanto e nos permite dar uma espiada no salão. Eu estou me sentindo assim. Mas sei que, à meia-noite, o encanto acaba e eu terei de voltar aos meus trapinhos - compara, referindo-se ao fato de não poder deixar o emprego para dedicar-se ao que mais gosta.

O escritor e professor de literatura Marcus Vinícius Freitas, selecionado pelo romance Peixe morto - uma trama policial passada em Belo Horizonte - discorda e apresenta outro ponto de vista:

- Quem quer ser reconhecido como escritor não pode se pautar pelo fato de o país investir ou não em cultura. A motivação é, antes de tudo, o impulso pessoal de querer entender o mundo e comunicar-se com outras pessoas. Não concordo com uma visão que joga para o Estado a obrigação primordial de financiar a cultura. Como obrigação, ele deve financiar apenas a infra-estrutura, a educação básica e a Justiça.


Uma briga que vem de muito longe

O Projeto Petrobras Cultural (PPC) começou a ser gestado em 2004. Convidado a participar de uma reunião no Ministério da Cultura naquele ano, o poeta Ademir Assunção percebeu que as propostas para a área traziam dois pesos e duas medidas. Por exemplo: os incentivos visavam diretamente os setores teatral e musical, enquanto os destinados à literatura eram voltados ao livro como produto final.

- Não havia sequer a palavra literatura escrita no texto - lembra Assunção. - Nas outras áreas se discutia a linguagem, enquanto na literatura só se falava de livro e leitura. Pedi a palavra e perguntei se o governo não teria projetos para a criação literária. O próprio ministro Gilberto Gil falou que, para isso acontecer, seria preciso descobrir e organizar as demandas.

As reivindicações literárias foram reunidas no Manifesto Literatura Urgente, entregue ao Ministério da Cultura no fim de 2004. Junto a Assunção, escritores como Ricardo Aleixo e Marcelino Freire trataram de divulgar o documento com as prioridades. No topo da lista, projetos de fomento à criação literária que incluíam bolsas e utilização de parte do Fundo Nacional da Literatura.

- Esse fundo foi criado ainda em 2004 para desonerar as editoras em 11% dos impostos pagos. Em contrapartida, elas depositariam 1% do lucro líquido no fundo, o que não gerou protestos entre os editores - explica Assunção. - Desse fundo, a gente sugeria que 30% fossem usados para incentivos à criação. O problema é que até hoje o fundo não não saiu do papel. O governo alega que há dificuldades jurídicas.

Três anos depois, além da difusão das propostas e do aumento no número dos debates com espaço na mídia, o único projeto concreto que, de certa forma, atende parte das reivindicações do Literatura Urgente é o Programa Petrobras Cultural.

- A bolsa do PPC é quase igual à que a gente propôs. A única diferença é que, no nosso projeto, o patrocínio só seria concedido a escritores sem vínculo empregatício - explica Assunção. - Tanto os valores, o tipo de edital quanto a duração da bolsa são os mesmos.

Marcelino Freire também acredita que a bolsa da Petrobras teve inspiração no Literatura Urgente, mas considera que esse tipo de iniciativa isolada ainda é um resultado frustrante.

- A bolsa da Petrobras é um espelho da nossa luta - confirma Marcelino. - Ainda é muito pouco, se pensarmos em tudo aquilo que foi pleiteado. E é preciso dizer que muitos dos que nos criticaram à época se inscreveram para concorrer.

Responsável pela criação do edital, o músico, editor e escritor Arthur Nestrovski explica que o texto não foi influenciado diretamente pelo movimento.

- Como escritor e editor, conheço os dois lados do balcão, todas as dificuldades da criação literária. Os problemas são os mesmos e atingem tanto as editoras quanto os escritores - pondera Nestrovski. - Queríamos que, durante um ano, o escritor não precisasse se matar de trabalhar para terminar um livro. Quanto ao valor, não é um salário, mas tampouco uma quantia inexpressiva. Claro que não enriquece ninguém.

Sobre as sugestões feitas pelos próprios contemplados, como a ampliação para um programa de incentivo à leitura - somando-se ao da escrita - ou a extensão da bolsa para obras que tenham continuação, Nestrovski enfatiza que o projeto será repensado, avaliado e melhorado para o próximo ano. Os critérios para seleção, no entanto, vão permanecer. A Petrobras só deve incentivar literatura, única e exclusivamente.

- O programa só está aberto para textos de criação literária, não para ensaios críticos, que, apesar de não estarem em situação ideal, já têm mais possibilidades de apoio. Por exemplo: se você for um Antonio Cícero e quiser publicar seus poemas, não encontrará um programa de incentivo. Mas, se quiser escrever sobre a obra de Cícero, transformar uma tese em livro, pode batalhar uma bolsa Capes, Fapesp, ou outra.

Atenção, escritores: as inscrições para o próximo edital começam em março do ano que vem. O regulamento do programa e mais informações no site da Petrobras.