Notícia

Gazeta Mercantil

Vitória contra Chagas

Publicado em 23 maio 2003

Por ANDRÉ VARGAS - de São Paulo
Em meio ao temor da pneumonia asiática, o Brasil está perto de obter uma vitória, ainda que parcial, contra a doença de Chagas. A doença é incurável e infecta cerca de 6 milhões de brasileiros, matando pouco mais de mil a cada ano - sendo quase todos moradores de áreas rurais e que só apresentaram sintomas graves 10 ou 20 anos após o contágio.Agora, pesquisadores da Universidade de Franca (Unifran) e da Faculdade de Farmácia de Ribeirão Preto (USP), no interior de São Paulo, estudam um novo medicamento à base de cubebina, substância extraída da semente seca da pimenta asiática (Piper cubeba) Mesmo sem oferecer uma cura definitiva, durante os testes in vitro (células) e in vivo (camundongos), a cubebina não causou os efeitos colaterais do Rochagan, o remédio mais utilizado, à base de benzonidazol, que retarda os efeitos da doença, mas afeta o sistema hepático dos pacientes. Antes que as multinacionais se interessassem, os pesquisadores pediram à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou a pesquisa, que encontrasse um parceiro nacional. O Laboratório Teuto Brasileiro, de Anápolis (GO), se interessou e está em negociação adiantada. O potencial de negócio é enorme. De áreas do sul dos Estados Unidos até o centro da Argentina e do Chile, a doença de Chagas atinge cerca de 16 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, a vigilância sanitária gasta anualmente cerca de R$ 70 milhões, de acordo com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), para erradicar os besouros vetores da doença, sem contar os gastos com internações e medicamentos. Márcio Andrade, um dos coordenadores da pesquisa na Unifran, lembra que a descoberta ocorreu por acaso. "Só tínhamos a pesquisa em mente. A intenção era criar em laboratório um derivado mais ativo." Os resultados foram extraordinários. Os pesquisadores obtiveram derivados 10 vezes melhores do que a própria cubebina e cinquenta vezes melhores do que a violeta de genciana, usada nos bancos de sangue para eliminar o parasita de Chagas. A primeira das vitórias veio daí. "O inconveniente da violeta de genciana é que deixa o sangue anóxico (azulado) até ser eliminada da corrente sanguínea. Existem estudos que indicam que a substância seja cancerígena, por isso seu uso está em declínio", explica Andrade. Já a cubebina funciona de modo oposto. Nos testes eliminou o protozoário e funcionou como protetor hepático. Tanto que no Japão a substância já está patenteada para esse fim. O melhor de tudo é que a pesquisa até agora tem sido barata para os padrões internacionais. De 1998 a 2003, a Fapesp repassou pouco mais de R$ 250 mil para uma equipe de cinco pesquisadores. Praticamente o valor de um apartamento novo de classe média na capital paulista. Na carona, planeja-se voltar as atenções também para a Leishmaniose, doença cujo protozoário causador é da mesma família do Trypanosoma cruzi. "As perspectivas são favoráveis para o crescimento do grupo de estudo", afirma Sérgio Figueiredo, pesquisador da Faculdade de Farmácia de Ribeirão Preto e responsável pelos ensaios biológicos. Ainda que a Food and Drugs Administration (FDA), o órgão de saúde norte-americano, não se preocupe tanto com o assunto, existe a possibilidade de cooperação. A doença começou a aparecer nos EUA com as levas de migrantes latinos. Em Anápolis há um quê de pessoal nas negociações com a Fapesp. No passado, dois parentes de Epaminondas Jr., diretor de planejamento do Laboratório Teuto Brasileiro, morreram vitimas de Chagas. "Acredito que investindo mais US$ 200 mil ou US$ 300 mil poderemos ter um remédio melhor do que o existente", diz. O único entrave é o tempo de licenciamento da patente. Como serão necessários alguns anos para o desenvolvimento final, o prazo de cinco anos concedido inicialmente pela Fapesp é considerado curto. Pelas estimativas do laboratório, os testes em humanos começariam no final de 2003 e o medicamento chegaria às farmácias em 2005. Sobrariam três anos para obter o retorno financeiro. Mesmo assim a questão é vista como um avanço. "Não era hábito dos laboratórios nacionais se aproximar das instituições de pesquisa. De uns anos para cá isso está mudando", diz Epaminondas Jr. Em Anápolis, o Instituto de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal de Goiás estreita as ligações com os laboratórios instalados no pólo local. Edgar Zanotto, coordenador do Núcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec) da Fapesp, criado há dois anos e meio, explica que o prazo I oferecido ao Teuto é o mesmo aplicado no mercado internacional para os casos de exclusividade. Porém há possibilidade de mudança. "Nada é imutável", pondera Zanotto. A política da instituição ainda está em formação. Tanto que os primeiros royalties entraram no caixa só em abril. O primeiro cheque, de pouco mais de RR 4 mil, veio da patente de uma nova broca odontológica. No caso de um remédio que aliviasse; os chagásicos, os royalties seriam bem mais polpudos.