Notícia

Gazeta Mercantil

Vitaminas aumentam incidência de câncer

Publicado em 23 janeiro 1996

Por Clive Cookson - Financial Times
Depois de dois anos de testes com vitaminas A e beta-caroteno aplicados em 18 mil voluntários fumantes, para avaliar a possibilidade de essas substâncias poderem protegê-los do câncer de pulmão, cientistas da Universidade norte-americana de Washington, em Seattle, suspenderam a pesquisa para informar aos voluntários que, na verdade, os efeitos registrados indicavam resultado oposto. Entre os que tomaram as vitaminas indicadas, foram registrados 28% mais de casos da doença (e 17% mais mortes) que entre os que tiveram ministrados placebos. (Ver página C-3) ESTUDO INDICA QUE VITAMINAS AUMENTAM INCIDÊNCIA DE CÂNCER Cientista diz que fumantes devem evitar beta-caroteno e vitamina A. Testes nos Estados Unidos envolvendo milhares de fumantes para verificar se pílulas de vitamina podem protegê-los do câncer foram encerrados dois anos depois que os resultados iniciais mostraram que as pílulas podem aumentar o risco da enfermidade. Esta semana os pesquisadores declararam aos 18 mil participantes do estudo que, após quatro anos, houve um aumento de 28% de casos de câncer do pulmão e 17% de mortes entre os que ingeriram vitamina A e beta-caroteno - uma vitamina relacionada - que entre os que tomaram pílulas inócuas, chamadas placebos. A equipe de pesquisadores da Universidade de Washington, em Seattle, advertiu que "as vitaminas não trouxeram benefícios e podem ser prejudiciais". Peter Greenwald, do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, que financiou o teste de US$ 42 milhões, advertiu os fumantes para que evitem a vitamina beta-caroteno. O encerramento do teste é um revés para a indústria internacional de vitaminas e em particular para a Roche da Suíça, a maior fabricante mundial de vitaminas. Calcula-se que a Roche vende mais de US$ 100 milhões em beta-caroteno ao ano. Ao mesmo tempo, os cientistas que estão conduzindo um segundo teste sobre vitaminas para o instituto, envolvendo 22 mil médicos, anunciaram que não descobriram evidências de prejuízos nem benefícios com a ingestão de suplementos alimentares de beta-caroteno. Os testes foram planejados para verificar a teoria de que grandes doses de beta-caroteno, uma vitamina antioxidante, combateriam o câncer suprimindo os danos causados pelos "radicais livres" ao corpo. Estudos dietéticos anteriores haviam ligado um alto consumo de beta-caroteno de frutas e vegetais à redução do risco de câncer. "Essa é uma história muito, muito triste", afirmou ontem Ursula Arens, especialista em nutrição na Fundação Britânica da Nutrição. "Estudos sobre dietas veterinárias e humanas produziram evidências esmagadoras sobre o efeito protetor do beta-caroteno, mas parece que os suplementos alimentares não têm o mesmo efeito que as frutas e vegetais." O alarme foi disparado a princípio por pesquisadores da Finlândia em 1994. Eles descobriram o aumento do câncer entre fumantes que estavam ingerindo beta-caroteno. Muitos entusiastas dos antioxidantes argumentaram que os resultados desapontadores da Finlândia deviam-se a alguma falha estatística ou fatores especiais, disse Arens, mas o anúncio dos Estados Unidos desta semana invalidou o argumento.