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Vitamina D não melhora casos moderados ou graves da COVID-19, diz estudo da USP

Publicado em 19 fevereiro 2021

Por Fidel Forato

Para auxiliar no tratamento de pacientes contaminados com o novo coronavírus (SARS-CoV-2), pesquisadores avaliam uma série de tratamentos, como o uso de vitamina D, em casos moderados e graves da COVID-19. Uma das ideias por trás deste estudo clínico brasileiro era de que uma parcela significativa de pacientes internados apresentava baixas taxas da vitamina no organismo, além de que a vitamina é conhecida por suas propriedades anti-inflamatórias.

“Estudos anteriores in vitro ou com animais mostraram que a vitamina D e seus metabólitos, em determinadas situações, podem ter efeito anti-inflamatório, antimicrobiano e modulador da resposta imune. Decidimos então investigar se uma dose alta da substância poderia ter efeito protetor no contexto de uma infecção viral aguda, seja reduzindo a inflamação ou diminuindo a carga viral”, comentou a pesquisadora e coordenadora do projeto, Rosa Pereira, para a Agência Fapesp.

A partir disso, o trabalho foi conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), com coordenação de Pereira, entre junho e agosto de 2020. No entanto, a suplementação de vitamina D, feita com uma única e alta dose do pró-hormônio em pacientes da COVID-19 não refletiu em melhora no quadro dos internados, de acordo com um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA).

Como foi o estudo com vitamina D?

Para testar a suplementação de vitamina D, os pesquisadores da USP conduziram um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e placebo-controlado. Em outras palavras, nem os médicos e nem os pacientes sabiam se estavam recebendo o tratamento ou apenas um placebo. Dessa forma, a evolução da COVID-19 foi avaliada em 240 voluntários atendidos no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Os voluntários do estudo foram divididos aleatoriamente em dois grupos, sendo que uma parte recebeu uma única dose de 200 mil unidades (UI) de vitamina D3, diluída em óleo de amendoim e, os demais, apenas o óleo de amendoim. Em paralelo a essa suplementação, todos os participantes foram tratados com o protocolo hospitalar padrão, o que consiste em antibióticos e anti-inflamatórios.

Vitamina D pode ser aliada contra a COVID-19?

Para o estudo, a ideia era avaliar se a suplementação com vitamina D teria um impacto positivo na redução do tempo de internação dos doentes diagnosticados com a COVID-19. Além disso, os pesquisadores buscaram avaliar se haveria redução do risco de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), intubação e óbito entre os voluntários.

Para nenhum dos desfechos clínicos avaliados pelo estudo foi observada diferença significativa entre os grupos, ou seja, a Vitamina D não demonstrou ser uma aliada no tratamento destes pacientes contaminados pelo coronavírus. Por outro lado, a suplementação não identificou nenhuma reação adversa grave, exceto o caso de um paciente que vomitou após receber a suplementação.

“Até este momento, podemos dizer que não há indicação para ministrar vitamina D a pacientes que chegam ao hospital com a forma grave da COVID-19”, explica Pereira. Sobre esses resultados, Bruno Gualano, pesquisador da FM-USP e coautor do artigo, aponta que “isso não significa, contudo, que o uso continuado de vitamina D não possa exercer alguma ação benéfica” no tratamento para outros casos.

Mais pesquisas sobre a vitamina D

Para avaliar outros potenciais usos da vitamina D em pacientes da COVID-19, a pesquisadora coordena um segundo estudo também na USP. Neste caso, avalia se indivíduos com níveis suficientes de vitamina D no sangue lidam melhor com a infecção pelo coronavírus do que aqueles com níveis insuficientes da substância no organismo.

Uma das dificuldades para a nova empreitada é que o nível ideal de vitamina D no sangue e a dose diária que deve ser suplementada varia de acordo com a idade e as condições de saúde de cada indivíduo. “O ideal é analisar caso a caso, se necessário dosar periodicamente a substância através de exames de sangue e, se for o caso, repor o que falta”, aponta Pereira. Por exemplo, idosos e pacientes com doenças crônicas, como osteoporose, devem ter valores circulantes acima de 30 nanogramas por mililitro de sangue (ng/mL), enquanto adultos saudáveis podem receber valores a partir de 20 ng/mL.

O estudo completo sobre a vitamina D, publicado no Journal of the American Medical Association e que recebeu apoio da FAPESP, pode ser acessado aqui.

Fonte: Canaltech