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Visões da bioenergia

Publicado em 25 março 2010

Cada região do planeta tem uma percepção peculiar sobre o futuro da bioenergia. Enquanto a América Latina acredita na possibilidade de ampliar as áreas plantadas de cana-de-açúcar para substituir por etanol parte da gasolina consumida no planeta, os Estados Unidos apostam com mais ênfase no desenvolvimento de tecnologias para extração do etanol de celulose, que seriam capazes de garantir quantidades de combustível maiores sem ocupar muito espaço de áreas agriculturáveis. Para a Europa, a segurança alimentar, que estaria ameaçada pelo avanço de culturas para produção de biocombustíveis, é um tema especialmente sensível. Já a África, a despeito de seus problemas reais de segurança alimentar, a Ásia e a Oceania veem os biocombustíveis como oportunidade de desenvolvimento, desde que explorados de forma sustentável.

Tal panorama emergiu de uma mesa redonda, realizada no auditório da FAPESP, em São Paulo, na manhã de quarta-feira (24/03), sobre o status do Projeto Global Sustainable Bioenergy (GSB), que reúne cientistas de vários países em um esforço internacional para viabilizar a futura produção de energia sustentável em escala mundial. O evento faz parte da Convenção Latino-Americana do GSB, organizada pela FAPESP e a Academia Brasileira de Ciências, que se encerra nesta quinta-feira (25/03).

Patricia Osseweijer, professora da Universidade Tecnológica de Delft, na Holanda, expôs a divisão da opinião pública europeia em relação à bioenergia e às mudanças climáticas, abordou os temores de que a produção de etanol e biodiesel comprometa a oferta de alimentos no mundo e enfatizou a necessidade de avançar na pesquisa de biocombustíveis sustentáveis a fim de superar resistências. “Quando os políticos têm medo, eles não tomam decisões”, afirmou. Para os europeus, segundo Patricia, uma saída mais plausível para mudar o portfólio atual de matrizes energéticas, tido como insustentável, seria o etanol de segunda geração, extraído de celulose. A resolução da Convenção Europeia do projeto GSB, realizada em fevereiro, enfatiza a necessidade de integrar a política de bioenergia com a de agricultura, de modo a garantir uma produção sustentável e sinérgica de alimentos, celulose, produtos químicos e bioenergia.

Emile van Zyl, professor da Universidade de Stellebosch, na África do Sul, enviou um vídeo com sua conferência. Nele, o pesquisador ressaltou que a bioenergia pode trazer diversos benefícios ao continente africano, como criar uma nova fonte de divisas, impulsionar a agricultura, gerar empregos, reduzir as emissões de gases estufa e reduzir a insegurança política da região. Mas, para alcançar tais objetivos, há uma série de desafios a superar. “Experiências que funcionaram em outros países não necessariamente funcionarão na África”, disse. Segundo ele, é preciso levar em conta a experiência e a cultura local e ter em mente que o continente é carente em infraestrutura e serviços de apoio, que precisam ser criados para permitir a exploração da bioenergia, além, é claro de investimentos.

Ramlan Abd Aziz, professor da Universidade Tecnológica da Malásia, fez um balanço do desenvolvimento da bioenergia na Ásia e Oceania. Segundo ele, boa parte dos países já dispõe de políticas para elevar a produção de biocombustíveis. A Tailândia, por exemplo, tem 9 plantas de etanol e 9 de biodiesel e incentiva o consumo de gasolina misturada com etanol. O mesmo ocorre na China, onde, contudo, há conflitos em relação ao impacto do avanço da produção de etanol na segurança alimentar. Em Mianmar, o destaque é o biocombustível extraído de jatropha (conhecida no Brasil como pinhão manso) – o país tem 90% das plantações de jatropha do planeta. Segundo Aziz, o Sudeste Asiático tem potencial para produzir 14 mil barris por dia de combustíveis renováveis, acima dos 11 mil barris de petróleo explorados pela Arábia Saudita. “Temos clima tropical, disponibilidade de água e de terra, e trabalho barato. Por isso o sudeste asiático pode se tornar uma potência dos biocombustíveis”, afirmou. Para ir adiante, ressalta, seria preciso reduzir as barreiras impostas à importação de biocombustíveis na Europa e nos Estados Unidos e avançar no desenvolvimento do etanol de segunda geração.

Nathanael Greene, do Natural Resources Defense Council, dos Estados Unidos, mostrou a trajetória dos biocombustíveis nos Estados Unidos – a produção de etanol de milho teve início como resposta à crise do petróleo nos anos 1970, assim como aconteceu com o álcool de cana brasileiro. Greene abordou as dificuldades políticas de mudar a matriz energética norte-americana e enfatizou que os Estados Unidos precisam de soluções de grande impacto, capazes de ajudar o país a reduzir substancialmente suas emissões de gases estufa sem privá-lo de energia. Por isso, segundo disse, o etanol de segunda geração, extraído de celulose, soa como uma alternativa mais atraente do que o de primeira geração, que exigiria muita terra para plantar, apesar das incertezas que ainda cercam essa nova tecnologia.

O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, forneceu ao debate a perspectiva brasileira. Segundo ele, a ambição do GSB, que é saber se é possível, de forma sustentável, utilizar a bioenergia para suprir 25% da demanda internacional de energia nos próximos 50 anos, pode ter uma resposta afirmativa. Ele mostrou que, com apenas 10% das áreas agrícolas atualmente disponíveis na América Latina e na África, descontando-se florestas e áreas com outros cultivos, seria possível suprir com etanol 15% da necessidade mundial. “A meta de 25% não é absurda”, ele disse, ressaltando, contudo, que há outras questões envolvidas, como a disposição dos países desenvolvidos de comprarem etanol dos dois continentes. Segundo Brito, os países desenvolvidos podem, para preservar sua segurança energética, optar por não depender dos biocombustíveis, como dependem hoje do petróleo do Oriente Médio.

Para mostrar que a substituição do petróleo pelo etanol é plausível, o diretor científico da FAPESP trouxe o exemplo do estado de São Paulo que, entre 1980 e 2008, reduziu de 59,8% para 33% a participação do petróleo entre suas fontes de energia, ampliando de 17,4% para 38%, no mesmo período, a participação dos combustíveis derivados da cana. E tal transformação, ressaltou, deu-se de forma sustentável. A cana avançou sobretudo sobre áreas de pastagens e não teve impacto sobre a pecuária, que compensou a perda de espaço com o aumento de produtividade. E a área de Mata Atlântica manteve-se em equilíbrio no período.