Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Visitantes indesejados

Publicado em 18 janeiro 2010

Um corvo de origem africana, encontrado na Baixada Santista, é uma das mais novas ameaças à biodiversidade brasileira. A ave faz parte do que os cientistas chamam de espécies invasoras, ou seja, que não são nativas de uma região. Hoje, elas são a segunda maior causa de extinções no mundo, perdendo apenas para a destruição de habitat.

De acordo com biólogos que acompanham o caso, o corvo deve ter chegado ao Brasil por meio de navios oriundos da costa ocidental africana, seja como animal de estimação ou como `clandestino". Como agravante, um estudo recém-concluído indica que a ave já se reproduz na região. Por ser um predador, o corvo africano ( Corvus albus) é uma ameaça direta à avifauna que habita os manguezais da Baixada Santista, composta por mais de 250 espécies, tais como o guará vermelho, sob risco de extinção no Sul e Sudeste do País.

UM CASO RARO

O primeiro registro foi feito pelo biólogo Bruno Lima, na zona portuária de Santos, em 2004. Desde então, ele e os ornitólogos Robson Silva e Silva e Fábio Olmos passaram a monitorar a espécie.

"É um caso raro, o primeiro registro do gênero no Brasil e talvez em toda a América do Sul", afirma Robson. "Tudo indica que ele está se reproduzindo". A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) vem monitorando a ave na região.

"Por enquanto a população é pequena", afirma o especialista ambiental da SEMA, Jefferson Rodrigues Tankus. Ele explica que em certos casos, se torna impossível erradicar um invasor. "Um exemplo são os pombos. A opção hoje é controlar essa população".

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, estima-se que as espécies invasoras estejam espalhadas por 18 estados, além de diversos pontos da zona costeira. São plantas e animais, assim como seres vivos microscópicos, distribuídos fora da sua área natural, de forma acidental ou intencional.

Ao se reproduzirem, apropriam-se do espaço, da água e dos alimentos das espécies nativas, podendo comprometer a sua sobrevivência. Além disso, em alguns podem transmitir doenças.

EXEMPLOS

A situação chegou a tal ponto que em 1997 a Organização das Nações Unidas criou o Programa Global de Espécies Invasoras, alertando para o perigo que representam para o equilíbrio ecológico. Exemplos não faltam.

No Brasil, um dos casos mais emblemáticos é o do caramujo-gigante-africano. Originário do nordeste da África, ele entrou no Brasil na década de 1980, como suposta opção à criação de escargot. Disperso na natureza, em pouco tempo se transformou em uma praga, destruindo plantações e disseminando moléstias.

Caminho semelhante teve o sapo-cururu. Ele saiu da América em 1935 e foi levado para a Austrália. O objetivo era combater besouros que destruíam plantações de cana.

Não deu certo. E pior: venenoso, ele se adaptou tão bem ao clima que já é possível encontrá-lo em densidades até dez vezes mais elevadas do que na América do Sul.

Mas são as plantas, segundo a ONU, representam hoje o maior número de espécies invasoras. O pinus, nativo do hemisfério Norte, representa hoje, ao lado do asiático eucalipto, nada menos do que 97% das florestas `plantadas" para obtenção de papel e celulose no Brasil. Seu cultivo intensivo, porém, pode alterar a acidez dos solos e inviabilizar a sobrevivência de animais, entre outros impactos.

O urso, o cervo, a tartaruga e os peixes de aquário

Quando se fala de espécies invasoras prejudicando animais locais, imagina-se logo um predador voraz que subjuga uma criatura indefesa. Mas isso não é uma regra. O que você diria, por exemplo, se uma dócil espécie de cervo fosse a causa da quase extinção de um feroz urso? Quem nos conta essa história é o biólogo canadense Steeve Côté, da Universidade de Quebec, tendo como `palco" a ilha Anticosti, uma das 90 maiores do mundo. Lá vive o urso negro. Esse mamífero se alimenta basicamente de frutos e pequenos animais. Em 1896, 220 cervos de cauda branca foram introduzidos na ilha. Hoje, existem mais de 120 mil. Resultado: os pequenos frutos, como as cerejas silvestres, base da alimentação do urso negro, praticamente desapareceram de Anticosti e, com elas, boa parte dos ursos.

TARTARUGAS E PEIXINHOS

À primeira vista, o caso pode parecer meramente curioso. Porém, situações semelhantes ocorrem aqui mesmo, no nosso cotidiano, com o agravante de que moramos em uma região cercada pela Mata Atlântica, uma das áreas com maior biodiversidade do mundo. A diferença é que ao invés do cervo de cauda branca, soltamos na natureza animais como cães, gatos, tartarugas e até peixinhos de aquário, todos aparentemente inofensivos, mas com grande potencial de dano à flora e à fauna ­ e, por tabela, à nossa qualidade de vida. "As pessoas nunca devem soltar animais de estimação na natureza. Eles devem ir para o zoológico, voltar para o pet shop ou serem doados para alguém que goste e cuide do bichinho", explica Sílvia diz Sílvia Ziller, doutora em Conservação da Natureza e diretora-executiva e fundadora do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. Uma espécie invasora bem comum é uma tartaruguinha conhecida como Tigre d"água (ela ilustra esta reportagem), natural dos Estados Unidos, mas muito encontrada por aqui. Em geral, ela é vendida bem pequena, com 5 centímetros, mas cresce, atinge cerca de 25 centímetros e não cabe mais no aquário. Aí as pessoas soltam o animal na água. "Trata-se de um grande competidor de espécies nativas que causa danos ao meio ambiente".

SAÚDE HUMANA

De acordo com a pesquisadora, as espécies invasoras têm principal impacto negativo na biodiversidade, mas também prejudicam a saúde humana, a cultura e a economia. "Estima-se que, em termos mundiais, os prejuízos agrícola, de saúde e no meio ambiente sejam de US$5 trilhões, ou seja, 5% do PIB - Produto Interno Bruto (a soma da riqueza de um país) mundial". A criação de peixes ornamentais é outro exemplo. Quando libertados na natureza, os peixes de aquário podem gerar impactos ambientais e até prejudicar a saúde humana. Nos EUA, estudos feitos pelo Serviço Geológico local revelam que a liberação de peixes de aquário é a segunda maior causa de introdução de espécies não-nativas. Já em Taiwan, na Ásia, pesquisadores das universidades de Kaohsiung e do Zoológico de Taipei, descobriram que 20 das 26 espécies de peixes não-nativos presentes nos ambientes naturais daquele país foram introduzidas devido a solturas de aquaristas. No Brasil, são raros os relatos de solturas por aquaristas. Mesmo assim, há registros de detecção de espécies ornamentais em áreas onde antes não viviam. (Com Agência Fapesp)

O avanço do coral-sol

A zona marinha brasileira tem, no mínimo, 58 espécies exóticas. O dado faz parte do livro `Informe sobre as Espécies Exóticas Invasoras Marinhas no Brasil" ­ o mais amplo inventário já produzido no País, recém-lançado pelo professor Rubens Lopes (IO-USP). Das 58 espécies, nove foram caracterizadas como invasoras de fato. "Só definimos uma espécie como invasora quando ela está causando algum tipo de impacto mensurável, seja ecológico, socioeconômico, cultural ou na saúde". É o caso, por exemplo, do coral-sol (foto), originário do Indo-Pacífico. Até a década de 1980 ele não ocorria no Brasil, quando foi observado em plataformas na Bacia de Campos. Mais recentemente, o coral dominou costões em Ilha Grande (RJ) e em agosto de 2008 foi registrado em Ilhabela. "O que se sabe até o momento é que ele compete diretamente com o coral-cérebro, que é nativo da região", alerta o pesquisador Alberto Lindner, do Centro de Biologia Marinha da USP. O coral-sol teria chegado ao Brasil alojado em cascos de navios petroleiros. Além dessa hipótese, o professor Rubens Lopes afirma que a água de lastro (despejada em quantidades imensas na costa brasileira) é outro importante meio de disseminação das espécies invasoras. Nesse sentido, regiões portuárias, como a Baixada Santista, são as mais afetadas, inclusive do ponto de vista sanitário. Outro vetor é a aquicultura. "A atividade traz organismos exóticos que acabam sendo lançados no ambiente natural e se tornam invasores", afirmou.

Estado cria grupo de trabalho

Existem dois tipos de espécies invasoras. As exótico-invasoras são originárias de outros países. Já as invasoras são oriundas do próprio País, só que de biomas diferentes. No Brasil, segundo o "Informe Nacional sobre Espécies Exóticas Invasoras", existiriam 543 organismos que afetam diferentes ecossistemas, incluindo a saúde humana. Em São Paulo, segundo dados de junho de 2009, do Instituto Hórus, haveria 86 espécies em diferentes níveis de invasão. Há seis meses, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente criou um grupo de trabalho (GT) para elaborar a "Estratégia Estadual sobre Espécies Exóticas Invasoras". Durante seminário que precedeu o lançamento do GT, a pesquisadora do Instituto Florestal, Natália Ivanauskas, informou ter registrado a presença de 43 espécies de plantas invasoras (13 nativas e 30 exóticas) em unidades de conservação paulistas. Por sua vez, Kátia Pisciotta, da Fundação Florestal, apontou a presença de animais invasores nas unidades de conservação, citando cães e gatos domésticos, além da lebre européia, micro-estrela, caramujo-gigante-africano e rã touro. Cecília Kierulff, da Fundação Parque Zoológico, explicou que a soltura de animais, sem a presença de especialistas, pode conduzir à hibridação de espécies, como o que ocorre com o sagui-de-tufo-branco, típico de áreas de cerrado e caatinga, com o mico-estrela (foto), do cerrado paulista, que já prolifera em áreas de Mata Atlântica.

Dados alarmantes

As espécies exóticas invasoras já contribuíram, desde 1600, para o desaparecimento de 39% das espécies de animais extintos por causas conhecidas, segundo dados da Convenção sobre Diversidade Biológica (ONU). Mais de 120 mil espécies exóticas de plantas, animais e microrganismos já foram registradas em seis países: África do Sul, Austrália, Brasil, Estados Unidos, Índia e Reino Unido. Nesses países, estima-se que a perdas econômicas decorrentes da introdução de pragas nas culturas, pastagens e nas áreas de florestas sejam de US$ 250 bilhões-ano. Estimativas globais giram em torno de US$ 1,4 trilhão de dólares de prejuízos anuais, o que representa cerca de 5% da economia global.