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Século Diário

Visita à coleção zoológica de Augusto Ruschi

Publicado em 16 maio 2018

No final de semana passado, visitei a coleção zoológica criada por meu pai e seu túmulo na Estação Biológica de Santa Lúcia – ambas pertenciam ao Museu Mello Leitão, mas foram tomadas pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) no processo de sua criação.

Por um lado, as visitas foram muito boas, pois eu estava acompanhado de pesquisadores que admiro pela exímia ciência e caráter, os professores Doutores Fabio Raposo do Amaral (Fapesp) e Scott V. Edwards (Harvard), respectivamente, juntamente com de seus alunos. Foi muito bom rever a coleção de espécimes testemunhos das descobertas científicas de meu pai, bem como registrá-los, cantando ao longo da trilha que leva ao seu sepulcro em Santa Lúcia. Outro ponto positivo da viagem foi ver a trilha da reserva bem cuidada, isso graças aos funcionários do Museu Nacional, que protegem e dão manutenção às trilhas, tendo também reformado o jazigo.

Mas, por outro lado, a visita trouxe angústia por rever a coleção zoológica em seu mau estado de acomodação. Nem mesmo os armários estão sendo mantidos em ordem de identificação – o que nos tomou um certo tempo para encontrar espécimes de aves. Mas isso não me surpreende. Como mencionado em colunas anteriores, eu mesmo fui proibido de trabalhar voluntariamente no MBML desde 2015, semelhantemente ao meu professor, José Eduardo Simon (in memorian), que sofreu perseguição no setor de zoologia e foi impedido de assumir o trabalho de curador da coleção de aves.

Acontece que, por algum motivo, ciência comprometida e sólido caráter não eram compatíveis com a gestão do antigo Museu Mello Leitão, tanto que trabalhadores de outros grupos zoológicos também sofreram perseguição dentro da instituição. Eis uma herança maldita que faz parte da gênese desse instituto, tanto pelo lado do Museu Mello Leitão como do Move INMA. Funcionários, estagiários, servidores, etc.; todos precisarão aprender a conter impulsos positivos de seu caráter e “deixar passar”, caso contrário, não terão nenhum tipo de futuro dentro da instituição.

Não é à toa que parte do corpo de pesquisa do INMA ainda é formado pelos mesmos indivíduos que se mostraram avessos à aplicação ética e comprometida dos parâmetros legislativos que deveriam ter norteado a criação de um instituto nacional sem o desmanche do Museu Mello Leitão, a exemplo de Arlindo Serpa Filho – então presidente da Associação dos Amigos do Museu de Biologia Professor Mello Leitão (Sambio), que ignorou o apelo de sócios para a necessidade de se cumprir o estatuto de defesa do patrimônio do Museu Mello Leitão.

“É curioso que a coragem física seja tão comum no mundo e que a coragem moral seja tão rara”. Mark Twain