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Vírus influenza A (H1N1) induz inflamação que destrói células do pulmão

Publicado em 19 dezembro 2009

Em meio à primavera chegou ao fim no Brasil a temporada de gripe de 2009, na qual o principal vilão foi o vírus influenza A (H1N1), causador da gripe suína, a primeira pandemia deste século. Na segunda semana de outubro o Ministério da Saúde registrou no país apenas 78 casos graves de infecção pelo vírus, uma redução brutal (97%) em comparação com o pico de ocorrência da enfermidade na segunda semana de agosto. Em seis meses o H1N1 deixou ao menos 19 mil brasileiros com febre alta, dores musculares intensas e uma angustiante falta de ar e matou 1.368 - quase um terço dos 4.735 óbitos por gripe contabilizados no mundo nesse período em que foram confirmados 399 mil casos.

Enquanto o Brasil e outros países começavam a se preparar para a segunda onda de gripe suína, que já se espalha pelo hemisfério Norte com a proximidade do inverno, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) con­cluíam as primeiras análises dos prejuízos causados no organismo pelo H1N1. Nos casos mais graves, verificou o grupo paulista, o corpo reage com uma ofensiva imunológica tão intensa que mata o vírus, mas também provoca destruição nos pulmões tão grave a ponto de fazê-los parar de funcionar.

O sinal mais evidente desse estrago é a falta de ar (dispneia) intensa, bastante frequente nas pessoas que desenvolveram a forma mais grave - e por vezes letal - da gripe suína. "Todo médico deve ficar alerta a esse sintoma, indicador de que a infecção pode ser mais grave", afirma a patologista Thais Mauad, da USP, primeira autora do estudo publicado on-line em 29 de outubro no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, o primeiro a descrever de modo sistemático as lesões fatais induzidas pelo H1N1.

Thais e outros 14 pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP que trabalharam sob a coordenação dos patologistas Paulo Hilário Saldiva e Marisa Dolhnikoff chegaram a essa conclusão ao examinar amostras de diferentes órgãos de 21 pessoas mortas na cidade de São Paulo em decorrência da gripe suína. "Esses casos são representativos das regiões Sudeste e Sul, que concentraram o grosso das ocorrências no país", afirma a epidemiologista Denise Schout, da equipe da USP.

Danos intensos - Em quase todos os casos - precisamente 20 dos 21 -, os pulmões apresentavam destruição em massa de alvéolos, bolsas microscópicas no interior das quais ocorrem trocas gasosas. Em uma proporção menor (29% das pessoas), havia também inflamação intensa e morte celular nos bronquíolos, ramificações dos tubos que conduzem o ar da traqueia até os pulmões, enquanto em 24% dos casos também foi detectado sangramento (hemorragia), decorrente do rompimento dos vasos que irrigam os alvéolos.

"O tipo de dano encontrado é semelhante ao que já se observou em outras pandemias de gripe, como a de 1918, a de 1957 e a de 1968, embora nas anteriores, em especial na primeira, a taxa de mortalidade fosse muito mais elevada", comenta Thais. Outro achado chamou a atenção dos pesquisadores: 38% desses pacientes também apresentavam infecção por Streptococcus pneumoniae, bactérias causadoras de problemas nas vias aéreas. "Em casos como esses é importante associar antibióticos ao tratamento com antivirais", diz Thais. "Essas informações ajudam a compreender como a infecção se instala e avança e, no futuro, podem orientar o tratamento", comenta Denise.

Assassinas naturais - A concentração dos danos nos pulmões não significa que o H1N1 atinja apenas esses órgãos. Na quase totalidade dos casos, o vírus invade as células que recobrem internamente as vias aéreas superiores (nariz e garganta), provocando apenas os sinais típicos de gripe: tosse, dor e coriza. Apenas em uma proporção muito pequena o H1N1 escapa à camada de muco que ajuda a proteger as vias aéreas superiores e alcança também os pulmões, normalmente estéreis, complicando a situação - em 7% desses casos, segundo os dados da equipe da USP, a infecção pulmonar se agrava a ponto de levar à morte.

A análise microscópica e bioquímica dos pulmões indicou, no entanto, que os danos no órgão não são causados diretamente pelo vírus. Uma vez infectadas pelo H1N1, que assume o controle da maquinaria genética, as células dos alvéolos passam a produzir um sinalizador químico - o interferon-gama - que inibe a multiplicação do vírus e aciona as células de defesa conhecidas como assassinas naturais (natural killers ou simplesmente NK, em inglês). As NK, por sua vez, despejam sobre as células infectadas compostos tóxicos que induzem à morte programada ou à apoptose. Em níveis adequados, essa sequência de ações do sistema de defesa elimina os agentes infecciosos e ajuda a restabelecer a saúde do órgão. Mas, quando excessiva, acaba por danificá-lo - em alguns casos, de modo irreversível.

No pulmão de quem morreu com a gripe suína, Thais e Ludhmila Hajjar encontraram níveis de interferon-gama e número de células NK muito superiores aos observados nos pulmões de pessoas saudáveis. Ainda não se sabe ao certo o que, nesses casos, disparou a resposta imune exacerbada. "Algum fator que ainda não identificamos deve ter gerado esse desequilíbrio", diz Thais. Das 21 pessoas analisadas pela equipe da USP, 16 já apresentavam alguma outra enfermidade grave, como alguma forma de doença cardiovascular ou câncer, antes de contrair a gripe suína. Na opinião de Thais, é provável que a imunidade dessas pessoas já estivesse comprometida a ponto de permitir o agravamento da infecção. Enquanto não se descobrem as repostas para essas questões, especialistas de todo o mundo acreditam que a forma mais segura de se proteger do vírus é tomar a vacina, que já começa a ser distribuída em alguns países.

Fonte: Agência Fapesp