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Vírus da dengue tipo 2 tem baixa variabilidade genética

Publicado em 16 agosto 2013

Por Júlio Bernardes

Análises realizadas com amostras de sangue de portadores de dengue tipo 2 revelam que o vírus da doença apresenta baixa variabilidade genética durante o período de uma epidemia nos hospedeiros humanos. A pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia - Instituto de Investigação em Imunologia (INCT-iii), sediado na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e pelo Laboratório de Investigação Medica 52 (LIM52), do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMT) da USP, utilizou uma técnica que permite o sequenciamento gênico de toda a extensão do vírus, e não apenas de partes isoladas. Os resultados do estudo, publicados em artigo da revista científica PLoS One em 2 de agosto, poderão contribuir para a criação e aperfeiçoamento de vacinas contra a dengue.

O professor de Imunologia Clínica e Alergia da FMUSP, Esper Kallas, um dos autores do artigo, conta que aproximadamente um quarto da população mundial, residente em regiões de clima tropical e subtropical, é suscetível ao contágio pela dengue todos os anos. "Devido ao elevado número de casos e de mortes, é necessário desenvolver mecanismos que ajudem a combater a mortalidade e melhorar a prevenção, em especial das formas mais graves da doença", afirma. "Para isso, é preciso entender a relação entre o agente agressor (o vírus) e os hospedeiros da dengue". O vírus possui quatro sorotipos diferentes (1, 2, 3 e 4), cada um com características genéticas distintas.

A pesquisa utilizou amostras de sangue coletadas em pessoas acometidas pela doença durante a epidemia de dengue tipo 2 acontecida na região da Baixada Santista (litoral de São Paulo), no primeiro semestre de 2010. Na ocasião, foram registrados 10.274 casos no Guarujá, 8.755 em Praia Grande, 8.302 em Santos, 4.365 em São Vicente e 1.814 em Cubatão. "O sequenciamento genético dos vírus utilizou uma técnica molecular avançada conhecida como ultrasequenciamento", diz a pesquisadora Camila Malta Romano, do Instituto de Medicina Tropical. As análises foram realizadas em aparelhos existentes na University of Wisconsin, em Madison (Estados Unidos).

De acordo com Camila, o método tradicional, por ser trabalhoso, normalmente é utilizado para analisar apenas partes do vírus, como o "gene do envelope" ou as regiões de proteína não-estrutural. "Como a avaliação era mais superficial, perdiam-se informações que seriam importantes para entender a relação entre a diversidade genética dos vírus e a progressão da doença, assim como a evolução do vírus nos hospedeiros. Isso porque durante uma infecção, o vírus se multiplica rapidamente e seu genoma costuma sofrer mudanças rápidas, sem que o sequenciamento normal tivesse sensibilidade para identificar as modificações que ocorrem em diferentes proporções", relata. "Com a nova técnica é possível sequenciar todas as moléculas do genoma viral presentes em um único hospedeiro infectado, em uma grande quantidade de vírus. Isso permite identificar de 1% a 5% de toda a variabilidade genética do microorganismo, o que é um número bastante significativo".

Variabilidade pequena

As análises com o vírus da dengue tipo 2 mostraram uma variabilidade genética pequena dentro de cada pessoa infectada, como também comparando vírus de diferentes pessoas com dengue durante o período da epidemia, inferior a verificada entre os vírus HCV (causador da hepatite C) e HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). "Ao se comparar amostras de sangue coletadas entre fevereiro e junho de 2010, verificou-se que o genoma dos vírus era praticamente o mesmo", destaca o professor Kallas. "Isso permite observar que durante todo o período de uma epidemia de grandes proporções, em que o número de ocorrências chega a ser cinco vezes maior que o número de casos registrados oficialmente, o vírus não apresentou mudanças significativas".

Kallas observa que durante a epidemia o vírus se multiplica rapidamente durante um período muito curto de tempo. "Como o sistema de defesa do organismo humano não consegue oferecer uma resposta ágil diante da progressão da doença, o vírus sofre menos pressões para se modificar", ressalta. "Com as informações detalhadas do genoma será possível identificar regiões do vírus que possam ser atacadas pelas defesas do corpo, o que poderá abrir caminho para a criação de vacinas mais eficazes para combater a dengue".

Segundo Camila Romano, a pesquisa adaptou a metodologia utilizada para o sequenciamento genético nos Estados Unidos, de modo que possa ser aplicada nos equipamentos existentes na FMUSP para outros tipos de vírus, principalmente de doenças transmitidas por insetos. O professor Kallas lembra que a gravidade da dengue pode aumentar conforme o número de ocorrências da doença no paciente. "Embora o tipo 4 seja o mais brando e a pessoa adquira resistência após o contágio, ela permanece suscetível aos outros três tipos de dengue, que aumenta a chance de ser mais agressivo no segundo ou terceiro episódio da doença", diz. "Na epidemia da Baixada Santista, por exemplo, foram frequentes os casos de hemorragias e de choques resultantes do acúmulo de plasma sanguíneo em diversas regiões do corpo".

As amostras de sangue utilizadas na pesquisa foram cedidas pelo Hospital Ana Costa, em Santos. O artigo Inter- and Intra Host Viral Diversity in a large Seasonal DENV2 Outbreak, publicado na revista PLOS One em 2 de agosto, também teve a participação de Felipe Salvador, Célia Rodrigues Lima, Lucy Villas-Boas, José Eduardo Levi e Claudio Sérgio Pannuti, do IMT e do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP, Evaldo Stanislau Araújo, do Hospital da Clínicas (HC) da FMUSP, além de Michael Lauck e David O"Connor, da University of Wisconsin-Madison. A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do projeto de pesquisa 2010/123135.

Mais informações: email debora@iii.org.br, com Débora de Lucas, na Assessoria de Imprensa do INCT-iii

Fonte: Agência USP