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Jornal do Estado (PR) online

Violência sem limites

Publicado em 15 dezembro 2006

Por Mariluce Moura, de Nova York, Agência FAPESP

Em 20 de novembro passado, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, lançou em Genebra, Suíça, um alentado volume de quase 400 páginas — 384, diga-se em favor da precisão — no qual dados aterradores de toda espécie de violência contra a criança, praticada no mundo inteiro, encontraram uma abrangência, articulação e consistência metodológica até então inéditas.
Seu título é direto e simples: Relatório mundial sobre violência contra crianças e ele está disponível na internet (www.violencestudy.org). Pode-se compreender com clareza cristalina, depois de ler o texto e refletir por entre imagens e tabelas do livro, por que Annan, em seu prefácio, disse que a violência contra as crianças, que não respeita barreiras geográficas, de raça, classe, religião e cultura, e ocorre em casa, na escola, na rua, no trabalho ou em instituições de correção e prisões, pode ter conseqüências devastadoras. "Acima de tudo ela pode resultar em mortes precoces", observou.
De fato, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 53 mil crianças foram assassinadas em 2002 no mundo inteiro. E esse é apenas um dos infindáveis números acachapantes que emergem página após página do trabalho.
O relatório, que deverá se tornar uma peça fundamental no imenso esforço a ser desenvolvido nos próximos anos contra a prática generalizada da violência contra a criança, tem a assinatura de um brasileiro. O sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro foi nomeado em fevereiro de 2003 expert independente das Nações Unidas para preparar esse estudo em profundidade sobre o tema.
Carioca nascido em janeiro de 1944 que aos poucos se fez paulista, Pinheiro é professor titular de ciência política aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e professor visitante de Relações Internacionais no Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Brown (EUA). Criou em 1987, junto com Sérgio Adorno, o Núcleo de Estudos da Violência da USP, que em 2002 se transformou no Centro de Estudos da Violência, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP.
Em entrevista à Pesquisa FAPESP Pinheiro faz uma série de considerações sobre o belo trabalho de coordenar uma pesquisa em ciências sociais que, "como é necessário", pretende ser instrumento de mudança no quadro intolerável de violência mundial contra as crianças.