Notícia

Diário do Nordeste

Vínculo afetivo

Publicado em 09 novembro 2008

O animal age como um catalisador e motivador para a prática da terapia e da reabilitação

Eles fazem as vezes de co-terapeutas. Sua presença fortalece as relações a ponto de agirem como elementos essenciais para a prática da terapia e da reabilitação social, emocional e física. São cães, gatos, cavalos, pássaros, vacas e até mesmo répteis. Não importa a espécie, mas a capacidade que esses pequenos seres têm em ampliar a percepção do indivíduo/paciente, tornando-o mais receptivo ao meio que vive. Mas os benefícios atribuídos a Terapia Assistida por Animais (TAA) devem ser observados com certa cautela, afirma o fisioterapeuta Vinícius Fava Ribeiro, da Organização Brasileira de Interação Homem Animal Cão Coração (OBIHACC), em São Paulo.

'Realmente o uso dos animais nas terapias está crescendo a cada ano no Brasil e precisamos ter muito cuidado com isto. A simples presença do animal pode ser suficiente para uma sessão de psicoterapia, mas para que isso seja proveitoso o terapeuta e o animal devem ter uma capacitação adequada', diz o técnico em TAA.

Cães, cavalos e vacas

Para que a parceria entre animal e terapeuta renda bons frutos é importante estabelecer alguns parâmetros. 'Não é simplesmente levar qualquer animal para uma visita ou para dentro do contexto terapêutico. Não é porque o seu cão ou gato é bonzinho, amoroso e saudável que é um animal adequado para o desenvolvimento da atividade, educação ou terapia assistida por animais. Afinal, o trabalho que envolve a preparação e adequação deste animal antes que ele participe de uma sessão é grande e envolve uma avaliação e um trabalho especifico'. Para tanto, a OBIHACC oferece cursos semestrais para a formação de profissionais e voluntários interessados em desenvolver TAA.

O uso do cão já é bastante difundido em nosso meio. O mesmo acontece com o cavalo (Equoterapia), cujos benefícios já foram devidamente reconhecidos pelo Conselho Federal de Medicina. Além disso, animais como pássaros, gatos, até mesmo os de fazenda - vacas, porcos - podem ter o seu papel dentro de um contexto terapêutico em instituições para dependentes químicos, por exemplo.

Vinícius Fava cita outros trabalhos pioneiros, como o projeto terapêutico 'Dr. Escargot', desenvolvido pela professora Maria de Fátima Martins, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP), em Pirassununga, e que conta com o patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp).

Exemplos não faltam. Em Manaus (AM) há o trabalho realizado com botos do rio pelo biólogo Igor Simões, enquanto em São Paulo o biólogo Del Nero tem obtido excelentes resultados com o trabalho educacional Pró-Répteis, feito com cobras, lagartos e aranhas. O importante é que 'cada paciente, cada assistido e cada situação pode ser trabalhada com um animal diferente, levando em consideração a abordagem e objetivos a serem alcançados pelo educador ou terapeuta', diz Vinícius Fava.

Terapia com idosos

Mas por que a TAA tem se mostrado particularmente eficaz no tratamento com pessoas idosas? Os bons resultados obtidos com pacientes da terceira idade, principalmente os que vivem em instituições, têm se mostrado benéficos por um fato muito simples, segundo Fava: 'isso ocorre pelos animais não julgarem e não gerarem expectativas nos assistidos. Não esperamos que o animal nos prejudique ou que simplesmente desapareça e não nos visite mais, afinal ele é apenas um animal e não faz as coisas de propósito', ressalta.

Essa relação de confiança despretensiosa é mágica, pois abre as portas para a criação de um vínculo afetivo saudável com o animal, além de 'disfarçar' as possíveis sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia ou qualquer outro trabalho terapêutico a ser desenvolvido com pacientes da terceira idade.

O resultado dessa brincadeira séria (leia-se sessões terapêuticas) acontece de forma lúdica, repleta de sorrisos e momentos de descontração, disfarçando a terapia e facilitando a interação entre o paciente e o terapeuta, informa Vinícius Fava.

Um dos exemplos concretos é o 'Projeto Cão do Idoso', desenvolvido em São Paulo, desde agosto de 2000, e que assiste mais de 600 idosos em casas de repouso e abrigos. O trabalho que visa atender os idosos em suas diversas necessidades - emocionais, físicas e sociais - conta com a ação de voluntários e profissionais relacionados a diversas áreas, como: veterinários, psicólogos e assistentes sociais. O Projeto Cão do Idoso aplica os princípios da TAA em convergência a outros projetos dos EUA, Canadá e Europa.

Falta reconhecimento

Apesar dos benefícios da Terapia Assistida por Animais (TAA) serem incontestáveis junto a diferentes públicos, o reconhecimento médico-científico ainda não é o esperado, pelo menos no caso do Brasil, informa o fisioterapeuta Vinícius Fava Ribeiro.

'Infelizmente ainda estamos engatinhando neste assunto, uma vez que a produção cientifica brasileira ainda é muito pequena e restrita. No exterior, a situação é bem diferente, já que é crescente a produção de pesquisas e projetos voltados para a aplicação da TAA', conclui o especialista.

FIQUE POR DENTRO

Tudo começou dentro de um asilo psiquiátrico

A Terapia Assistida com Animais (TAA) surgiu em 1792, na Inglaterra, quando Willian Tuke indicou o uso de animais domésticos no tratamento de doentes mentais de um asilo psiquiátrico em Londres. É sabido que esta terapia começou a ser aplicada após a morte de uma paciente deste asilo, quando o tratamento feito até então foi questionado. A partir daí, foram utilizados tratamentos alternativos e a terapia se espalhou pelo mundo.

A relação entre o homem e os animais remonta a tempos antigos. A domesticação de animais começou na Ásia, há cerca de cinco mil anos, quando os mesmos serviam aos homens como fonte de alimentos ou trabalho. Com o passar dos anos, a relação entre os homens e os cães foi se estreitando de modo que foram construindo vínculos afetivos muito fortes e duradouros. Tais relações são reflexos da modernização das cidades e da individualização cada vez maior da cultura na sociedade ocidental. Isto porque a sociedade moderna tem como características marcantes a solidão e o isolamento. Os animais domésticos, de alguma forma, contribuem diretamente para minimizar e harmonizar esses sentimentos.