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Diário do Povo

Vilas da tradição

Publicado em 15 junho 2008

A Prefeitura e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão começando um inventário das vilas operárias surgidas entre as décadas de 30 e 60 como parte da política habitacional destinada às camadas populares no Brasil. O modelo iniciado durante o Estado Novo — a ditadura instituída por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945 —, teve Campinas como pioneira na formação de núcleos residenciais para famílias de baixa renda. O inventário das 40 vilas desse período vai orientar uma política de preservação dos imóveis ainda existentes e ajudar a entender o processo de estruturação urbana no município.

O modelo de vilas surgido no Estado Novo serviu, em Campinas, para demarcar o território da classe operária fora dos limites dos trilhos das ferroviais, onde até então a cidade se instalava, disse a historiadora historiadora Daisy Ribeiro, da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC), uma das responsáveis projeto. Pela Unicamp, o inventário é coordenado pela historiadora Cristina Meneguello. O projeto está sendo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Pioneirismo. “Campinas foi precursora na configuração e na organização das bases de uma política habitacional que acabou sendo modelo para várias cidades”, disse Daisy. As vilas tinham a mesma configuração: no máximo dez quadras, com terrenos de 150 a 230 metros quadrados. As casas podiam ser geminadas com um, dois ou três quartos, varandas abauladas, e com recuo de quatro metros. Todas as moradias eram iguais e a planta ficava na Prefeitura, onde o interessado podia retirá-la, conseguindo financiamento de longo prazo para comprar o terreno e construir.

A partir de 1937, as vilas começaram a surgir dentro de uma política federal de oferecer ao operariado a possibilidade de comprar sua casa. As áreas ao redor da cidade foram loteadas e destinadas à moradia popular em forma de vilas que ficavam, no máximo, a quatro quilômetros do Centro. São desse período núcleos existentes nos bairros Ponte Preta (Vila Meireles), Botafogo, São Bernardo, Vila Marieta e Cambuí (Vila Estanislau).

A política habitacional adotada determinava que no percurso daqueles quatro quilômetros existissem escola, igreja, padaria, açougue, enfim, a infra-estrutura necessária para atender aos moradores da vila. Para ter acesso ao financiamento, o operário precisava trabalhar e ter carteira assinada.

Novo modelo e velhos cortiços

Diferente das vilas operárias surgidas no final do século 19 e as duas primeiras décadas do século 20, as vilas do Estado Novo em Campinas propiciaram um momento em que os trabalhadores, segundo a historiadora Daisy Ribeiro, começaram a se apropriar da cidade. É o período em que eles podem se tornar proprietários. Antes disso, os trabalhadores viviam em cortiços, de aluguel ou moravam nas vilas construídas pelos patrões, como foi, por exemplo, o caso das vilas Manoel Dias e Manoel Freire.

O inventário, segundo a historiadora, vai materializar, por meio das casas remanescentes, o perfil de Campinas, que em 1937 já era parte da região mais industrializada do Interior paulista, abrigando algumas das maiores plantas industriais do Estado, ao mesmo tempo em que a área urbana se expandia intensamente, por meio da abertura de novos loteamentos, nos limites da cidade, reciclando o valor da terra das antigas fazendas cafeeiras de produção e produtividade decadentes, e o movimento da construção civil se mostra acelerado. "Entre 1940 e 1950 havia mais casas disponíveis do que gente para comprá-las", informou. O trabalho irá analisar volumes de plantas, desenhos, requerimentos, alvarás existentes no Arquivo Municipal para um levantamento das localizações das vilas e depois irá a campo verificar o que restou.’

O modelo de vila adotado era levado tão a sério no período que era impossível construir modelo semelhante no Centro. Há uma ata da Comissão de Urbanismo que aprovava os alvarás de construção, de 1937, em que um cidadão pede para construir uma casa do modelo das vilas na Rua Conceição, perto da Júlio de Mesquita. A comissão negou o pedido, alegando que casas com aquele desenho só podiam ser construídas fora da área da cidade. As novas casas dentro dos bairros centrais, tinham que ter beleza estética. “Nessa época, já começam a se instalar os bairros jardins, com amplas ruas, arborizadas, casas muito bonitas no Cambuí perto da Júlio de Mesquita, na Nova Campinas, no Chapadão, Guanabara”, disse a historiadora. (MTC/AAN)