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Correio Popular

Vila Brandina ganha aquecimento solar

Publicado em 12 dezembro 2007

Por Maria Teresa Costa, da Agência Anhangüera (teresa@rac.com.br)

Em 40 casas, há 15 dias, a água que sai do chuveiro é aquecida pelo calor do sol e o sistema já é elogiado pelos moradores


O uso de energia solar chegou à Vila Brandina, uma área de ocupação de moradias precárias e infra-estrutura deficiente com 2,5 mil moradores na região Leste de Campinas. Em 40 casas, há 15 dias, a água que sai do chuveiro está sendo aquecida pelo calor do sol e o sistema, que despertou desconfiança no início, agora conquistou a vizinhança. A curiosidade maior é para saber em quanto o uso da tecnologia de energia limpa vai reduzir os gastos na conta de energia elétrica. "A água esquenta tanto no final da tarde que é preciso misturar com água fria para poder tomar banho", afirmou o motorista Mário Pereira da Silva.

A instalação do sistema foi feita pela Organização Não-Governamental (ONG) Plantando Paz na Terra, que atua na Vila Brandina. Segundo a arquiteta e voluntária da ONG Marília Ferraz Ribeiro, os moradores que se interessaram em aprender a fazer o equipamento participaram de um curso de capacitação na ONG Sociedade do Sol — essa entidade, sediada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) do Instituto de Pesquisas Energéticas (Ipen) se dedica a divulgar e ensinar a montar um aquecedor solar de baixo custo, construído todo em PVC.

A energia solar chegou à Vila Brandina por meio do patrocínio do HSBC, que custeou a compra de todo o material utilizado na fabricação do aquecedor — aproximadamente R$ 350,00 para construir um sistema completo com capacidade para aquecer a água para uma família de seis pessoas. Assim, os equipamentos puderam ser instalados sem custos aos moradores. Eles ganharam as placas, a caixa d'água, os canos de PVC e até o chuveiro.

As famílias que receberam o sistema vão participar de oficinas sobre o uso racional da água e como lidar com o lixo, enfim, terão educação ambiental, a principal proposta da entidade. "Queremos propagar a idéia e já temos muitas pessoas querendo aprender a fazer e a instalar o aquecedor", afirmou Marília.

Uma dessas pessoas é João Dutra da Silva, que só não foi fazer o curso porque antes pretende construir mais um andar em sua casa. "Quando fizer isso, vou instalar o aquecedor."


Entulho

Na casa do motorista Silva, a caixa d'água e o aquecedor estão no telhado, no meio de um monte de entulho. "Essa semana vou tirar tudo daqui", disse, constrangido, prometendo uma limpeza geral. No começo, ele desconfiou da eficiência da energia solar, mas agora não quer saber de eletricidade aquecendo a água na sua casa.

O comerciante Antônio Mendes da Rocha instalou o aquecedor solar e já se tornou um divulgador da tecnologia entre os vizinhos. "É uma maravilha", disse. O sistema instalado na sua casa é formado por uma caixa de 310 litros e utiliza três placas de PVC para aquecer. "Entre 16h e 17h, a água fica muito quente e é preciso temperar com a fria para a gente poder tomar banho", afirmou Rocha. O comerciante está na expectativa da chegada da próxima conta de energia elétrica para saber se vai conseguir reduzir o gasto. Hoje, a conta fica em torno de R$ 100,00. "Qualquer economia ajuda."


Etapas da construção

Com o material adquirido, o grupo de moradores que fez o curso tratou de cortar as placas, colar o encanamento em PVC, ou seja, implementar todas as etapas da construção. Um dos fabricantes é o aposentado Raimundo Alves da Silva, que chegou até a desenvolver uma tecnologia própria para cortar os canos de PVC com a precisão necessária para serem encaixados nas placas de aquecimento. Ele ainda não fez seu próprio aquecedor, porque vai primeiro reformar sua casa, construindo um novo banheiro.

Para família de 6 pessoas, custo é de R$ 350

A vida útil do aquecedor solar popular é de aproximadamente 15 anos. O aparelho tem capacidade para aquecer de 200 a 1 mil litros de água, o suficiente para banhos de uma família de até seis pessoas, e pode custar R$ 350,00. Nos dias de muito sol, a água chega a atingir a temperatura de 50°C. O próprio morador aprende a instalá-lo por meio de cursos e apostilas disponibilizados pela ONG. O aquecedor convencional requer instalação especializada e, excluindo essa mão-de-obra, custa pelo menos nove vezes mais. Nos dias chuvosos, o aquecedor solar de baixo custo fica inoperante, mas o aquecimento da água volta a funcionar normalmente pelo modo tradicional, ou seja, por energia elétrica. Esse sistema que utiliza plástico no lugar de canos de cobre foi desenvolvido dentro da Sunpower Engenharia Ltda, uma empresa incubada do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas do Ipen e em projeto coordenado pelo professor Julio Roberto Bartoli, orientador da pesquisa. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a equipe estudou a viabilidade técnico-econômica da construção de um coletor com produtos termoplásticos empregados na construção civil. A intenção era obter um produto que custasse 10% do valor de um aquecedor solar tradicional, com uso intenso de bricolagem, ou seja, faça você mesmo. O aquecedor vem sendo objeto de pesquisa para várias defesas de tese na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). (MTC/AAN)


A frase

"Queremos propagar a idéia e já temos muitas pessoas querendo aprender a fazer e a instalar o aquecedor."

Marília Ferraz Ribeiro

Arquiteta e voluntária da ONG Plantando Paz na Terra, que atua na Vila Brandina