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Folha1 online

Vigilância para combater o Aedes

Publicado em 02 novembro 2018

O Aedes aegypti é um velho conhecido dos brasileiros. Há pelo menos 30 anos circula em território nacional se apresentando cada vez mais nocivo ao convívio com a população. Em suas aparições trouxe à tona quatro sorotipos de dengue, que imperaram em revezamento por mais de 25 anos até que foram introduzidas também a zika e a chikungunya, fazendo com que o vetor perdesse o apelido de “mosquito da dengue”. As duas últimas doenças, até então raras na literatura médica, uma vez em circulação, trouxeram agravamentos como a microcefalia em bebês de gestantes que contraíram a zika, além da Guilain Barrè e reumatismos severos em pacientes com chikungunya. Em junho deste ano, Campos decretou estado de epidemia da doença, após somar quase dois mil casos. Na ocasião do decreto foram anunciadas medidas que, mais tarde, resultariam no controle da situação. Mas o diretor do Centro de Referência de Doenças Imuno-infecciosas (CRDI), Luiz José de Souza, revelou que, assim como a Prefeitura tem frisado, a situação não está controlada e o vetor ainda está presente e, mesmo que o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (Liraa) tem apresentado queda, sem vigilância há possibilidade de novo surto de chikungunya e de reintrodução do sorotipo três da dengue.

A primeira aparição da dengue, como epidemia, ocorreu na segunda metade da década de 1980. Até hoje, já ocorreram três epidemias do sorotipo 1. A segunda foi em 2010 e a última em 2016. Com boa parte da população imune à doença, na década de 90 ocorreu a introdução do sorotipo 2, que circulou em alternância com o 1 até o surgimento do sorotipo 3, em 2002, que ficou em circulação até 2007, tendo maior acometimento de pessoas acima de 15 anos. Em 2014 surgiu o último sorotipo da dengue, o 4, em Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, sendo questão de tempo para se espalhar por todo o país, já que a presença do Aedes aegypti é massiva em todo o hemisfério sul do planeta.

Entre 2015 e 2016, a zika chegou e causou preocupação da comunidade médica. A doença, que em 40% dos casos é assintomática, pegou de surpresa não só as autoridades em saúde, mas muitas gestantes que, acometidas no início da gravidez, transmitiram o vírus verticalmente para os bebês, em fase de formação do sistema nervoso. Em Campos foram registrados cerca de 12 casos de microcefalia, no período, além dos diversos casos de Guilain Barrè, que em sua forma mais severa leva à perda de movimento dos membros e necessidade de tratamento fisioterapêutico urgente.

Em 2016, o quadro foi tomado pela chikungunya, cujo pico de casos ocorreu entre maio e julho deste ano, com redução após medidas emergenciais da Prefeitura. Segundo Luiz José, a doença tem levado pacientes ao agravamento de enfermidades crônicas e à síndrome da angústia respiratória, chamada de “Sara” que, em Campos, contabilizou quatro casos dos quais três evoluíram para melhora e um óbito ainda investigado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na gravidez, a chikungunya pode levar a complicações congênitas renais e de pele.

— Na dengue e na chukungunya, o vírus passa a barreira placentária no final da gravidez, se adquirir a doença nas últimas semanas, nos últimos 10 dias. A zika já é um problema no início da gravidez, que vai para o sistema neurológico — alertou o médico.

Chikungunya ainda circula e pode voltar

Luiz José ressalta que o vírus da chikungunya ainda circula em Campos e que por isso a população, assim como os gestores públicos, não devem se descuidar. “O vírus está presente, está circulando, estamos tendo casos. Com o verão e com as chuvas, vai haver aumento do número. Eu não digo epidemia, mas vai haver aumento. A chikungunya vai continuar e há a possibilidade da dengue entrar também. Os poderes públicos devem estar atentos, mantendo a guarda na assistência e intensificando o trabalho de prevenção, tanto o poder público, quanto a população”, disse o médico que acredita na possibilidade de reinserção do sorotipo 3, cuja população, principalmente os que tinham menos de 15 anos em 2007, última epidemia deste sorotipo, além de parte da população mais velha, não está imune à doença, por não tê-la adquirido.

Para conter o avanço no número de casos de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti este ano, a Prefeitura de Campos organizou mutirões integrados nos bairros, com equipes das secretarias de Desenvolvimento Ambiental, Desenvolvimento Humano e Social, e de Governo e ainda das superintendências de Postura e Limpeza Pública. Os trabalhos foram iniciados para normalizar o Liraa, que em maio registrou 6,1. O último levantamento mostrou início de normalização com 3,1 registrados.

Luiz José ressalta que o Aedes é presente em nosso país o que torna imprescindíveis os cuidados: “Quem for para a praia no verão deve vir pelo menos uma vez por semana verificar os quintais das casas e manter a vigilância”.

Zika vírus é identificado em macacos de SP

Depois da epidemia de febre amarela silvestre, que acometeu o sudeste do Brasil, pesquisadores voltaram seus olhares aos macacos. Nessa semana, uma matéria da BBC Brasil, replicada pelo G1, revelou que o vírus da zika não atinge somente os seres humanos, mas também eles. Assim como a febre amarela tem sua versão silvestre e urbana, que é transmitida também pelo Aedes, a novidade é que uma das doenças transmitidas pelo mosquito também atinge os macacos. Os casos são monitorados desde 2015.

O estudo foi publicado na “Scientific Reports” e afirma que o vírus foi identificado em macacos mortos em São José do Rio Preto, em São Paulo e na capital mineira, Belo Horizonte, durante a epidemia de febre amarela. Os macacos teriam sido mortos por causas não naturais. O registro já havia sido feito em espécies que convivem com humanos no Ceará.

As análises ainda estão em andamento. Caso se ratifique a suspeita de que macacos infectados podem transmitir o vírus a mosquitos ao serem picados, fica estabelecido um ciclo como ocorre com a febre amarela. A pesquisa já evidencia que uma vez que adquire o vírus, o macaco, assim como o homem, se torna hospedeiro.

Segundo o G1, o estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e reuniu pesquisadores da Famerp, da Universidade Federal de Minas Gerais, do Instituto Adolfo Lutz, da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Dengue e da University of Texas Medical Branch (UTMB), nos Estados Unidos.