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Videogames são alternativa para idosos lidarem com as emoções durante o isolamento social

Publicado em 14 maio 2020

Por Caio Nascimento, O ESTADO DE S.PAULO

Técnica terapêutica chamada gameterapia ajuda a melhorar os desequilíbrios emocionais e a amenizar a solidão em meio às restrições da quarentena

"Só agora aprendi a amar", disse Dercy Gonçalves, aos 94 anos, durante suas sessões de gameterapia com o psicólogo Carlos Fulgêncio, em São Paulo. Conhecida pelo seu perfil efervescente e por não dar ouvido às críticas de seus difamadores, a atriz se fechou ao amor por sobrevivência, ao longo de sua carreira, e encontrou na terapia de jogos e imagens a solução de conflitos que a incomodavam há décadas.

O método aplicado na artista consiste em exercícios de imaginação criativa a partir de hologramas que ajudam os idosos a lidarem com questões mal resolvidas. O objetivo é tirar deles os sentimentos de incapacidade, solidão, baixa autoestima e muitos outros, que podem se intensificar durante a quarentena do novo coronavírus.

"A técnica induz a pessoa a imaginar que ela vive aquilo que está jogando. As imagens despertam processos emocionais no inconsciente e podem estimular a liberação de endorfina [hormônio do bem-estar]", afirma Fulgêncio. O que ocorre é uma espécie de hipnose: enquanto a pessoa joga e solta a imaginação, ela é exposta a situações para revisitar memórias bloqueadas. Assim, o terapeuta observa como ela está reagindo e a induz a confrontar os problemas.

A intenção disso é atingir o inconsciente e remodelá-lo, uma vez que esse lado oculto da mente, que abriga traumas, mágoas e frustrações, não sabe diferenciar os estímulos reais dos ilusórios. Quando alguém chora ao ver um filme, por exemplo, é porque o inconsciente recebe as cenas e interpreta que a trama está se passando na vida da pessoa. E é nessa brecha que entra um ponto chave da gameterapia.

Os terapeutas adeptos ao método estimulam as pessoas a entrarem na experiência do jogo e usam técnicas para bloquear o acesso à imagem mental que a atormenta, substituindo-a por outra que dá novos significados àquela situação. "O cliente entra no trauma dele, vive o trauma e a imagem inicial perde a força para a substitutiva conforme ele repete os exercícios ao longo das sessões. A partir daí, ele começa a enxergar de outra forma aquilo que o machuca", explica o psicólogo. As sessões e o número de consultas variam de caso a caso. Os preços também dependem do profissional.

Gameterapia contra a depressão

Fulgêncio acredita que se Dercy Gonçalves tivesse entre nós nesta pandemia, provavelmente estaria achando que a vida não faz mais sentido. Sem família e amigos, a atriz falava que a solidão estressava, magoava e era pior que a morte. Em meio a isso, o bingo e as terapias psicológicas de jogos eram formas de ela superar esse vazio.

A aversão de Dercy ao isolamento social é a realidade de muitos idosos no Brasil, o que leva a gameterapia a ser uma importante aliada da faixa etária durante a quarentena. A professora de Gerontologia da Universidade de São Paulo (USP), Rosa Chubaci, desenvolve com seus alunos atividades de gameterapia, com jogos de boliche do Xbox, para idosos com demência em um Instituto de Longa Permanência (antigo asilo).

"Eles se divertem tanto que vão esquecendo dos problemas da vida, como a solidão, tristeza e o abandono familiar. Muitos trazem lembranças do passado, de quando saíam com os amigos e namorados. Então é também um exercício de memória e ajuda a preencher as lacunas do inconsciente", conta.

De acordo com um estudo realizado pelos estudantes da USP e por Rosa, os encontros de gameterapia reduziram o nível de depressão, ansiedade e melhoraram o humor em 8 dos 14 participantes, de 77 a 101 anos. A maioria disse que o método trouxe sentimentos de acolhimento, respeito e valorização, além de criar novos laços de amizade.

Carlos Fulgêncio explica que isso se deve ao fato de muitos idosos se fecharem em seus próprios mundos quando estão isolados. Alguns evitam até mesmo dar uma volta no quarteirão ou receber visitas, por serem do grupo de risco da covid-19. Assim, cabe às atividades de gameterapia tirá-los desse cenário desolador. Para os que sofrem com falha de memória, a técnica pode ainda acionar a capacidade de imaginação criativa.

"O inconsciente vai achar que certas situações são reais, dando uma sensação de bem-estar. Com meus pacientes mais velhos, falo para eles fecharem os olhos, imaginarem que estão saudáveis, que a dor foi embora, que há um horizonte infinito à sua frente e que são mais flexíveis e tolerantes", relata.

Indo além da gameterapia

A escola de programação Is Game, em São Paulo, realiza, semanalmente, atividades de criação de jogos virtuais com 40 pessoas de, em média, 65 anos. Os alunos procuraram o curso para evitar perda de memória e prevenir problemas decorrentes da velhice, como o Alzheimer.

Segundo o estudo que embasa a iniciativa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), exercícios de desenvolvimento de softwares somados a gameterapia estimulam ainda mais a vitalidade dos idosos. Recentemente, a turma e alguns técnicos da escola criaram o Cérebro Ativo, um aplicativo disponível para Android e iOS com jogos de saúde voltados para os mais velhos. A plataforma também oferece treinamento de habilidades cognitivas, físicas e sociais.

"Como todos estão isolados devido à covid-19, transportamos as aulas para o virtual e eles estão respondendo muito bem. Entramos na sala de aula online para jogar, criar e bater papo, indo além da gameterapia", conta Fabio Ota, fundador da Is Game e especialista em gestão estratégica de tecnologia da informação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Ota afirma que a ideia de criar, jogar e fazer disso um espaço de socialização é importante não só para combater emoções negativas causadas pelo momento, mas também para amenizar o pós-pandemia, quando muitas pessoas poderão sofrer com problemas de depressão e ansiedade gerados pelo isolamento e pelas incertezas da crise.

Fulgêncio reforça a visão do empresário dizendo que os idosos sentem os sinais do envelhecimento quando começam a se sentir inúteis. "A gameterapia e outras técnicas terapêuticas relacionadas tiram a pessoa do cenário desolador para liberar nelas manifestações hormonais [de alegria, por exemplo], que, antes, eram produzidas naturalmente e foram bloqueadas pela sensação de incapacidade", explica. "Assim, diminui-se a capacidade cognitiva e a pessoa vai 'emburrecendo', porque perdeu o ímpeto de se desafiar. A falta de estímulos numa quarentena incita isso."

Pensando nesse problema, Ota está estimulando pessoas de várias idades a fugirem dessa situação ao liberar para o público geral, gratuitamente, as videoconferências de segunda a quarta-feira e sexta, com dicas de tecnologia, filmes, receitas e formas de cuidar da saúde mental. Para se inscrever e saber mais detalhes, basta acessar o link.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais

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