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A Notícia (Joinville, SC)

Vidas reconstituídas

Publicado em 19 junho 2009

Está quase no final a pesquisa de campo que reuniu em Joinville representantes de cinco instituições. Desde 2007, pesquisadores brasileiros e estrangeiros escavam o sítio arqueológico Sambaqui 1, na foz do rio Cubatão. O trabalho reúne 40 profissionais do Museu de Sambaqui de Joinville, Museu Nacional, Universidade de São Paulo (USP), Fiocruz e o Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS).

As escavações serão encerradas no dia 12 de julho. Depois, continua o trabalho em laboratório com o material encontrado. Até agora, a pesquisa reforça as teorias mais aceitas sobre os sambaquis. Segundo Eloy Labatut de Oliveira, geógrafo do Museu de Sambaqui, os montes de conchas formados pelos sambaquianos não eram depósitos de lixo. “Descobrimos aqui muitas espinhas de peixe, que eram o alimento principal desse povo. Os montes de conchas eram um marco cultural”, explica.

Até agora, já foram encontrados 19 esqueletos no sítio – o mais antigo tem mais de 2.900 anos. As ossadas de crianças chamaram a atenção da técnica em antropologia biológica da USP, Fávia de Carvalho Cerqueira. “Encontramos uma criança com um colar com mais de 800 conchas. Não havia visto algo assim antes. Isso mostra que os sambaquianos tinham um ritual funerário especial para as crianças”, assinala Flávia.

O monte onde os pesquisadores estão escavando era o local onde os sambaquianos celebravam os rituais funerários. A equipe ainda não descobriu onde esse povo dormia e passava o dia. A mistura de ossos e restos alimentares no sambaqui mostram que os sambaquianos ofereciam banquetes, durante os funerais. “É parecido com a nossa cultura. Mas os sambaquianos não era enterrados em buracos: os corpos ficavam no nível do chão e cobertos por sedimentos”, diz Eloy.

Para Patrícia Fisher, mestranda em arqueologia na USP, os sítios arqueológicos em Joinville são um tesouro para a comunidade científica. “Quase todos os sambaquis do litoral paulista já foram destruídos. Joinville é um local privilegiado”, elogia. A cidade conta com 39 sítios arqueológicos. Segundo Eloy, na região da Baía da Babitonga, deve ter mais de 150 sítios. “Sem contar as dezenas de sambaquis que foram destruídos na década de 1960, para fazer cal para construções”, lamenta o geógrafo.

Os pesquisadores da França e do Canadá já estão há duas semanas fora do Brasil e retornam no começo de julho. Foi o Centro Nacional de Pesquisa Científica da França que deu origem à pesquisa em Joinville, ao procurar um local que poderia ter mais de cem esqueletos de sambaquianos. O trabalho acabou reunindo as demais instituições, que usaram como base as pesquisas feitas pelo Museu de Sambaqui. Os recursos são da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A escolha do Sambaqui 1, que está em uma propriedade particular na Estrada Palmitos (bairro Cubatão) foi por uma questão prática: ele está sofrendo erosão pelo rio Cubatão. “Precisamos tirar tudo que há aqui para ser pesquisado, antes que o rio acabe com esse sítio”, alerta Eloy.

Também foi descoberto no local algo raro em sambaquis, uma estrutura de fibras vegetais. “É muito difícil encontrar algo assim, já que a madeira não se conserva. Mas ainda não temos ideia do significado dessa estrutura. Não há resultados imediatos na arqueologia. O que descobrimos aqui precisará ainda de uns cinco anos de estudo”, avisa Eloy.