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Vida inteligente nas Redes Sociais

Publicado em 01 novembro 2010

Por Thiago Romero e Salvador Nogueira

Algumas aplicações da internet nasceram basicamente de sua própria estrutura: como uma entidade descentralizada, em que cada computador conectado forma um elemento de uma rede, ela parece ser a forma ideal para conectar pessoas. Foi assim que nasceu o conceito das redes sociais eletrônicas.

No Brasil, a mais famosa delas é o Orkut, desenvolvido por um funcionário do Google. E, de início, ela se revelou uma aplicação muito poderosa... para encontrar velhos amigos, há muito tempo distanciados pelos diferentes caminhos que a vida pode tomar. Colegas de escola, vizinhos da época em que você morava em outro bairro, uma antiga namorada e até aquele chato de galochas que sentava do seu lado na aula de matemática e insistia em escrever recados para você quase diariamente.

Durante algum tempo, essa possibilidade (com os benefícios e problemas que traz) alimentou o crescimento dessas redes. Mas chegamos a um ponto em que isso não é mais suficiente. Não tardou a subir o número de "orkutcídios" (expressão usada para designar as pessoas que retiram seu perfil da rede), e a maioria dos usuários acabou exercendo um papel passivo, mantendo sua página só por manter.

Por que isso aconteceu? Simples. Reunir pessoas é sempre - e apenas - o primeiro passo. Depois que elas se juntam em comunidades, o que se faz delas? Parece um meio natural para a disseminação de informação. E é nesse interessante estágio da evolução das redes sociais que estamos entrando neste momento, segundo os especialistas no assunto.

Claro, o conteúdo encontrado é tão bom quanto os interesses que as pessoas manifestam. Ferramentas como o Twitter permitem que você acompanhe, na forma de um pequeno diário, o que andam lendo, dizendo ou pensando as pessoas nele cadastradas. Se você pegar aleatoriamente um usuário qualquer, descobrirá que, com toda probabilidade, não terá nada aproveitável ou particularmente interessante em suas "tuitadas". Fará parecer que a internet é mesmo um instrumento para nos deixar mais burros.

Entretanto, sabendo procurar, um novo universo se abre. E, em meio ao lixo, surgem algumas pedras preciosas. A boa notícia é que esse é só o começo. O que se vê nesses ambientes virtuais é uma crescente onda de informações inteligentes, que começa a conquistar seu espaço e atingir grandes públicos.

Milhões e milhões

Como as redes sociais permitem uma maior interconexão entre as pessoas e facilitam a circulação de informações úteis pelos grupos, parte dos mais de 145 milhões de usuários do Twitter em todo o mundo e também dos 85 milhões que utilizam o Orkut já exerce papel fundamental na produção e disseminação de conhecimentos novos e relevantes.

"O social não é mais visto à parte do plano do conhecimento e da informação. Não podemos separar as duas coisas. A sociedade dá o contexto e o espaço para a circulação de informações, mas esse conhecimento é inteiramente dependente do coletivo", explica Raquel Recuero, especialista em redes sociais e doutora em comunicação e informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Esses novos relacionamentos de qualidade estão sendo conduzidos, por exemplo, por jovens que vão estudar em outras regiões do país e, antes de partir, preferem obter dicas sobre os atrativos da nova cidade ou universidade em comunidades on-line de colegas que já passaram pela mesma situação.

A rede contribui também, no entanto, para a produção e socialização do conhecimento em casos mais complexos, como a Nasa, a agência espacial americana, que está usando o Twitter para divulgar seus projetos e missões. O Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), um dos principais laboratórios de estudo de física no mundo, recentemente também transmitiu, ao vivo pelo Twitter, a primeira colisão de prótons no Large Hadron Collider (LHC), o maior acelerador de partículas já construído pelo homem.

"Atualmente, a maioria dos laboratórios de pesquisa do mundo conta com um espaço virtual ligado às redes sociais. O evento do Cern, por exemplo, foi muito discutido, comentado e assistido por toda a comunidade científica que se interessa por física", lembra Raquel. Depois da transmissão digital, pessoas que anteriormente não ligaram para a área, e ficaram sabendo do experimento pelos comentários nas redes, foram pesquisar e passaram a conhecer o assunto. "Isso é um exemplo fantástico de conhecimento construído através do espalhamento de informações", complementa a autora do livro Redes sociais na internet.

Voltando ao exemplo dos alunos que se mudam para outras cidades, ao estabelecerem conexões com outras pessoas que estudam no mesmo lugar, talvez eles marquem de se encontrar nas mesmas festas, e os mais aplicados também combinem trocar experiências em grupos de estudo, presenciais ou virtuais. E, nesse segundo momento de ampliação de rede, os contatos voltam a ter caráter de entretenimento ou relacionamento, sem perder informação e conteúdo relevante, considerando, é claro, o universo desses jovens.

Replicação da vida

As redes podem ser, por causa desses fatores, consideradas metáforas para os grupos sociais, na visão de Raquel Recuero."A mediação do computador simplesmente conecta pessoas. O conteúdo que essas redes produzem e filtram tem conexão direta com os interesses dos indivíduos que as integram. Assim, as informações que circulam nas redes sociais dependem do grau de instrução e dos interesses dos indivíduos."

Para Rudinei Modezejewski, cônsul tolde redes sociais que modera e participa de 72 grupos de discussão na internet, a grande questão não é a existência ou não de conteúdo de qualidade, mas onde as pessoas estão procurando nas redes sociais. "O que é relevante para um pode ser inútil para outro, mas basta procurar e iremos encontrar qualidade na web. Para os amantes da música e das artes há o MySpace (www. myspace.com); para quem atua na área de recursos humanos existe o Viaó (www.viaó. com.br); para quem procura emprego, uma opção é o Linkedin (www.linkedin.com). E há muito mais; aqueles que desejam criar uma rede fora do país participam do Xing (www.xing.com), os advogados participam da comunidade Lawyrs (www.lawyrs.com), e assim por diante", diz o consultor.

"Eu só não incluiria nessa lista o Orkut, onde é praticamente impossível manter conteúdos de qualidade. Para cada necessidade há uma rede, e, nas mais ecléticas, como o Twitter, trata-se de uma questão de quem você segue, literalmente. O usuário não pode esperar conteúdo sério se estiver seguindo comediantes. Mas quem seguir a Fiesp ou o Sebrae obterá informações mais focadas nas profissões e no mundo dos negócios", aponta Modezejewski, que possui sete contas no Twitter em áreas que envolvem patentes, design, divulgação de artigos e eventos acadêmicos, debate de temas jurídicos e divulgação de currículos e vagas de trabalho.

Rapidamente se destacam os participantes ativos que produzem e compartilham conteúdos de qualidade em redes focadas em determinados nichos de informação: a credibilidade dos usuários se consolida durante todo o processo, mas a regra é nunca confiar cegamente em nada. Quanto maior a credibilidade da fonte, porém, menor será a desconfiança e, portanto, também menor será o tempo perdido pelo usuário para confirmar se a informação divulgada é verdadeira ou não.

Para Modezejewski, isso faz com que as redes sociais tenham uma função de filtro semelhante às ferramentas de busca mais tradicionais. "Antigamente, no Altavista, os primeiros resultados eram os mais relevantes para o assunto procurado. Hoje, no Google, não é possível saber se o conteúdo é tão relevante assim ou se está nas primeiras posições porque o link é patrocinado", explica. "Já as redes sociais estão fazendo uma boa "garimpagem" de informações. Venho conhecendo muitos blogs e sites interessantes por meio de links do Twitter e do Ning."

Ainda do ponto de vista da confiabilidade ou veracidade das informações, as redes sociais também são eficientes no que se refere às dinâmicas de filtrar as postagens de forma coletiva, rapidamente desmascarando boatos e passando adiante informações pertinentes. Mas isso não impede, é claro, a disseminação de conteúdos de baixíssima qualidade, uma vez que nem todos os ambientes contam com usuários filtrando os dados publicados.

Outro exemplo "de sucesso" desse novo contexto de "vida inteligente nas redes sociais" é a Escola-de-Redes (http:// escoladeredes.ning.com/), comunidade dedicada à investigação sobre redes sociais e à criação e transferência de novas tecnologias digitais. "E uma proposta simples de debate e espaço público para a discussão de temas relacionados às redes, onde também é possível conhecer outras pessoas que se interessam pelo mesmo tema e até criar bibliotecas de artigos de forma coletiva", aponta a pesquisadora Raquel Recuero.

Ela lembra o recente debate sobre a Lei do Direito Autoral, proposto pelo Ministério da Cultura na internet. No site www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral, os leitores puderam conhecer propostas e apresentar sugestões antes de o governo enviar o projeto de lei ao Congresso Nacional."O debate foi muito além do site do ministério e migrou para ambientes como o Twitter e o Facebook, fazendo com que um número muito maior de pessoas pudesse discutir essas questões", diz Raquel.

Marketing em cena

Felipe Morais, autor do livro Planejamento estratégico digital e professor da pós-graduação em marketing digital da Faculdade Impacta de Tecnologia, explica que conteúdos de qualidade divulgados nas redes sociais, incluindo o Slideshare e o YouTube, são "a grande estratégia de marketing digital nos dias de hoje". "As empresas já estão produzindo informações estratégicas para atrair o maior número de seguidores. Se há anos a Nasa expõe na TV suas missões, por que não fazer isso na web? Se as grandes empresas sempre gastaram milhões de dólares em mídia divulgando produtos e serviços, por que não fazer isso agora nas redes sociais para pessoas realmente interessadas?", questiona.

A transformação das redes sociais em ferramentas úteis e relevantes no contexto empresarial muda as regras do jogo e traz dinheiro - um elemento importante (embora não indispensável) para a produção de conteúdo qualificado. Ironicamente, por ser uma via de mão dupla entre as empresas e seu público-alvo, fica mais fácil também receber retorno dos consumidores e aperfeiçoar a qualidade das coisas também no mundo off-line.

Para Morais, as empresas já estão enxergando a possibilidade de usar as comunidades virtuais para fazer pesquisas de mercado, em que o consumidor pode opinar sobre determinado produto ou serviço antes de seu lançamento. "Mas é preciso um cuidado todo especial para que as informações sigilosas não vazem, pois, do mesmo modo que os consumidores das empresas estão seguindo os perfis, a concorrência também está", alerta o também gerente de planejamento da agência digital TV1.com.

Produção coletiva

A partir das altas e crescentes exigências dos internautas de diferentes países, que na opinião de Morais estão filtrando cada vez mais o que desejam ver, ler e compartilhar na web, a Wikipédia vem sendo contestada justamente pelo seu caráter de "enciclopédia livre", que é produzida e editada por usuários comuns.

"Se alguém publica um termo errado, outro vem e corrige. Essa é a colaboração coletiva, em que a qualidade das infomações está em seu compartilhamento. Há dez anos era difícil encontrar algo relevante na internet para um trabalho de faculdade. Hoje encontramos em blogs muitos dados estratégicos para nossos projetos.

Também uso diversos sites e redes sociais para pesquisar dados de mercado que, antigamente, só eram encontrados no TGI ou Marplan, que são ferramentas de pesquisa sobre hábitos e comportamentos do consumidor", conta.

Esse recurso da colaboração coletiva foi testado justamente com a Wikipédia, e os resultados foram surpreendentemente positivos. Num levantamento produzido em 2005 pelo prestigioso periódico científico Nature com a ajuda de especialistas de diversas áreas, ficou claro que a qualidade dos artigos enciclopédicos publicados no site era similar à dos mesmos verbetes na tradicionalíssima Encyclopaedia Britannica. Claro que o pessoal da instituição tradicional não ficou muito feliz com o resultado e o contestou o quanto pôde. Mas fatos são fatos. E esse fenômeno está se multiplicando e já não se restringe ao bem-sucedido experimento pioneiro da Wikipédia.

"As pessoas estão compartilhando tudo na internet, o conhecimento ficou coletivo.Via Facebook, por exemplo, um colaborador no Rio de Janeiro pode me ajudar mais, em alguns casos, do que uma pessoa que trabalha ao meu lado no escritório. Já utilizei também dados de indivíduos de Maceió e Belo Horizonte, que me ajudaram na elaboração de estratégias digitais com informações que muitas agências com que trabalhei ainda não possuíam", compara Felipe Morais.

A "divulgação aberta" de pesquisas e dados estratégicos pelas redes sociais pode servir ainda, acredita Rudinei Modezejewski, para despertar o interesse de jovens empreendedores pelas novas carreiras e por projetos pessoais. "Se não encontrarmos uma forma de gerar interesse nas crianças e jovens com as ferramentas de que já dispomos, no futuro teremos menos pesquisadores e cientistas. Mas, na prática, acredito que as redes sociais mais fechadas e com conteúdo mais técnico são mais produtivas", explica.

Segundo ele, a grande vantagem da divulgação de projetos e novas ideias pelas redes está justamente, no aumento da produtividade, tanto das empresas como dos próprios usuários. "Nas redes sociais podem-se ganhar meses de trabalho agregando conteúdo, informações e novas visões sobre determinado assunto, produto ou negócio", afirma o especialista.

Em suma, a despeito de tudo que você possa ouvir por aí, é difícil não concluir que toda a humanidade - e cada um de nós em particular - está se tornando mais inteligente e sofisticada. É só saber onde olhar.

O que há de melhor em ciência

ESTAÇÃO CIÊNCIA DA USP

http://twitter.com/eciencia

Centro de ciências interativo da Universidade de São Paulo que realiza exposições e atividades nas áreas de astronomia, física, geografia, biologia, história, informática e humanidades. 0 objetivo é popularizar a ciência e promover a educação científica de forma lúdica e prazerosa.

CERN

http:// twitter.com/cern

O Centro Europeu de Pesquisas Nucleares fornece informações sobre o maior acelerador de partículas do mundo muitas vezes pelo Twitter, antecipando o noticiário na imprensa convencional.

NASA

http://twitter.com/nasa

Um dos destaques da página da agência espacial americana que divulga projetos de pesquisa no Twitter é o endereço dedicado ao Robonaut 2 (http://twitter. com/astrorobonaut). O robô humanoide é capaz de trabalhar ao lado de outros astronautas em missões espaciais.

REINALDO JOSÉ LOPES

http://twitter.com/reinaldojlopes O jornalista e autor da coluna Visões da Vida, publicada bimestralmente em Conhecer, também dá seus pitacos sobre a vida, o Universo e tudo o mais.

CASA DA CIÊNCIA

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Divulgação de projetos do Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), órgão de popularização da ciência que explora as diversas áreas do conhecimento por meio de teatro, exposições, música, oficinas, palestras e seminários.

AGÊNCIA FAPESP

http://twitter.com/agenciafapesp

A Agência de Notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo informa seus seguidores sobre descobertas em várias áreas da ciência, de saúde a tecnologia e sustentabilidade.