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Jornal do Brás online

Vida e Morte, Perdas e Luto

Publicado em 06 novembro 2014

Por Marisa Moura Verdade

Duas solenidades marcam o início do mês de novembro: a festa de Todos os Santos, no primeiro dia, e a homenagem aos Finados, no segundo.  Estas datas evocam reflexões sobre a vida e a morte, as perdas e o luto. A solenidade de Todos os Santos comemora a plenitude da vida espiritual, considerando as pessoas anônimas que viveram em santidade, independente de serem reconhecidas oficialmente. Para cristãos, santos são aqueles que foram separados para Deus construíram uma vida de fé e amor ao próximo.   O culto dos mortos é uma reverência tradicional, registrada na história de todas as civilizações.  O dia de Finados remete a essa tradição: promove a visitação aos cemitérios, onde os vivos prestam homenagem aos entes queridos falecidos. É um tributo à memória afetiva, celebração do amor que venceu a morte.

De modo geral, a consciência contemporânea evita refletir sobre morte, perdas e luto.   Prefere focalizar a atividade afirmativa e vitoriosa da vida. A tendência dominante na mentalidade coletiva é ver a morte como acontecimento traumático e sem sentido      uma realidade difícil de aceitar. Nossa morte foi privatizada: a maioria a percebe como desgraça individual, acontecimento restrito à esfera particular, exclusivo de quem enfrenta a própria finitude ou antecipa a ausência do ser amado. Nessa condição, descobrimos constrangimentos, impotências e silêncios frente à morte e ao luto.   O contato com a morte, os mortos e os moribundos agencia indagações perturbadoras e existencialmente relevantes.  Compartilhar tais inquietações e reflexões é muito importante.  Porém, não é fácil encontrar escuta acolhedora e cuidadosa para quem quer falar da morte e do morrer. Na clinica psicológica, pacientes de doenças potencialmente fatais relatam dificuldades para expressar ideias e sentimentos de luto, inerentes aos processos de degradação da vida.

Perdas fazem parte da vida de todos nós. Elas se acumulam ao longo das diferentes fases do desenvolvimento humano. Às vezes, potencializando o medo da própria finitude, outras vezes ensinando a conviver com limitações físicas e psicossociais - e os prejuízos que acarretam na qualidade de vida.  Processos do luto são facilmente reconhecidos na separação amorosa ou no falecimento de amigos e parentes.  Mais complicado é compreender e aceitar fantasias e pensamentos de morte que acompanham frustrações, ressentimentos e derrotas. Toda perda capaz de desorganizar o cotidiano e a imaginação da vida machuca e deprime.   Luto é uma experiência psicológica complicada, repetidamente surpreende a consciência atual, comumente distanciada dos valores tradicionais da finitude e raramente disposta a refletir sobre impotência, fracasso e fim. Seus sintomas são sensação de choque, negação seguida de raiva, abatimento e aceitação da ausência. A elaboração do luto implica admitir a necessidade de mudar e revigorar a existência. Isso significa aprender a conviver com a dor e a falta, permitindo o encerramento de um ciclo. Processos de luto impõem a reconstrução da identidade individual, envolvendo renovação de crenças, ideais e sonhos.  Dessa perspectiva, a elaboração do luto obriga a restaurar o rumo da trajetória existencial, encaminhando-a para uma nova fase. Perdas e luto acompanham as mudanças mais profundas da história pessoal e coletiva.

Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP). E-mail: mmverdade@gmail.com