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Dinheiro Rural online

Vida de inseto

Publicado em 02 abril 2012

 

A alta tecnologia não é o que vem à cabeça de quem visita as unidades da Bug Agentes Biológicos, no interior de São Paulo. Próximos a canaviais e estradas, dois terrenos em distritos industriais nos arredores de Piracicaba e Charqueada abrigam galpões de acabamento simples e sem nenhuma placa de identificação. Há poucas salas de reunião e a maior parte do espaço disponível é ocupada por estantes cheias de bandejas de metal ou potes de vidro e plástico. Em cada prateleira, milhares de insetos de diferentes espécies em estágios distintos de vida: de ovos e larvas a adultos, cuidadosamente separados. Esse ambiente rústico, no entanto, é mais high tech do que se pode imaginar. É a biotecnologia em estado puro.

A Bug é a empresa brasileira mais inovadora de 2012, segundo ranking publicado em fevereiro pela respeitada revista americana Fast Company. E o melhor: seu DNA criativo é todo voltado para o agronegócio. Fundada há pouco mais de dez anos numa incubadora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), a Bug produz insetos (bugs, em inglês) que substituem agroquímicos no controle de pragas que atacam lavouras de cana-de-açúcar, soja, milho, algodão, frutas e hortaliças. No ranking das 50 mais inovadoras do mundo, ela foi classificada como a 33ª. A companhia interiorana que fatura menos de R$ 10 milhões anuais superou gigantes bilionários como o grupo EBX, do empresário Eike Batista, a Embraer e a Petrobras, que investem pesado em pesquisa e desenvolvimento. No setor de biotecnologia, está à frente da californiana Amyris e da gigante GE. Um feito e tanto.

Os responsáveis pela façanha são o biólogo Heraldo Negri, 45 anos, e os agrônomos Diogo Carvalho, 38, e Marcelo Poletti, 37. Os três transformaram experiências de controle natural de pragas por insetos, feitas nos laboratórios universitários há décadas, num negócio de larga escala. “O que nós conseguimos foi criar um sistema de produção em massa de insetos que permite tratar grandes áreas da agricultura convencional”, contou Negri à DINHEIRO RURAL, no final de fevereiro. Antes de abrir a Bug, ele chefiava um laboratório de entomologia da Esalq.

O produto de maior sucesso da Bug até agora é uma vespinha minúscula, de 0,25 milímetro, chamada trichogramma. Duas espécies do inseto são usadas para controlar pragas como a broca da cana-de-açúcar, a lagarta da soja e a lagarta do cartucho, principal inimiga do milho. Solta nas plantações, a vespinha coloca seus minúsculos ovos sobre os ovos das pragas, que são maiores. Sua larva se alimenta deles e previne o nascimento das lagartas que iriam infestar as lavouras.

Naturalmente, as vespas fazem o trabalho dos pesticidas químicos, ou seja, invadem o mercado de grandes multinacionais como Bayer, Syngenta e Monsanto. Por um custo inferior, obviamente, e sem oferecer riscos colaterais à saúde dos consumidores e ao meio ambiente.

Para viabilizar a venda e o envio dos insetos para os rincões do País, os empresários brasileiros criaram uma embalagem engenhosa e barata: os ovos das vespinhas são colocados em cartelas de papelão, suficientes para tratar um hectare. Elas custam R$ 14 cada uma. Dividida em quadradinhos destacáveis que o agricultor espalha pela plantação, a cartela tem pequenos furos nas laterais que permitem a saída dos insetos após seu nascimento. Várias usinas de canade- açúcar, como a Iracema, do grupo São Martinho, e a São Manoel, clientes da Bug, não usam mais produtos químicos contra a broca da cana, apenas as vespinhas soltas nos canaviais.

 

 

AS MAIS INOVADORAS DO BRASIL
Ranking da Fast Company de 2012
Empresa Setor
1. Bug Agentes Biológicos Biotecnologia
2. Boo-box Publicidade na internet
3. Grupo EBX Infraestrutura, petróleo
4. Stefanini Tecnologia da informação
5. Embraer Indústria aeronáutica
6. Petrobras Petróleo e gás
7. Predicta Internet
8. F*Hits Internet
9. Apontador Internet
10. Vostu Jogos online
 
Fonte: Fast Company

 

No fim do ano passado, Negri e Carvalho, que eram os sócios originais da Bug, negociaram uma fusão com a Promip (empresa fundada por Marcelo Poletti na incubadora da Esalq), que vende outro tipo de inseto: ácaros e outros predadores. Carvalho e Poletti estudaram agronomia juntos, na Unesp de Jaboticabal, e fizeram mestrado na mesma época, em Piracicaba. Descobriram uma pequena mina de ouro biológica. O controle exercido por esses animaizinhos é diferente: eles comem pragas que atacam plantações de flores e hortifrútis, como outros tipos de ácaros (rajado, branco). A Bug passou a vender potinhos com 500 a dez mil ácaros vivos por R$ 20 a R$ 80.

O mercado potencial é gigantesco. O Brasil é o maior mercado de defensivos agrícolas do mundo, com vendas de US$ 8,3 bilhões no ano passado. Insetos vindos dos galpões da Bug já tratam 350 mil hectares de canaviais, correspondentes a 4% da área total plantada de 8,4 milhões de hectares no País.

Mas a grande perspectiva de crescimento para Negri e seus sócios é entrar no mercado da soja, com mais de 25 milhões de hectares plantados no País. Em parte, o endurecimento das regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para agroquímicos está ajudando a companhia. Dois dos inseticidas mais usados no cultivo da soja, o endosulfan e o metamidofós, foram proibidos recentemente pela Anvisa, seguindo a trilha de diversos países, por danos à saúde provocados pelo seu uso. A Bug já tem alguns produtos para substituí-los. Além da vespa Trichogramma, outras duas espécies, Trissolcus e Telenomus, são usadas para controlar o percevejo da soja.

Os empresários são cautelosos, mas preveem que em cinco anos o faturamento da Bug multiplique-se por dez e atinja R$ 67 milhões anuais. “Sendo bastante otimista, o controle biológico pode ocupar até 10% do mercado de defensivos em cinco anos”, diz Diogo Carvalho. “Mudar a cultura do agricultor não é simples, ele está usando o defensivo há gerações”, afirma Poletti, com a experiência de quem gastou muita saliva para convencer produtores de frutas a comprar ácaros predadores para suas plantações. Os três se divertem contando as histórias da desconfiança dos agricultores quando começaram a vender os insetos. “Eu ia visitar o cliente e ele dizia: ‘Mas você quer colocar mais ácaro no meu morango?’”, relembra Poletti. Muitos duvidavam que o método funcionasse e usavam os insetos apenas em pequenas áreas.

 

O pequeno produtor de morango Edson Ramalho, de Estiva, na região norte de Minas Gerais, começou a utilizar os ácaros predadores no ano passado e hoje “confia totalmente” nos insetos para evitar infestações em um hectare de plantação. Em sua região, de 80 produtores, cerca de 20 estão usando o controle biológico. Os custos também baixaram: Ramalho gastaria R$ 1.500 com os defensivos; os insetos custaram R$ 180. Nos produtos de maior valor agregado, como os hortifrútis, o uso do controle biológico conta com a simpatia do consumidor, preocupado com a contaminação de alimentos.

Apesar do pequeno porte, a Bug tem a seu favor a escassa concorrência no mercado de controle biológico. No mundo, as maiores empresas do setor estão na Europa, que teve o estímulo de uma legislação mais rígida sobre o uso de defensivos agrícolas. Uma das maiores empresas do setor é a holandesa Koppert, que fatura cerca de E 80 milhões e chegou recentemente ao País. O problema é que os produtos foram desenvolvidos para outras culturas e climas e, em alguns casos, para plantações em ambientes controlados, como estufas. Algumas empresas brasileiras de controle biológico, como Itaforte Bioprodutos, sediada na também paulista Itapetininga, vendem outros tipos de produtos, como fungos que substituem inseticidas.

É nos pequenos detalhes que está a tecnologia da Bug. Os sócios, que antes de abrir a empresa publicaram vários trabalhos científicos, desenharam equipamentos para automatizar pelo menos parte dos processos de coleta de ovos e insetos. “Saltamos da produção de um quilo de ovos por dia para dez quilos nos últimos quatro anos”, diz Negri, referindo-se às vespas, seu principal produto. “Daqui para a frente, é fácil multiplicar este volume.” Os equipamentos (a empresa não permitiu que fossem fotografados) levaram a um aumento de volumes acompanhado por uma redução de funcionários. De um máximo de 200, o quadro de pessoal caiu para 70.

Como os insetos têm pequenas variações regionais, que influenciam na sua eficiência no combate a pragas, a Bug tem um acervo de insetos reprodutores mais adaptados a cada área do País. Com o processo controlado, a empresa prevê facilmente a data de nascimento dos insetos em cada lote enviado por transportadora aos produtores. Há possibilidade de usar o controle biológico sozinho ou associado a alguns defensivos, com planejamento cuidadoso das datas de aplicação.

A história da Bug segue um script perfeito para uma ‘start-up’ de biotecnologia nascida numa das grandes universidades dos Estados Unidos. Mas sua trajetória era bastante incomum até pouco tempo atrás no Brasil. Heraldo Negri, enquanto aprimorava técnicas de produção no laboratório de entomologia da Esalq e exercia seu grande hobby, o de fotografar insetos, já havia tentado abrir outros dois negócios não relacionados à biologia. Ambos não tiveram grande resultado. Mas resolveu aceitar o convite de Diogo Carvalho, que estava terminando o mestrado e pensava em transformar os insetos num produto de grande escala.

Ainda na incubadora da universidade, a Bug recebeu R$ 75 mil em recursos de um programa para incentivo à inovação em pequenas empresas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A empresa recebeu ao todo três diferentes aportes de dinheiro público. Para viabilizar o negócio, Carvalho focou primeiro nas usinas de açúcar e álcool, que já tinham alguma experiência com o uso da vespinha cotesia, para tentar vender a nova espécie de vespa. Concentrados em criar processos que possibilitassem produzir grandes volumes, os dois sócios ignoravam o assédio de alguns fundos de investimento interessados em comprar participações na companhia.

A maior mudança na estrutura da empresa veio há dois anos, com a entrada do fundo de participações Criatec, lançado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para investir apenas em pequenas empresas inovadoras. É o chamado capital semente. O Criatec tem hoje 36 investimentos, a maior parte em companhias criadas nas incubadoras de universidades. Sua participação na Bug (20%) foi comprada por R$ 1,5 milhão (veja quadro). “Ficamos tentando comprar uma participação por algum tempo, mas eles nos esnobavam”, diz o gestor do Criatec, Francisco Jardim. A negociação só começou efetivamente quando Jardim apareceu de surpresa no laboratório de Negri na Esalq. O economista e o biólogo quebraram o gelo com uma conversa de cinco horas. “Negri e os sócios têm brilho nos olhos, paixão pelo negócio, o que é meio caminho andado quando selecionamos um investimento”, diz o executivo.

O fato é que a entrada do Criatec expôs a Bug aos investidores. Enquanto acertavam a fusão com a Promip, do ex-colega Poletti, começou a negociação com outro fundo de investimentos interessado em colocar dinheiro na empresa. O Trigger Participações, de São Paulo, acertou um aporte de R$ 1,6 milhão na empresa, numa operação de dívida conversível em ações. O sócio do Trigger, Marcelo Berger, chegou a procurar concorrentes, mas não se animou. “Várias empresas estão fazendo coisas parecidas, mas a Bug é a que tem as melhores condições de se tornar uma líder do setor.” Depois da fusão e da entrada do novo fundo, cada um dos sócios ficou com 20% do capital. A Bug provocou o interesse também de investidores bem maiores, como o fundo de venture capital americano Monashees, grande caçador de start-ups na área de tecnologia, e o empresário Guilherme Leal, um dos fundadores da empresa de cosméticos Natura.

Jardim, do Criatec, não se surpreendeu com a eleição da Bug pela Fast Company como a mais inovadora, à frente de multinacionais. “Inovar traz um grande risco. De dez tentativas, cinco não dão certo e as grandes corporações têm dificuldades em lidar com essa taxa de fracasso”, afirma. Mas o fato é que, com a menção da empresa pela Fast Company, os celulares dos donos da Bug não param de tocar, com investidores americanos e europeus do outro lado da linha querendo marcar reuniões.

Mas os novos interessados terão que entrar na fila. Já está quase acertado um investimento de US$ 7,5 milhões a ser feito por um empresário californiano, que ficará com uma participação de 25% e diluirá os demais acionistas. No mês passado, o americano voou dos Estados Unidos até Piracicaba – em pleno domingo de Carnaval – para formalizar a oferta. Sem revelar o nome, os empresários afirmam que ele terá 30 dias de exclusividade nas negociações.

A longo prazo, a Bug poderá tornar-se um alvo cobiçado por grandes multinacionais de defensivos ou sementes. Ela já tem na prateleira um serviço talhado para essas gigantes: o cultivo de pragas para uso nos testes de alimentos transgênicos. No futuro, o controle biológico poderá até ajudar a prolongar a vida útil de defensivos agrícolas tradicionais: os insetos da Bug poderão matar as pragas resistentes ao inseticida químico. Aí, sim, os antigos pesquisadores universitários poderão ver sua empreitada transformar-se numa montanha de dólares. No ano passado, a Bayer Crop Science comprou a goiana Soy Tech Pesquisas em Soja por US$ 48 milhões. A Monsanto pagou US$ 290 milhões em 2008 por duas empresas, Alelyx e CanaVialis, formadas pelo grupo Votorantim com pesquisadores universitários para produzir melhoramento genético na cana-de-açúcar. Agora, o mundo é dos insetos.