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B2B Magazine

Viciado ou amante do trabalho

Publicado em 01 agosto 2007

A matéria de capa desta edição questiona a "escravidão" gerada pela tecnologia, que nos faz de trabalhar cada vez mais conectados, plugados, antenados 100% do tempo, dedicando cada vez menos tempo à vida pessoal.

No meu universo de trabalho convivo os bons gestores públicos deste país e sempre me indigno com a generalização de que eles não trabalham ou trabalham pouco. De fato, custa imaginar um desses gestores levando uma vida profissional com pouca atividade. Muito pelo contrário, pois é comum termos reuniões agendadas com governadores e ou secretários na sexta-feira à tarde, ou inclusive sábado de manhã. É freqüente trabalharmos até altas horas da noite junto a esses gestores. A realidade que conheço difere muito dos estereótipos dos gestores acomodados, ou seja, daquele perfil do funcionário público que trabalha pouco, que produz o suficiente e se acomoda.

Mas como tudo na vida, entre o branco e preto há o gris, e sempre que posso faço questão de demonstrar a boa gestão pública que geralmente não é retratada na mídia.

Motivada pelo tema da capa e pensando por que há pessoas que trabalham muito, e claro, a tecnologia como sempre é somente um meio que nos ajuda a trabalhar mais, acredito que todo esse processo é muito mais social do que tecnológico.

Lendo um artigo do Wanderley Codo, achamos um conceito bem interessante da distinção entre workaholic e worklovers. Qual a diferença? O primeiro se refere a pessoas viciadas em trabalho, e o segundo aos amantes por trabalho. Parecem iguais, mas são opostos. Ambos se dedicam muito ao trabalho, ficando horas além do expediente e nos finais de semana, dedicando pouco tempo para suas relações familiares, seus vínculos afetivos. O trabalho parece ocupar o centro de suas vidas, sendo mais importante do que tudo e todos. Eis o que workaholics e worklovers têm em comum. As semelhanças terminam aí.

Um viciado no trabalho é uma pessoa que foge da vida por meio dele, uma forma de fuga por meio da qual não consegue conviver muito tempo com sua família, seus filhos; muitas vezes não encontra um amor ou tem um relacionamento complicado. Encontrou no trabalho um abrigo contra tudo isso e contra ele mesmo.

Um worklover gosta e se realiza com o que faz, tem prazer no seu trabalho, e o principal: se diverte com ele. Por isso está de bem consigo mesmo com uma carga excessiva de trabalho, costuma ter uma vida afetiva satisfatória. Não busca coisas para fazer, faz o que quer e precisa, e o trabalho é parte prazerosa de sua vida.

E o interessante é saber que isso acontece também muito, muito mais do que podemos imaginar no setor público, no qual há muitos worklovers. Depois de ler o artigo do Wanderley Codo, me sentimenos culpada por amar meu trabalho, e acabei me descobrindo nesse universo de worklovers.

Tecnologia? Ela faz parte de todo esse universo, mas como já disse, apenas como uma ferramenta, um instrumento, que pode até nos escravizar em alguns momentos, nos tornar dependentes, mas se há prazer, paixão, há discernimento também para saber a hora de apertar o off e curtir as outras coisas da vida.

Florencia Ferrer é doutora em sociologia econômica coordenadora do Ned—Gov (Fundap—Fapesp), e diretora-presidente da FF Pesquisa & Consultoria/ e-stratégia

florência@e-strategiapublica.com.br