Notícia

Folha Universal

Vicente Barros - alerta ambiental

Publicado em 23 novembro 2008

Por Guilherme Bryan

“Em 50 anos, o aquecimento da América do Sul será tão forte que o volume dos caudalosos rios do continente será reduzido.” Este é o alerta do climatologista e co-presidente do grupo de estudo do Painel Intergovernamental da Organização das Nações Unidas (ONU)de Mudanças Climáticas (IPCC), Vicente Barros, que esteve em São Paulo, no mês passado, para discutir o aquecimento global e as mudanças que o fenômeno provoca, seja no nível das águas ou ameaçando a sobrevivência de centenas de espécies animais e vegetais. Professor de Ciências Atmosféricas da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, ele fez palestra na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e deu um panorama dos problemas do planeta. “Se a humanidade não reagir, acontecerão problemas muito graves. É previsto um grande aquecimento na América do Sul, com 4°C a 5°C a mais na zona do Amazonas, além de menos chuvas no centro do Brasil”, conclui.

1 – Os países desenvolvidos conseguirão cumprir, até 2012, o que estabeleceram no Protocolo de Kyoto (acordo internacional entre países industrializados para garantir um desenvolvimento mundial mais limpo, com a redução de emissões de gases-

estufa, por exemplo)?

O protocolo ratificado em 2004 impôs metas para os países socialistas muito maiores do que as que já existiam em 1997. Mas, com exceção dos Estados Unidos, é possível perceber o cumprimento das metas. Mesmo que países como o Japão apresentem dificuldades, muitos cumprirão os objetivos, o que se comprova com as estatísticas anuais.

2 – Como as eleições nos Estados Unidos vão interferir nas decisões de combate às mudanças climáticas?

Não sou especialista em política norte-americana, mas me parece que (Barack) Obama não adotará a mesma linha do (atual presidente George W.) Bush (reconhecidamente pouco preocupado com as questões ambientais).

3 – Quais devem ser os efeitos da atual crise econômica mundial nas questões climáticas?

É preciso aguardar para ver quanto tempo a crise vai durar. A inovação tecnológica permanece intacta e a crise está mais localizada em alguns países específicos, não atingindo a economia de modo

global, como acontecia antes.

4 – Como o desenvolvimento tecnológico interfere nessas questões?

O comportamento consumista não afeta apenas o clima, mas sobretudo os recursos naturais. O preço dos minerais triplicou e o dos alimentos também aumentou, porque a demanda é maior do que a capacidade de produção. As atuais crises de energia, principalmente de petróleo e de minerais, incluindo os fosfatos, imprescindíveis para a agricultura, tendem a continuar, forçando o aumento dos preços. Há quem acredite até que esses recursos vão acabar. As políticas públicas ainda são poucas e, lamentavelmente, não ocorrem em nível mundial.

5 – Como é possível resolver o problema da emissão de gases?

Na Europa e nos Estados Unidos, a maior parte da carga é transportada por barco, trem e, por último, por caminhão. Nós aqui (América Latina) temos ótimos rios e não os utilizamos. Ainda priorizamos estradas. O relatório do IPCC indica mais chances de redução de emissões a nível domiciliar, com o uso de energia solar. Acredito que haja grande possibilidade de redução também no transporte com o uso de combustíveis do futuro (biocombustíveis).

6 – O que está sendo feito hoje é o suficiente para que o quadro atual seja revertido?

Mesmo reduzindo em 80% a emissão de gases do efeito estufa, que é a melhor das hipóteses, haverá aumento de temperaturas no planeta. Seguramente, serão necessários outros esforços. Um dos problemas é a escassa literatura sobre o assunto. Fala-se muito em como deveríamos agir e não sobre o mundo real, em como devemos nos adaptar às novas condições de agora.

7 – Quais são as possíveis relações entre mudança climática e a propagação de doenças?

Há casos muito concretos. A febre amarela, por exemplo, está se propagando pelo menos no Paraguai e na Argentina. O mosquito da dengue também se espalhou até Buenos Aires, onde não estava antes, e no norte da Argentina. À medida que a temperatura sobe, as doenças tropicais se propagam. Também temos problemas muito sérios em países africanos, como o Quênia. A longo prazo, isso será resolvido por conta dos avanços da medicina, mas ainda há várias populações despreparadas.

8 – As mudanças climáticas afetam mais os países pobres?

Os países pobres têm menos organização social, capacidade econômica e recursos para se adaptar, além de terem pouca consciência coletiva para resolver os problemas.

9 – Qual será a situação do Brasil?

É previsto um grande aquecimento na América do Sul, com 4°C a 5°C a mais na zona do Amazonas, além de menos chuvas no centro do Brasil. Será perdida a metade da diversidade biológica da Terra devido ao desaparecimento da selva tropical. Além do risco da biodiversidade, haverá um alto custo econômico, já que 90% da energia consumida no Brasil é de origem hidroelétrica.

10 – Qual o papel da população nesse processo?

A tomada de consciência por parte da população é essencial. Serão necessárias várias gerações para que ocorram mudanças culturais, relacionadas ao sistema econômico, para que as pessoas entendam que maior consumo não tem relação com felicidade. Acredito que os esforços de adaptação se concentrem nas chamadas adaptações reativas, que ocorrem depois que os efeitos das mudanças climáticas já estão consumados.