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Vice-Presidente do CNPq concede entrevista sobre iniciação científica na região Norte

Publicado em 20 julho 2009

Por Cristiane Barbosa

A vice-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Wrana Maria Panizzi, veio a Manaus para participar de importantes eventos dentro da programação da 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e se encantou com a intensidade dos programas de iniciação científica desenvolvidos no Amazonas, especialmente o Programa Ciência na Escola (PCE), iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) em parceria com as secretarias de educação do Estado (Seduc) e Município (Semed).

 A professora Wrana, como prefere ser chamada, é doutora em Urbanismo e em Ciências Sociais pela Universidade de Paris e já foi reitora por oito anos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atuou também como professora da faculdade de Arquitetura e no mestrado e doutorado em Planejamento Urbano e Regional. Acompanhe a entrevista exclusiva que ela concedeu à Agência Fapeam, na qual fala sobre as perspectivas para a iniciação científica e para o desenvolvimento da região Norte.

O que representam os programas de iniciação científica, tais como o Pibic Jr. e o Programa Ciência na Escola (PCE), que a senhora teve a oportunidade de conhecer nesta SBPC, para o desenvolvimento da pesquisa e da ciência no Estado do Amazonas?

Wrana Maria Panizzi – O programa de iniciação científica é fundamental, pois tem o objetivo de buscar uma formação para nossos estudantes que seja mais completa, porque ela permite, por meio de uma qualificação inicial do jovem, seja ela no curso médio seja na graduação, até a pós-graduação, a possibilidade de uma formação científica para aqueles que vão querer trabalhar especificamente com a produção do conhecimento, na atividade acadêmica e de pesquisador.Cada vez mais as pessoas se deparam com desafios de toda ordem e eles requerem um conjunto de habilidades e competências, mas, sobretudo, eles colocam a exigência de um profissional que detenha conhecimentos. Hoje o conhecimento é o bem maior que nós temos para poder enfrentar os desafios que aí estão colocados.

Então, nesse sentido, a iniciação científica permite não só que você obtenha conhecimentos, mas que você seja o protagonista da própria produção do conhecimento, e quem busca isto, quem domina os instrumentos científicos metodológicos e teóricos, tem mais condições efetivamente de avançar.

Qual foi sua avaliação do Programa Ciência na Escola, que é um programa destinado a estudantes de ensino fundamental e médio das escolas públicas do Amazonas, com o objetivo de despertar o interesse pela ciência desde cedo?

Wrana Maria Panizzi – Eu tenho a impressão de que a Fapeam tem dado um exemplo muito significativo para todo o nosso país. É uma fundação que tem trabalhado nos últimos anos de forma muito intensa, que tem contado com o apoio e estabelecido junto com a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia políticas muito incisivas de apoio aqueles que produzem conhecimento e na formação das pessoas para produção do conhecimento. Penso que a Fapeam caminha passo a passo com aquelas fundações mais antigas do país e com mais recursos, como a Fapesp, a Fapemig e a Faperj, que são Faps consolidadas e com uma longa história, e a Fapeam não fica para trás. Ela está caminhando par e passo com elas. Então, isso é extremamente importante e significativo. E mais, eu fiquei impressionada com o que vi no PCE. Este Programa Ciência na Escola realmente é extraordinário, porque eu pude ver na apresentação feita pelos estudantes que é um programa que atinge o nosso estudante desta região, deste Estado, seja do ensino fundamental seja do ensino médio, e atinge também os professores. Vi um trabalho muito próspero dos alunos e professores e vi também uma desenvoltura e entusiasmo desses estudantes apresentando o resultado dos seus projetos, trabalhando muito claramente com o objeto de estudo, com os instrumentos, com o método, com o objetivo, com os resultados e falando com muita tranquilidade e postura.

Outra questão que eu quero salientar é que esse apoio que a Fapeam vem dando  possibilita que nossos estudantes aprendam a trabalhar em grupo, o que hoje é uma exigência para qualquer um. Vivemos um tempo em que, embora todos procurem seu sucesso pessoal, é necessário trabalhar o coletivo. Hoje se fala em trabalho em redes, interdisciplinar. Tanto é que a Conferência Internacional de Ciências, que vai acontecer em Budapeste no próximo mês de novembro, tem como tema central o trabalho em redes. Então, isso não é uma coisa que não nasce de uma hora para a outra. É preciso que a gente esteja preparado e educado para trabalhar em rede, o que permite a troca de experiências, a troca de idéias e que você possa trabalhar coletivamente, porque ciência, sobretudo, é resultado de um trabalho coletivo.Eu vi na apresentação dos trabalhos do PCE este espírito coletivo, a participação conjunta. Vi a disciplina que os estudantes começam a formar nos relatos dos trabalhos, essa disciplina do saber; formular as questões, as respostas e formular também a trajetória da pesquisa. Acho esse aspecto fundamental. Então, o Programa Ciência na Escola certamente é um programa que deverá ser difundido e deverá ser dado conhecido em todo país.

Existe programa similar em outro local do país?

Wrana Maria Panizzi - Olha, eu tenho acompanhado muito os esforços dos Estados, aliás, numa parceria bastante grande com o próprio CNPq através da Iniciação Científica Junior, o Pibic Jr, mas ele é diferente desse projeto que a Fapeam fomenta. Certamente em alguns outros lugares deve ter, mas não sei se tão estruturado e com a política tão definida como a gente pode perceber aqui. Quando falei em parceria, queria salientar que, para nós, do CNPq, tem sido, aliás, nosso ministro da ciência e tecnologia quando fez apresentação dos resultados do PAC na SBPC, na segunda-feira, dia 13, deixou claro a participação da Fapeam num dos grandes projetos que temos, os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Nos INCTs tivemos a participação da Fapesp, da Fapemig, da Faperj, aquelas agências que primeiro aderiram a esses programa e que estão em regiões mais ricas, no sentido de mais recursos destinados a elas, porque essa região também é rica, e a Fapeam imediatamente se dispôs a participar dessa parceria. Isso é importante não só pelo aporte de recursos significativo que o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia e da Fapeam, trouxe para esse projeto dos INCTs, mas é muito importante também para significar uma posição de que você quer trabalhar de forma conjunta, de forma mais orgânica, de forma compartilhada e, sobretudo, com uma visão de longo prazo, independentemente de governos, de partidos, de objetivos imediatos que qualquer governo tem.  Acho que trabalhar na formação de projetos, desde o ensino fundamental, certamente vai ter resultados no futuro não muito distante, no sentido de você ter um conjunto de pessoas bem formadas e mais qualificadas para prosseguir os estudos, para prosseguir as pesquisas e a produção de conhecimento em torno dessa rica região, como também para serem profissionais diferenciados que a sociedade está aí a exigir.

Qual é a possibilidade então de haver uma parceria do CNPq para fomentar o PCE?

Wrana Maria Panizzi - Eu diria que fiquei muito empolgada com o programa. Quero dizer que levarei à nossa diretoria, à direção do CNPq e ao Conselho Deliberativo, os relatos dessa experiência e, como nós somos parceiros em tantas atividades, porque não? Talvez no futuro a gente venha a ser nisso também. Mas, sobretudo, a gente tem de respeitar e saudar essa experiência deste Estado, desta Fundação e desta Secretaria.

Quanto é o investimento do CNPq em iniciação científica no nosso país? A senhora pode precisar?

Wrana Maria Panizzi - Temos mais de 80 mil bolsas de iniciação científica. No Pibic, especialmente, temos 24 mil bolsas e tivemos um acréscimo significativo neste ano. No ano que passou, aumentamos 1.000 bolsas e neste ano, 2.014 bolsas do Pibic, acompanhadas de dois outros programas novos que se somam a essas bolsas, que é o Pibic Ações Afirmativas, voltado para escolas públicas, que é um projeto piloto em parceria com a Secretaria para Igualdade Racial, que traz um aporte de mais 600 bolsas voltadas à iniciação cientifica em instituições públicas que tenham Pibic e programas de ações afirmativas, portanto, são bolsas destinadas a estudantes que chegaram à universidade através de uma ação afirmativa.  Se somam mais 650 bolsas, que são aquelas de iniciação cientifica vinculadas a Olimpíada da Matemática, que procura premiar os estudantes medalhistas das olimpíadas. Este ano temos cerca de 99% de municípios e quase 20 milhões de estudantes participando da olimpíada. Este é um trabalho extraordinário,  as bolsas são de R$ 300.

A senhora deve ter o diagnóstico da iniciação cientifica em todos os Estados. A senhora, então, acredita que houve avanço nesse sentido no Amazonas?

Wrana Maria Panizzi – Acho que está avançando. Tanto é que estamos lançando o Prêmio Jovem Cientista na SBPC, que tem como temática a questão do Meio Ambiente e da Energia. A expectativa é que teremos  uma participação muito grande desta região e deste Estado, e por que nós acreditamos nisso? De um lado, porque o tema diz respeito muito próximo aqui, ao cotidiano das pessoas, embora seja um tema de toda a humanidade. Teremos uma participação grande porque nós percebemos um envolvimento muito grande das escolas, do Governo, da Fapeam, das instituições, das universidades, já que há um incentivo muito grande e  uma receptividade, portanto. Hoje você tem um número maior de bolsistas e programas muito vivos, muito presentes.

Em que sentido os programas de iniciação científica  são positivos para o futuro do Amazonas?

Wrana Maria Panizzi – Positivo porque você cria uma potencialidade de dispor, em pouco tempo, de recursos humanos altamente qualificados, que começaram desde o início com uma educação que é diferenciada, isso não há dúvida, em escolas públicas; de você poder participar de atividades de iniciação cientifica e fazê-lo de forma tão persistente, tão acompanhada, isso me impressionou também. Isto certamente cria uma sólida base e vai se expressar na qualidade da universidade, vai refletir na quantidade de pessoas que vão para a pós-graduação e vão enriquecer nossa pós-graduação. Mas não é só isso, é a qualidade dos profissionais que vamos formar. Então, eu vejo, a curtíssimo prazo, uma potencialidade enorme dessa região. Uma das coisas que eu comentava com uma jornalista do Rio Grande do Sul, da minha terra, que também está impressionada com a vitalidade que nós percebemos nesse Estado.E certamente essa vitalidade tem muito a ver com a possibilidade das pessoas participarem do bem maior que marca esse nosso novo tempo, o século 21, que é o conhecimento. Há uma vontade das pessoas aprenderem, e a SBPC revela isso. Não é por acaso que depois de tantos anos ela acontece aqui. Acho que é um reconhecimento da legitimidade que essa região tem, de poder querer no seu território, no seu espaço, apresentar para o Brasil o que está sendo produzido em termos de ciência hoje. Não há  a menor dúvida de que é isto. Este Estado representa nosso Brasil profundo. Com sua identidade, com sua cultura, com seus valores, com sua riqueza, ele se legitima, se apresenta para o resto do país e fora também, como a festa da produção do conhecimento, que, no fundo, a SBPC é isto.

Fale um pouco sobre as novidades do CNPq. A senhora falou de novas bolsas...

Wrana Maria Panizzi – O aumento das bolsas com um salto significativo da oferta de 4,5 mil novas bolsas neste ano, em 2009, para a iniciação científica e as novas modalidades, seja para as ações afirmativas, que é um projeto piloto, seja para o Programa de Iniciação Científica-Mestrado (Picme), voltado para os medalhistas das Olimpíadas de Matemática. Além disso, o relacionamento cada vez mais aprofundado que nós queremos fazer com os Estados e suas instituições. Nós reformulamos também a Conaic, que é a Comissão Nacional de Avaliação, onde nós colocamos representações institucionais que conosco pensam este programa. Então, um dos pontos que estamos preocupados neste momento é o de fazer um acompanhamento mais de perto de como este programa de iniciação científica está acontecendo, está sendo implementado. Qual é a intenção? É conhecer a riqueza das diferentes experiências locais e regionais. Certamente este Estado tem muito a dizer de experiência, proposta nova, de acompanhamento, de envolvimento, seja do estudante, seja dos nossos professores. Acho que a medida que nós qualificamos nossos estudantes nós, professores, também nos qualificamos.

Então a senhora diria que o Amazonas está no caminho certo?

Wrana Maria Panizzi – Certamente. Este Estado, ao investir em ciência e tecnologia, caminha para uma boa direção. Ele está acompanhando aquilo que se faz nas sociedades mais avançadas, por que nós, do Brasil, temos um grande caminho de recuperação, embora tenhamos avançado muito fortemente nos últimos 15 anos, e nestes últimos anos aumentamos substancialmente.

Agência Fapeam