Notícia

Jornal da USP

Veterinária desenvolve novos bovinos

Publicado em 23 junho 1997

Por ELIZA MUTO, especial para o JORNAL DA USP
Desde que a ovelha escocesa Dolly ganhou notoriedade internacional no começo deste ano, por ter sido clonada, a ciência de um modo geral vem tentando repetir o feito dos pesquisadores de Edimburgo, uma forma de saber e provar até onde as pesquisas feitas com seres vivos pode chegar. Na Universidade de São Paulo já há processos semelhantes em andamento. A ovelha Dolly representa o que a ciência chama de clone. Ela é cópia idêntica produzida de maneira artificial e assexuada a partir de uma célula mamaria de outra ovelha. No Brasil, pretende-se clonar embriões bovinos, ao invés de ovelhas. A pesquisa está sendo desenvolvida no Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP. Este projeto, que conta com uma equipe de cinco pós-graduandos, comandada pelo professor José Antônio Visintin, visa o aprimoramento das técnicas de fecundação in vitro e de clonagem, assim como a aplicação dessas técnicas no campo, através de seleção e multiplicação dos melhores animais, levando-se em consideração a produção de carne e de leite. O estudo está sendo realizado em conjunto, tecnicamente, com outro pesquisador da área, o professor Rodolfo Rumpf, do Cenargen (Centro Nacional de Recursos Genéticos) da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em Brasília. A pesquisa de Visintin, financiada pela Fapesp (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ainda se encontra na metade do percurso e vem iniciando agora sua parte prática. Vidro e clonagem A chamada parte técnica da pesquisa pode ser dividida em duas etapas: a primeira é a fecundação in vitro propriamente dita, que está em andamento de fato, e a segunda fase é a clonagem, a parte mais difícil de ser executada, segundo o pesquisador Visintin. As dificuldades se dão porque o estudo engloba diversos procedimentos. Primeiramente, retira-se um óvulo de uma vaca. Este óvulo é, então, fecundado in vitro, isto é, em laboratório. O embrião, chamado nesta fase de zigoto, é cultivado em laboratório até que atinja 16 células, que, posteriormente, são separadas umas das outras. Cada uma das células é introduzida, via choque elétrico, no interior de um óvulo receptor, proveniente de ovários de animais mortos, que já teve seu material genético retirado. O embrião reconstruído é colocado na estufa até que alcance cerca de 120 células, atingindo a fase denominada de blastocisto. E, então, é implantado em uma vaca receptora, que serve como mãe de aluguel, para ser gestado até o seu nascimento. Através destes procedimentos, poderão nascer até 16 animais geneticamente idênticos. Ou seja, graças ao trabalho desenvolvido na USP, pode-se reproduzir quase duas dezenas de bezerros exatamente iguais, com as mesmas características genéticas, da mesma forma que foi criada a ovelhinha escocesa. Visintin acredita que a polêmica criada em torno da clonagem não é válida sob o âmbito dos animais e das plantas, já que a clonagem destes melhora a qualidade de vida do ser humano, proporcionando-lhe boas condições de alimentação e saúde. Nesse sentido, sua pesquisa tem por objetivo, através da seleção dos melhores animais, multiplicá-los, aumentando, desse modo., a qualidade e a quantidade de carne e de leite. Ele também ressaltou a importância de transgenia de porcos, que consiste em sua modificação genética, com a implantação de informação dos genes humanos na célula do porco. Este recurso, associado à clonagem, permitirá que porcos produzam coração, rins e fígado compatíveis com os órgãos humanos, evitando a rejeição de órgãos transplantados e aumentando a oferta dos mesmos. Esse tipo de cirurgia já vem sendo estudada há algum tempo e mostrou-se satisfatória. Agora, em um procedimento mais avançado, poderá se saber até onde os seres humanos serão beneficiados. Estudos feitos no Brasil e no Exterior já comprovaram que o índice de rejeição a órgãos transplantados de porcos para pessoas é bem pequeno. Com a transgenia, muitos pacientes que ficam meses e até anos em uma fila de hospital esperando um órgão para ser transplantado seriam ajudados. Cópias humanas Uma das questões mais sérias com relação à clonagem e que mexeu diretamente com a ética dos pesquisadores, levantando uma acalorada polêmica nos meios científicos, diz respeito à possibilidade de, a partir do estudo de clonagem, pode-se criar seres humanos em laboratório. Essa discussão, que mais se assemelha a um filme de ficção científica, foi recusada pela maioria dos cientistas envolvidos nos trabalhos. Muitas revistas especializadas ou não, no entanto, levantaram a hipótese, acreditando em sua real factibilidade. O professor Visintin, contudo, não aceita essa questão. Ele não associa seu estudo a possíveis projetos de clonagem de seres humanos, pois, segundo ele, a pesquisa procura apenas "achar o caminho", através da clonagem de embriões bovinos, visando melhorar as condições de vida do homem e não copiá-lo em laboratório. E, se algo for desenvolvido além disto, com seres humanos, será decidido pela sociedade. Ele tem razão. Afinal, uma coisa é copiar animais para se ajudar em novas pesquisas e ampliar o universo do conhecimento humano. Outra coisa é a reprodução humana em série. Nesse caso. Visintin diz ainda que não acredita na possibilidade de clonar gênios, pois, para ele, o homem é composto por duas heranças: a genética e a ambiental, e esta é impossível de ser obtida em clones. Ou seja: em um trabalho hipotético com as células de um Mozart ou de um Hitler, por exemplo, não se poderia chegar nem a um novo gênio da música nem a um ditador enlouquecido. As condições sociais, ambientais e culturais influenciam, e muito, na formação do caráter das pessoas. Segundo cientistas que já foram questionados a esse respeito, apenas em situações exatamente idênticas - sociais, culturais e genéticas - se poderia, em um exercício de ficção, acreditar-se na viabilidade de se reproduzir com fidelidade seres humanos que marcaram época. *Eliza Muto é repórter da Agência Universitária de Noticias