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Veterano desbravador

Publicado em 01 dezembro 2010

O doutor em Física Spero Morato utilizou toda sua experiência e visão de negócio para montar uma spin-off acadêmica, que agora por sua vez gera uma nova empresa

Depois de uma bem-sucedida carreira como professor e pesquisador do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), o físico Spero Penha Morato, 67 anos, até poderia ter pendurado as chuteiras. Em vez disso, decidiu usar seu imenso conhecimento acumulado na área de laser para se tornar um empreendedor, Spero é nada menos do que o pai do primeiro stent coronário totalmente desenvolvido e fabricado no Brasil, numa parceria entre uma de suas empresas, a Innovatech Medicai, e a Scitech Medicai, de Goiânia. Um grande mérito para quem sempre fez pesquisa com um olho na academia e outro no mercado.

``A ciência não pode ficar na gaveta. O País investe em você como pesquisador e é preciso dar um retorno à sociedade, não só em publicações acadêmicas. E claro que sou favorável a publicações, mas acho que elas também podem virar um produto comercializável. Por isso, essa passagem de pesquisador para empreendedor foi natural para mim``, afirma Morato. Graduado e mestre em Física pela USP, com doutorado pela Universidade de Utah, nos Estados Unidos, ele tem no currículo a formação de 25 alunos, entre mestres e doutores, somando 100 publicações e 300 citações, em média,

Foi nesse ambiente acadêmico que, em 1998, Morato fundou a LaserTools em parceria com a equipe do Centro de Lasers e Aplicações do Ipen. Ele conta que o grupo percebeu que poderia utilizar a tecnologia do laser para agregar valor à cadeia produtiva, oferecendo serviços de corte, solda e furo de materiais em produtos já existentes. A proposta era substituir ferramentas tradicionais como serra e pintura e oferecer um serviço muito mais eficiente e qualificado. Depois de um período de incubação no Centro de Empreendedorismo, Inovação e Tecnologia (Cietec), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), a LaserTools não só se consolidou nesse mercado como foi além: originou uma spin-off.

Tudo começou quando a empresa passou a atender ao setor médico. Foi então que a Scitech Medicai, fabricante e distribuidora dispositivos médicos invasivos, trouxe para a LaserTools o desafio de cortar stents coronários, um minúsculo cilindro de aço inoxidável introduzido no coração após o desentupimento de artérias. Como se trata de um procedimento muito mais minucioso e com uma filosofia de trabalho diferente, Morato decidiu montar uma unidade específica para stents. ``Era o ano de 2005 e voltei para o Cietec com outro plano de negócios. Assim surgiu a Innovatech Medicai e a primeira nacionalização de stent coronário conhecida``, conta o empresário.

A empresa é uma sociedade de Morato com a Scitech, que detém 50% das ações da spin-off. Todos os stents produzidos pela Innovatech são encaminhados para a empresa sócia, onde é feita a montagem final do dispositivo num cateter-balão, equipamento que viabiliza a colocação do stent na artéria do paciente. A Scitech também faz a comercialização do produto, que recebeu o nome de Cronus. Hoje, a Innovatech produz 600 stents por mês em uma sala de pouco mais de 50 metros quadrados do Cietec, onde trabalham seis funcionários. ``Poderíamos dobrar a produção só aumentando um turno de trabalho. Mercado tem, a questão é quanto se consegue vender``, afirma Morato,

Guerra comercial

O empresário refere-se à acirrada competição no segmento de stents coronários. Ele conta que a ideia inicial da Innovatech era oferecer o dispositivo nacional com um custo bem abaixo das multinacionais que atuam por aqui. Mas quatro anos depois -período em que a empresa desenvolveu e testou sua própria tecnologia - a realidade do mercado já era outra. ``O custo caiu no mundo inteiro e há empresas de todas as partes - China, índia - disputando uma fatia do nosso mercado. Muitas multinacionais se sentem incomodadas com produtos nacionais e fazem uma espécie de dumping, ou seja, entram nas concorrências perdendo dinheiro com o propósito de marcar posição. É uma guerra comercial``, resume Morato.

Para o empresário, na atual conjuntura seria praticamente impossível começar um empreendimento como a Innovatech. Mas ao contrário do que possa parecer, Morato não é um pessimista. Sua meta é conquistar 15% do mercado nacional. ``Temos um produto muito bom, qualificado pelos médicos e avalizado em congressos``, destaca. ``Mas tudo isso não resolve, o que precisamos fazer é ter escala e isso demanda tempo``, ressalta Morato. Vale destacar que a Innovatech começou a produzir somente há um ano. No início, a empresa fazia um tamanho único de stent. Hoje, a família abrange tamanhos que vão de 6 a 38 milímetros, atendendo às diferentes situações que um médico pode encontrar numa cirurgia.

No momento, a empresa corre para atender a um novo pedido do mercado: stents coronários recobertos com fármacos, que permitem a liberação controlada de drogas ao paciente. ``Há muito desenvolvimento para ser feito``, diz Morato. Durante os cinco anos de vida, a Innovatech investiu em torno de R$ 1,2 milhão, Metade é de recursos próprios e os demais são provenientes de programas da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp). Segundo Morato, a empresa ainda não é lucrativa, mas consegue pagar suas contas e não recebe mais subsídios. ``Estamos empatando``, resume.

O momento é de indefinição: transferir a produção para Goiânia e colocá-la junto à linha de montagem da Scitech, ou se instalar no parque de tecnologia em construção na cidade universitária da USP, uma extensão do Cietec. Mas Morato prefere falar de suas certezas, especialmente da gratificação que sentiu ao participar de uma cirurgia e ver seu produto sendo colocado no coração de um paciente. ``Independente do dinheiro que você ganha para fazer isso, é muito bom saber que a sua pesquisa resultou em algo palpável e que está resolvendo um problema de saúde de uma pessoa. É muito gratificante.``

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Innovatech Medical:

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