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Quatro Cinco Um

Versão brasileira (1 notícias)

Publicado em 02 de junho de 2026

Desde os anos 50, novos Beckett emergem aos poucos no Brasil em montagens de suas peças e traduções de sua prosa

Longe de se deixar apreender como uma “voz da espécie” atemporal, a obra beckettiana tem experimentado uma variadíssima recepção global, profundamente modulada por circunstâncias históricas. A recepção tão desafiadora quanto intrigante é estratégia da obra que a origina. Diferentes e surpreendentes novos Beckett emergem quando se encenam suas peças (ou sua prosa é lida) em contextos culturais periféricos, como o brasileiro, renovando os impasses humanos, estéticos e linguísticos que o autor de Godot propõe.

No Brasil, aliás, a história dessa apropriação não é recente, mas precoce. Dos anos 1950 até hoje, a lista das notáveis produções locais das peças de Beckett é extensa: das pioneiras, como a Esperando Godot da Escola de Artes Dramáticas, dirigida por Alfredo Mesquita em julho de 1955; ou a mesma peça em versão de Luiz Carlos Maciel, dirigindo Linneu Dias e Paulo José, em Porto Alegre; ou a Fim de jogo de Carlos Kroeber em Belo Horizonte; passando pela mítica Esperando Godot de Flávio Rangel, com Cacilda Becker e Walmor Chagas nos palcos, em 1969; ou a versão de elenco integralmente feminino de Antunes Filho, em 1977; até as rigorosas encenações de Rubens Rusche; as estimulantes e novas, como as de Gerald Thomas e Amir Haddad; e as mais ou menos experimentais de nomes contemporâneos, como os irmãos Guimarães, Gabriel Villela, Cesar Ribeiro, Isabel Cavalcanti e Isabel Teixeira.

A obra beckettiana parece explicar a si mesma, brotando de um núcleo de tópicos reconhecíveis

Atores excepcionais (o catálogo também é extenso) e diretores que promovem leituras e desleituras em profusão, ora criativas, ora oficialistas, compõem o quadro — vivo, sem dúvida. Mas há rastros, tão persistentes quanto dispersos, de uma presença para além dos palcos, na história editorial e no debate acadêmico.

Entre nós, o jovem Beckett vem, aos poucos, deixando de ser um relativo desconhecido: seus primeiros contos e romances de juventude em língua inglesa, em maior parte, ainda estão por ser incorporados ao debate local. O mesmo vale para grande parte de sua prosa tardia, das narrativas de encerramento e dos fragmentos “desabandonados”. É de se perguntar como a incorporação progressiva desse mundo redefinirá o alcance e a imagem de Beckett no Brasil ou que novas aproximações críticas à sua literatura virão implicar. Uma recente leva de estudos locais, pensada em paralelo à história editorial pregressa de Beckett no país, mediada pelas traduções, talvez ajude a equacionar a questão, possibilitando pensar a recepção brasileira em diálogo com as vertentes contemporâneas dos estudos beckettianos pelo mundo.

Autorreferências

Tomando como ponto de partida a crítica francesa de inspiração filosófica, Maurice Blanchot e Bruno Clément insistem no traço aliciante e autolegitimador da escrita beckettiana, capaz de antecipar — em seu próprio esforço criativo, isto é, em seu próprio texto — as estratégias hermenêuticas de seus leitores-críticos, devorando-as pelas frequentes, consistentes e persuasivas autorreferências, profundamente arraigadas em seus romances e peças. Beckett deveria ser reconhecido como o que efetivamente é: um écrivain critique . Tocada por esse sopro autorreflexivo e habitada pelas recorrências, pelos paralelos e pelas séries — de citações, personagens, procedimentos técnicos —, a obra beckettiana parece explicar a si mesma, obsessivamente brotando de um núcleo de tópicos reconhecíveis e reconhecidos.

Assim, é mais do que natural que todo leitor de Beckett goze de enorme vantagem ao entrar em contato com a totalidade do corpus da obra, seus desenvolvimentos e rupturas internas. Não porque esse movimento siga um padrão claro de progresso — seus escritos caminhando em direção a um ponto de extrema concentração, antecipável em qualquer parte do percurso —, mas sobretudo porque suas criações orbitam obsessivamente em torno de poucos motivos — fracasso, linguagem, imaginação, solipsismo — e há muito a aprender sobre a potência desse universo de “meros máximos mínimos”, justamente a partir das variações que eles assumem.

Dada a centralidade do autor no debate estético moderno e pós-moderno, causa estranheza a demora na chegada do arco completo da sua obra ao Brasil, um silêncio incômodo rompido muito ocasionalmente. Primeiro, pela tradução de Flávio Rangel para Esperando Godot (Abril, 1976), na coleção de clássicos que alcançou as bancas de jornais. A prosa, contudo, teve de esperar os anos 80 para encontrar seu caminho no país, apresentada pelas primeiras traduções da trilogia do pós-guerra, Molloy , Malone morre e O inominável . A nota dissonante, nesse atraso significativo que tem separado a publicação europeia de suas traduções locais, foi a versão de Companhia (em tradução de Elsa Martins para a Francisco Alves), cuja publicação, em 1982, vizinha portanto da edição original do texto, foi precedida de um longo prefácio situando o autor de maneira um tanto convencional.

Retrato parcial

No final dos anos 80, a versão brasileira do retrato de Beckett enquanto artista era ainda limitada e parcial. Dos anos relativos ao “sítio no quarto” — período do pós-guerra em que, recluso em Paris, produziu o núcleo mais importante de sua obra —, além de Malone morre (trad. Paulo Leminski, Brasiliense, 1986), Molloy (trad. Leo Schlafman, Nova Fronteira, 1988) e O inominável (trad. Waltensir Dutra, Nova Fronteira, 1989), havia apenas uma edição bilíngue de Primeiro amor (trad. Waltensir Dutra, Nova Fronteira, 1987). A tradução de Leminski para Malone morre , além de assinatura “forte”, tinha a peculiaridade de ser uma “bitradução”, concebida a partir do cotejo contínuo das versões francesa e inglesa do texto.

Mesmo que parte dos ensaios literários do jovem Beckett já estivesse disponível em edições locais — “Proust” foi lançado em 1986 e “Dante … Bruno. Vico … Joyce ” integrou uma coletânea de ensaios dedicados à obra do autor de Ulisses , editada em 1992 —, os romances e contos da primeira ficção e a maior parte da obra final até há pouco faltavam. Os leitores que então se interessassem por esses agudos extremos da criação beckettiana não tinham alternativa senão recorrer a traduções portuguesas, caminho arriscado, especialmente nas peças, já que as diferenças entre a língua falada em Portugal e no Brasil não são de se fazer vista grossa. Àquela altura, muitas traduções para o palco não ganhavam o livro, afastadas pelo mito de que edições de textos teatrais não são viáveis economicamente.

Ondas

A partir dos anos 1990, assistiu-se a uma segunda onda editorial, que acompanhou a multiplicação de trabalhos acadêmicos brasileiros voltados para importantes aspectos da atuação de Beckett como dramaturgo e prosador. Nela, se incluem O parto de Godot e outras encenações imaginárias: a rubrica como poética de cena , de Luiz Fernando Ramos (Hucitec, 1999) e o meu Samuel Beckett: o silêncio possível (Ateliê, 2001), voltado para a trilogia romanesca do pós-guerra, além de estudos relacionados ao “eu” elusivo de sua obra final, caso de Eu que não estou aí onde estou: o teatro final de Samuel Beckett , de Isabel Cavalcanti (7Letras, 2006).

Há ainda trabalhos sobre suas incursões por outros meios, como A poética televisual de Samuel Beckett , de Gabriela Borges (Annablume, 2009), o caráter metateatral de sua obra dramática, em Teatro inferno: Samuel Beckett (Terracota, 2012), e o lugar do duplo na obra beckettiana, em Samuel Beckett e seus duplos (Iluminuras, 2017), estes dois de Cláudia Maria de Vasconcellos. Rastros do mundo: experiência e repetição em Samuel Beckett (Edusp, 2024), de Luciano Gatti, é uma empreitada de fôlego, informada e abrangente, sobre múltiplos aspectos da produção beckettiana. Ocupando-se da segunda trilogia romanesca, Em busca de Companhia: o universo da prosa final de S. Beckett , de Lívia Bueloni Gonçalves (Humanitas/FAPESP, 2018) e Ele fala de si como de um outro: ensaio sobre a voz em S. Beckett , de Mario Sagayama (Annablume, 2018) trazem enfoques analíticos complementares e reveladores.

No final dos anos 80, o retrato que se tinha no país do dramaturgo era ainda limitado e parcial

Quanto às traduções, também elas sentiram o impacto dos estudos especializados e — não fosse Beckett ele mesmo um pretexto singular, por conta do processo da autotradução — constituíram um campo de estudos próprio, como evidencia o livro de Ana Helena Souza, A tradução como um outro original: Como é, de Samuel Beckett (7Letras, 2006). A mesma Ana Helena, responsável pela tradução de Como é (Iluminuras, 2000), cuidou de retraduzir e republicar os romances da trilogia, fora de catálogo há muito: Molloy , em 2007, O inominável , em 2009, e Malone morre , em 2014, os dois primeiros pela Globo e o último pela Biblioteca Azul.

Vieram novas edições de Fim de partida (2002), Esperando Godot (2005) e Dias felizes (2010), em traduções minhas para a Cosac Naify — as duas primeiras reeditadas pela Companhia das Letras, em 2017 e neste ano respectivamente. E, enfim, traduções de parte importante de sua obra tardia: O despovoador , curiosamente publicado em volume único junto de Mal visto mal dito , a narrativa central da chamada segunda trilogia, dos anos 1980, em tradução de Eloisa Araújo (WMF Martins Fontes, 2008); e Companhia e outros textos (Biblioteca Azul, 2012), reunindo Companhia , Pra frente o pior, os demais volumes da trilogia final, junto a outros faux départs em prosa, vertidos mais uma vez por Ana Helena Souza. Eloisa Araújo traduziu ainda as Novelas (Martins Fontes, 2006) e os Textos para nada (Cosac Naify, 2015), e Célia Euvaldo retraduziu Primeiro amor (edição bilíngue da Cosac, 2015). As peças breves finais ganharam duas coletâneas lançadas pela Cobogó: Vozes femininas — Não eu, Passos, Cadência (tradução de Fábio Ferreira, 2022) e PlayBeckett: uma pantomima e três dramatículos (tradução de Luana Gouveia, Rubens Rusche e Leyla Perrone-Moysés, 2022).

Da obra inicial, chegou primeiro “Os ossos de Eco”, conto vertido por Caetano Galindo para a Biblioteca Azul. Em seguida, a coletânea a que originalmente se destinava, o livro da estreia ficcional beckettiana, Mais pontas que pés (Biblioteca Azul, 2022), editado na tradução de Ana Helena Souza, bem como seus primeiros romances em inglês, Murphy (Cosac Naify, 2013; Companhia das Letras, 2022) e Watt (Companhia das Letras, 2022), traduções que assino. Da obra tardia, temos hoje a fundamental trilogia final, formada por Companhia , Pra frente o pior (versões de Ana Helena Souza, Biblioteca Azul, 2012) e Mal visto mal dito (vertido por Eloisa Araújo, WMF Martins Fontes, 2008).

E se ainda nos falta a vasta correspondência beckettiana, seminal, passamos a contar com o grosso de seus ensaios estéticos, com a edição da coletânea Disjecta: escritos diversos e um fragmento dramático (Biblioteca Azul, 2022), que também traduzi além da Poesia completa (tradução bilíngue de Marcos Siscar e Gabriela Vescovi, 2022), lançada pela Relicário. Tudo somado, diria Hamm, de Fim de partida , alguma coisa segue seu curso. Estamos progredindo.

Quem escreveu esse texto Fábio de Souza Andrade

Crítico e tradutor, vai lançar Sem nem: ensaios beckettianos , pela Editora 34.

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026 . Com o título “Versão brasileira”