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Vera Paiva: Como a PM deve atuar em toda a cidade de São Paulo?

Publicado em 13 janeiro 2012

Na última segunda-feira, 9 de janeiro, um PM agrediu dentro do DCE da USP um estudante. Para quem ainda não viu o vídeo, recomendo que o assistam (está aqui)

Creio que agora está claríssima a urgência de nosso posicionamento, como organismo máximo de gestão democrática e institucional do Instituto de Psicologia, sobre os fatos que se acumulam.

Como tod@s sabem, não sou a favor de uma polícia especial para o campus da USP. Sou a favor da integração da universidade na cidade e da nossa dedicação, como universidade pública, na resposta aos desafios ético-políticos, conceituais e práticos que uma política pública de segurança pública e democrática coloca. Desafios para a cidade e para a USP. Não acho que "nossa comunidade" ou nosso "território" deva ter o privilégio de uma polícia diferente do conjunto da população paulista.

Quero discutir não só COMO a PM atua no campus da USP, mas COMO atua e deveria atuar em toda a cidade.

A Reitoria repete o estilo do governo estadual que, no caso da intervenção desastrada da PM na chamada "cracolândia", além de tudo deixa de escutar suas instâncias democráticas e os inúmeros especialistas no assunto e desconsidera o que a boa pesquisa brasileira produziu.

Essa reitoria NÃO escuta seus especialistas e NÃO revê as leis da ditadura para implementar uma política de segurança na universidade que deveria desde sempre estar implicada nos direitos humanos. Não é por outro motivo que, "sintomaticamente", coloca na placa do monumento que deveria ser Monumento em Homenagem às Vítimas da Repressão Política promovida pela Ditadura Militar (1964-1985) na comunidade de professores, alunos e funcionários da Universidade de São Paulo", o nome " Revolução de 1964".

O vídeo sobre a agressão e discriminação aberta ao aluno, que é negro, deixa claríssimo que esse modo de agir é herdeiro do modo como a sociedade brasileira apagou sua memória da ditadura, "perdoou" torturadores e desrespeitadores de direitos humanos, que continuam especialmente impunes nas corporações armadas, matando os mais pobres, os homossexuais e os mais pretos. Mais raramente massacram a juízes brancos que investigam suas ações corruptas, como no caso recente em Niterói.

Reduzir, como o governo do Estado de São Paulo fez, o ato da PM a um "descontrole emocional" de uma pessoa, é má psicologia. Trata-se de "psicologizar" , sem contexto e sem história, concepção de psicologia bastante superada bem antes do apagar do século passado.

O que produz descontrole com essas características no Brasil- racistas, classistas e antidemocráticas — é uma cultura institucional policial de mais de 40 anos, que segue intocada como violência de Estado. Sugiro a leitura do livro Quando o Brasil se tornou um sorvedouro de pessoas, de B. Kucinski, para os que querem começar a entender as raízes históricas e como ainda produzimos cotidianamente em todas as partes do Brasil esse "descontrole emocional".

O livro trata pouco dos anos de escravidão que, como brancos, nós recusamos a reconhecer como praga que se soma na sinergia de violência de Estado. Para essa dimensão da violência que aparece no vídeo, recomendo a leitura da resenha de uma pesquisa, publicada na Revista da FAPESP, sobre o "cemitério dos pretos novos" no Valongo , centro velho do Rio, onde chegavam os escravos.

Ainda enfrentamos o debate se devemos rever e condenar esses períodos terríveis da história brasileira para condená-lo. A USP precisa enfrentar urgentemente esse debate. Enquanto isso, esse tipo de violência é o que resultará de um país "desmemoriado, violento e perverso": o último a abolir a escravidão, que fica mais rico e permanece desigual com um índice IDH vergonhoso, e o último a instalar a sua Comissão da Memória e da Verdade.