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Lumière

Venham a nós as indústrias

Publicado em 29 maio 2006

Por Priscilla Negrão

Novo presidente quer fazer do Inmetro o braço direito do setor industrial e um fomentador da inovação no País

O Instituto Nacional de Metrologia Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) é um dos órgãos mais respeitados do País, reconhecido pela sua idoneidade e qualidade técnica. Entretanto, os brasileiros conhecem muito pouco sobre o trabalho dessa instituição e os serviços que ela presta — muitos acreditam que se trata de um órgão de fiscalização e "criador de normas' O pior é que menos ainda conhecem as empresas, para as quais esse órgão público pode ser de grande utilidade É esse quadro que o novo presidente do Inmetro pretende mudar. "Vamos nos aproximar do consumidor e, principalmente, dos fabricantes", promete João Alziro Herz da Jornada, que assumiu este ano a presidência da entidade no lugar de Armando Mariante, que agora ocupa o cargo de diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Gaúcho, 56 anos, Jornada se formou físico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também fez mestrado em Física e doutorado em Ciências Fez o pós-doutorado no National Institute of Standards and Technology (NIST), nos Estados Unidos Foi professor da UFRGS, consultor da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), membro do Comitê Assessor de Física e Astronomia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Em 2000, recebeu da Presidência da República a Comenda da Ordem do Mérito Nacional na área de Ciências Físicas.

Jornada trabalha no Inmetro há cinco anos. De 2000 a 2004, ocupou o cargo de diretor de Metrologia Científica e Industrial Nomeado presidente do Instituto pelo ministro Celso Furlan, agora ele pretende empregar todo seu conhecimento acadêmico, científico e profissional na principal meta desta gestão: colocar o Inmetro a serviço da indústria.

Para tanto, Jornada pretende aumentar a inserção do Inmetro no setor produtivo e transformá-lo em uma instituição fomentadora da tecnologia e da inovação no País. "Queremos fazer pela indústria nacional o que o Embrapa fez pela agricultura", afirma. Essa tarefa não é nem um pouco fácil: a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) — órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento — levou 32 anos para criar uma nova agricultura, tão produtiva, eficiente e vigorosa quanto à dos países desenvolvidos.

Foi investindo em desenvolvimento técnico e científico que a agricultura brasileira conseguiu expandir sua capacidade de produção à taxa de 4% ao ano Atualmente, o agronegócio, que congrega desde a pequena propriedade de base familiar até as grandes empresas rurais e agroindustriais, responde por 33% do Produto Interno Bruto (PIB), contribui com 42 do valor das exportações e emprega 37 da população economicamente ativa.

Para o Inmetro promover igual processo na indústria, há um longo caminho pela frente que, apesar de difícil, é perfeitamente possível, acredita Jornada Na entrevista a seguir ele conta com exclusividade à Revista Lumière como planeja trilhar esse caminho, quais pedras espera encontrar e como pretende se livrar delas para construir um Inmetro mais eficiente e agregador.

Na sua visão, qua é o papel do Inmetro na economia nacional?
O lnmetro tem como função ajudar a indústria a crescer e se desenvolver, principalmente no que tange à criação de novas tecnologias. Isso envolve a criação de padrões, normas, inclui a fiscalização e a gestão da qualidade, entre outros aspectos. O problema é que muitas vezes as pessoas enxergam no lnmetro apenas o poder fiscalizador, sem ver que ele tem outras funções e serviços, como ajudar a melhorar a qualidade do produto nacional, alavancando assim as exportações, por exemplo.

O que fazer para mudar essa visão?
Primeiramente, estamos colocando ordem na casa para depois implantar ações que vão aumentar a inserção do Inmetro no setor produtivo e transformá-lo em uma instituição alavancadora do setor industrial. Queremos que o Inmetro seja visto como a "Embrapa da indústria", que vai assessorar nossas indústrias na melhora de sua produtividade e da qualidade de seus produtos e também na criação de novas tecnologias. Podemos ajudar e muito a indústria com nosso conhecimento tecnológico, que hoje muitas vezes fica restrito às nossas atividades. Portanto, precisamos ensinar a indústria a tirar proveito do Inmetro.

Como está a gestão da qualidade no País em relação aos países desenvolvidos?
A gestão da qualidade — conjunto de atributos que pode ser percebido como valor — hoje é muito bem resolvida no Brasil. Sabemos gerir a qualidade relativamente bem, e nosso País é reconhecido no exterior por isso. Nosso problema, na verdade, não está na gestão, e sim na criação da qualidade, no desenvolvimento de ciência e tecnologia avançada para melhorar a competitividade.

Isso quer dizer que sabemos produzir com qualidade, mas ainda não criamos o "padrão Brasil de qualidade"?
Veja, a indústria brasileira está entrando na terceira fase de sua industrialização. A primeira foi nos anos de 1950, com a indústria de base e a substituição das importações. Essa fase se esgotou nos anos de 1980, com a abertura rápida do mercado. Essa mudança, ou seja, a queda do protecionismo exacerbado, obrigou o Brasil a adquirir padrões de qualidade internacionais, o que só foi possível porque tínhamos uma base de gestão de qualidade, criada graças a alguns programas governamentais, como o nuclear, a fundação da Petrobrás e da Embraer. A indústria não estava preparada para a abertura, mas o Inmetro estava. Assim, essa fase foi marcada pela conscientização do empresariado, que começou a incluir a gestão de qualidade nas empresas com a ajuda do Inmetro.

Estamos agora na terceira fase?
Sim, na fase do diferencial competitivo, ou seja, para ganhar competitividade hoje não basta ter qualidade, é preciso agregar inovação. Isso exige ciência e tecnologia, investimento e infra-estrutura. É esse processo que o lnmetro pretende focar e apoiar nesta gestão.

Como então fomentar a tecnologia genuinamente nacional?
São forças econômicas e políticas que determinam a inovação, e acho que essas forças estão mudando. O ator principal da inovação tem de ser o empresário, não podemos esperar que o governo induza a inovação. O papel dele é oferecer infra-estrutura e um ambiente favorável ao desenvolvimento de tecnologia e de competitividade, estimulando também a exportação, que por si só é uma alavanca para a inovação. O empresário tem de perceber que hoje só a qualidade não vende o produto. Isso já está começando a ocorrer na agricultura, por exemplo. O Brasil é responsável por 1,8% das publicações científicas e por apenas 0,1% das patentes no mundo. Esses números precisam aumentar, e para isso o empresário deve enxergar essa necessidade e essa oportunidade.

A pirataria é inimiga da inovação?
Ela atrapalha e muito. A Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial, da qual o Inmetro participa, tem buscado formas de combater esse problema nefasto. Sabemos que a qualidade ajuda a acabar com a pirataria, pois formaliza o processo. Certificação compulsória, instauração de padrões, fiscalização e conscientização do consumidor são algumas armas nessa guerra contra os piratas.

Além da indústria, o Inmetro também planeja uma ação voltada aos municípios, certo?
Sim. Queremos elevar a qualidade dos tens adquiridos pelas prefeituras. A lei de licitações públicas (n° 8.1 66) não estabelece nenhum padrão de qualidade e por ela o preço mais baixo sempre vence, desde que sejam cumpridas todas as especificações jurídicas, administrativas e técnicas do edital. Assim, quanto mais correta e adequada estiver a especificação, que exige conhecimento técnico para se criar o projeto, melhor será o resultado da licitação: o menor preço vai atender ao patamar mínimo de qualidade que recomendamos. Para isso, é preciso ter conhecimento científico — e é aqui que o lnmetro entra. E o melhor, não vai ser o prefeito que vai pedir nossa ajuda, e sim o lnmetro que vai procurar as prefeituras. Queremos que o engenheiro do município tenha todas as informações e a assessoria necessárias para especificar de forma que seja cumprida a norma e se tenha a melhor qualidade possível, seja na compra de uma carteira escolar, seja na compra de uma luminária pública ou um semáforo.

Na prática, a princípio quais ações serão tomadas?
Vamos investir na nossa equipe, na inserção internacional, na divulgação do trabalho e dos serviços e mostrar que estamos abertos para ajudar. Também estamos equipando o Inmetro com itens que tenham grande serventia para a indústria. É o caso do goniofotômetro, que vai possibilitar não só a rastreabilidade, mas também poderá ajudar na inovação. Com esse e o equipamentos adquiridos recentemente, queremos, por exemplo, aumentar a produção de lâmpadas no País, que hoje é quase nula, e melhorar a qualidade das nossas luminárias, para incrementar a exportação desses itens. Pretendemos também nos aproximar de entidades da sociedade organizada, para analisar como podemos ajudar cada segmento da indústria especificamente, oferecendo assessoria técnica, por exemplo. Vamos promover alguns painéis setoriais — o de iluminação acontece em junho — voltados ao aumento da eficiência, da qualidade e da competitividade.

Como as indústrias podem contar com todos os serviços e o apoio do Inmetro?
Alguns serviços são gratuitos e outros são cobrados, mas são quantias módicas. Para saber como o Inmetro pode ajudar sua empresa, entre em contato pelo telefone (21) 2563-2800 ou e-mail presi@inmetro.gov.br ou acesse o site www.inmetro.gov.br. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e as associações comerciais e industriais também são um canal de acesso ao lnmetro.