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Viva Saúde

Venenos do bem

Publicado em 01 agosto 2005

Por Soraia Gama

Há uma boa razão para os cientistas desejarem ficar perto da viúva neqra do monstro de Gila, da taturana e da surucucu Segundo eles, esses animais peçonhentos escondem a fórmula de novos remédios para diabetes, trombose, esclerose múltipla lúpus e até disfunção erétil

O famoso médico e alquimista suíço Paracelso (1493-1541), cujas teorias constituíram as bases da química moderna, causou polêmica ao afirmar que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose da prescrição. Mas os avanços da ciência provaram que ele estava certo.
A maioria das vacinas, por exemplo, é desenvolvida com variações mortas ou enfraquecidas do próprio vírus ou bactéria que elas pretendem prevenir. Nessas condições, os micróbios provocam a resposta imunológica do organismo, porém, são incapazes de desencadear qualquer problema de saúde.  E o que dizer da toxina botulínica? Causadora do botulismo (doença rara que paralisa os músculos e pode matar), quando aplica em doses mínimas, torna-se uma substância segura e eficaz em vários tratamentos estéticos e terapêuticos.
Partindo desse mesmo princípio, pesquisadores de fármacos têm investido cada vez mais nos estudos com animais peçonhentos, Em 1949, o médico carioca Maurício Rocha e Silva observou que enzimas do veneno da jararaca — uma das serpentes mais comuns no Brasil — eram capazes de desorganizar o sistema circulatório das presas que caíam em seu bote. A análise dessa reação possibilitou a descoberta da bradicinina, uma substância ativa patenteada por uma multinacional e largamente utilizada até hoje em medicamentos para o controle da hipertensão.
Ainda nas décadas de 40 e 50, relatos do consagrado médico Vital Brazil (1865-1950), que dedicou a vida à pesquisa de soros contra venenos de vá rias espécies de cobras e foi um dos fundadores do Instituto Butantan em São Paulo (centro de pesquisa de biofármacos), dão conta de que o veneno da cascavel já era utilizado, em quantidades bem diluídas, para amenizar as dores de pacientes com câncer. "Naquela época, sabia-se que a vítima não sentia dor no local da picada, apenas uma dormência", conta Yara Cury, pesquisadora científica do Laboratório de Fisiopatologia do instituto Butantan. Mas este efeito só começou a ser estudado em profundidade a partir dos anos 90 e, hoje, após a identificação, purificação (separação) e síntese laboratorial das moléculas contidas na peçonha desse réptil, um novo remédio da categoria dos opióides (como a morfina) está sendo testado.
E os avanços não param por aí. Atualmente, várias pesquisas com outras espécies venenosas prometem resultar em mais novidades nas prateleiras das farmácias — de fórmula anticárie até remédio para tratar a disfunção erétil.
Um monstro contra a diabetes
Desde os anos 80, a comunidade científica está de olho no monstro de Gila, o maior lagarto venenoso, que vive nos Estados Unidos. Na secreção salivar desse animal, os pesquisadores encontraram uma substância, chamada exedina 4, que tem ação semelhante à do hormônio GLP-1 do sistema digestivo humano, ou seja, tem a função de restaurar a produção de insulina quando o paciente se alimenta.
A partir dessa descoberta, duas empresas — a Amylin Pharmaceuticals e a Eli Lilly — desenvolveram em 1996 um composto sintético, a exenatida, que promete ajudar no controle do diabetes tipo 2 (versão mais comum da doença, desencadeada por maus hábitos alimentares e obesidade). Com o nome Byetta, esse princípio ativo é comercializado nos Estados Unidos desde junho deste ano e deve estar disponível no Brasil em 2006. "Estudos feitos com 1.400 pessoas e apresentados há dois meses no Congresso da Associação Americana de Diabetes, em San Diego, mostraram que a nova droga reduz o nível médio de açúcar no sangue e não aumenta o peso dos pacientes, fato comum em 90% dos diabéticos", explica a médica Adriana Forti, diretora do Centro de Diabetes e Hipertensão da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Ela relata que voluntários chegaram a perder peso durante o tratamento.
Outra vantagem da droga é que o uso constante não provoca hipoglicemia, além de melhorar os resultados da glicohemoglobina, exame periódico que mede as variações de glicemia nos últimos 40/50 dias. O único efeito adverso observado foram as náuseas. "Mas são sintomas transitórios e ninguém quis interromper a medicação por causa deles", garante a especialista.
Para completar, uma reação importante foi observada nos testes e pode significar uma esperança futura a quem sofre com o diabetes tipo 1, caracterizado pelo mau funcionamento do pâncreas, que passa a não produzir mais insulina. Isso porque a exenatida mostrou ser capaz de regenerar as células beta-pancreáticas (o tecido desse órgão responsável pela fabricação da substância). Por enquanto, isso só foi verificado nas análises feitas nos organismos dos animais, mas os especialistas acham que pode ocorrer algo semelhante com os humanos.
Impotência na teia
A viúva-negra, a fêmea mais temida entre os aracnídeos, bastante conhecida por sua picada muitas vezes letal e por devorar o macho sem piedade após o acasalamento, deverá dar muito prazer aos homens no futuro.
Graças a estudos desenvolvidos por pesquisadores da Universidade de La Frontera, no Chile, e da Univesidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Brasil, observou-se que a peçonha da viúva-negra chilena, espécie que habita as Cordilheiras dos Andes, oferece as pistas necessárias para a criação de um novo remédio contra a disfunção erétil.
Afinal, a substância venenosa dessa aranha, além de provocar sudorese em excesso, arritmia cardíaca, retenção de urina, contrações musculares e dores generalizadas, nas vítimas do sexo masculino ela ainda desencadeia uma ereção involuntária e prolongada — fenômeno conhecido como priapismo pelos médicos. Após o tratamento, todos os sintomas melhoram, mas o pênis continua rígido por até quatro dias", conta Antonio de Miranda, médico responsável pela etapa brasileira de pesquisas.
Foi esse dado, aliás, que incentivou o início dos estudos com esse aracnídeo em 1996, e de quebra favoreceu a descoberta de outras propriedades contidas no veneno. "Já sabemos que há moléculas que diminuem a mobilidade dos espermatozóides, um possível caminho para o desenvolvimento de um anticoncepcional masculino ou espermicida. "Fizemos ensaios biológicos com uma pomada e funcionou", comemora Miranda, Também foram encontradas substâncias capazes de conter a cárie, e os pesquisadores já apostam na produção de um anti-séptico bucal.
A fase de testes com animais foi concluída e não foram detectadas contra-indicações. Já a etapa clínica, que acontece com seres humanos, está prevista para iniciar em 2006.  Ainda não há nenhuma certeza da comercialização desses remédios, mas Antonio de Miranda acredita que possamos ter ótimas notícias em aproximadamente cinco anos.
Doses de esperança
A equipe do Instituto Butantan também tem buscado nos venenos a solução a fim de conter males e doenças de difícil diagnóstico ou tratamento. Para isso, um dos alvos desses pesquisadores é a lagarta Lonomia oblíqua, também conhecida como taturana, e responsável por uma série de envenenamentos na região sul do Brasil ocorridos há mais de dez anos. A pesquisadora científica Ana Mansa Chudzinski-Tavassi do Laboratório de Bioquímica e Biofísica conta que, na época, durante o processo de desenvolvimento de um soro para controlar as fortes hemorragias causadas por este animal, foi encontrado um princípio ativo batizado de lopap, uma molécula totalmente nova e capaz de ativar o sistema de coagulação quando usada na dose certa. "Ainda estamos na fase pré-clínica, iniciando os testes com animais. Mas se tudo der certo, um dia essa substância poderá ser usada contra a trombose (o entupimento de vasos sangüíneos por coágulos)", explica Ana Mansa, coordenadora dos estudos que contam com o financiamento da Fundação de Amparo a Pesquisa em São Paulo (Fapesp) e do Consórcio de Indústrias Farmacêuticas (Coinfar), formado pelas indústrias Biolab Samus, Biosintética e União Química. A lopap não é a única proteína animal que tem efeito anticoagulante, mas a vantagem é que sua estrutura permite que seja produzida em grande escala: por meio da inserção de parte do gene responsável pela proteína em bactérias, leveduras e outros sistemas de expressão.
Outro animal que tem chamado a atenção no Butantan é a cobra surucucu. Até o ano 2000, não havia soro antiofídico contra o seu veneno, A partir de sua descoberta, porém, Osvaldo Augusto Brazil Esteves Sant'Anna, diretor do Laboratório de Microbiologia do Instituto, e Denise Tambourgi, diretora do Laboratório de Imunoquímica, vêm desenvolvendo o estudo de uma fração imunossupressora desse veneno, ou seja, que tem a capacidade de diminuir a resposta imunológica do organismo. "Como ela não induz anticorpos e não é tóxica, futuramente essa substância poderá ser usada em transplantes (o que evitaria a rejeição dos órgãos), doenças auto-imunes (como artrite, lúpus e esclerose múltipla), bem como em processos de reação alérgica e infecções", explica o médico.
Ainda há um longo caminho antes de as pessoas começarem a usufruir desses e de outros benefícios. A maioria dos novos remédios deve demorar até dez anos para ser comercializada — tempo médio para a conclusão de todo processo necessário para o desenvolvimento das fórmulas, aplicação dos testes de eficácia e aprovação das entidades responsáveis, como FDA, órgão que fiscaliza a venda de remédios nos EUA, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas as possibilidades de descobertas que estão se abrindo, mesmo depois de tantos avanços da ciência, faz o bisneto de Vital Brazil, Osvaldo Augusto Sant'Anna, chamar a atenção para um detalhe que costuma passar despercebido pelos microscópios e tubos de ensaio: "muitas vezes não somos nós que observamos a natureza, é ela quem nos observa".