Notícia

Gazeta Mercantil

Veneno de taturana pode ser base de medicamento

Publicado em 28 junho 2001

Por Adriana Fernandes Fartas - de São Paulo
Pesquisadores paulistanos isolaram a proteína do veneno da taturana que foi responsável pela morte de oito pessoas no sul do Brasil e descobriram como ela age no sangue humano. Esse é o primeiro passo para desenvolver um medicamento anticoagulante para evitar a trombose (fluxo de sangue obstruído por coágulos). "Falta definir qual a dose certa para deter a formação de coágulos, sem provocar hemorragias internas", diz Ana Marisa Chudzinski Tavassi, coordenadora do projeto no Instituto Butantan. A pesquisa está na fase de teste em animais. Em 10 anos, mais de mil pessoas tiveram contato com a taturana Lonomia obliqua no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina e sofreram com sangramentos por feridas, cicatrizes recentes ou pela gengiva. As vítimas sentiram também náusea e dor de cabeça. As mortes foram por hemorragia cerebral ou insuficiência renal. Hoje, há um soro contra o veneno, que reduziu o risco dos acidentes com a lagarta. A partir das descobertas recentes, porém, o Instituto produziu uma nova versão do medicamento, que centraliza a ação na principal substância anticoagulante presente no veneno. Os pesquisadores do Butantan descobriram que o veneno retira o fibriogênio, substrato importante no processo de coagulação, da circulação sanguínea. A proteína responsável por esse processo foi isolada e balizada de Lopap (Lonomia obliqua Prothrombin Activator Protease). Já está desenvolvido também o método de produzir a Lopap por meio de bactérias geneticamente modificadas — o que é fundamental para se obter a droga em grande quantidade. Ana Marisa está agora em Buenos Aires para estudar a ação do veneno nas células do tecido que reveste os vasos sanguíneos. Na próxima semana, ela irá para a Europa, onde irá pesquisar outras proteínas do veneno e estudar como a Lopap interage com outras substâncias do processo de cicatrização. O trabalho envolve também pesquisadores da Unifesp e estudantes de pós-graduação da USP. Butantan desenvolve remédio contra trombose Adriana Fernanda Farias - de São Paulo O veneno da taturana Lonomia obliqua, que causa hemorragia nas pessoas que têm contato com a lagarta, pode tornar-se um remédio para trombose. Pesquisadores do Butantan, de São Paulo, isolaram a proteína que provoca o envenenamento e agora estudam a dosagem exata para evitar a formação de trombo sem causar uma hemorragia interna. Em 10 anos, mais de mil acidentes hemorrágicos por contato com a taturana aconteceram nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Oito mortes foram registradas. Nesses casos, as vítimas tiveram hemorragia cerebral ou insuficiência renal. Quando as cerdas entram em contato com o corpo o veneno é inoculado e pode causar hemorragias severas. A vítima fica com dor de cabeça e náuseas e, dependendo do caso, podem sangrar por feridas, cicatrizes recentes ou pela gengiva. Um soro feito do extrato das cerdas já combate o problema com sucesso. Estudando o sangue de pacientes, pesquisadores do Butantan descobriram como o veneno age. Ele estimula a formação de pequenos coágulos tirando o fibriogênio, substrato importante no processo de coagulação, da circulação sanguínea. O sangue passa a não coagular. Injetado em pequenas e controladas doses, o veneno reduz a capacidade de coagulação, o que já foi comprovado em animais. Em grandes doses causaria hemorragia. A meta é chegar a um remédio que possa tratar a trombose. A doença caracteriza-se pela formação de um coágulo na circulação sanguínea, que pode migrar entupindo veias do coração. A partir daí os pesquisadores isolaram a proteína do veneno que é responsável pelo processo, batizando-a de Lopap (Lonomia obliqua Prothrombin Activator Protease). Já definiram também sua estrutura para produzi-la em bactérias. "Não sabemos ainda se a forma recombinante terá o mesmo efeito da original", alerta a cientista Ana Mansa Chudzinski Tavassi, coordenadora do projeto. O veneno está sendo testado em ratos. Em Buenos Aires, a pesquisadora estudou a ação do veneno mais a fundo, nas células do tecido que reveste os vasos sangüíneos. Com isso pode chegar a uma proteína liberada pelas células do corpo como outra pista para alcançar uma droga anti-trombose de ação mais direta. Na França, para onde segue na segunda-feira, Ana pesquisará quanto da Lopap é necessário para interagir com as proteínas envolvidas na coagulação. Depois alguns pesquisadores seguem para a Suíça, onde irão separar outras proteínas e peptídeos do veneno da lagarta e conhecer sua ação. Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a pesquisa envolve pesquisadores da Universidade Federal Paulista (Unifesp) e estudantes de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP). Paralelamente, o Butantan desenvolveu um soro feito a partir da Lopap, que poderá ser mais potente do que o já existente. "Seria um soro mais limpo", diz a cientista. Está em testes em animais. TOXINA ANIMAL ORIGINA DROGAS Toxinas animais são o ponto de partida para o estudo de novas drogas no Butantan. No início do ano, o Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), com sede no instituto, registrou sua primeira patente: um protótipo que servirá de base para a produção de um anti-hipertensivo, o Evasin. Pesquisadores chegaram a ele a partir do veneno de jararaca. Segundo o cientista Antonio Martins de Camargo, diretor do CAT, o enfoque nas toxinas de animais acontece por uma razão simples. São substâncias aperfeiçoadas durante séculos pela própria natureza, por seleção natural. Elas atraem o interesse da indústria farmacêutica, pois vão direto ao alvo no organismo humano, e é do que as indústrias precisam para encontrarem a droga certa. Camargo cita o exemplo do Captopril, remédio que também deriva da toxina da jararaca e é o mais usado contra a hipertensão. Quando a cobra dá o bote, seu veneno imobiliza a presa, fazendo com que a pressão caia. O Captopril traz ao laboratório Squibb fatura-mento anual de US$ 5 bilhões. Outras frentes de estudo desenvolvidas pelo CAT são remédios para o tratamento de metástase, a partir do veneno da serpente brasileira, e toxinas possivelmente úteis no tratamento de processos inflamatórios, produzidas por aranhas. O próprio remédio antitrombose, elaborado com veneno de taturana, deve ser patenteado pelo Centro. O CAT une cientistas do Butantan, da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal Paulista (Unifesp). Firmou parceria com três laboratórios brasileiros — Biosintética, Biolab/Sanus e União Química. Boa parte do financiamento vem da Fapesp, que injeta R$ 3 milhões anuais.