Uma nova aplicação do veneno da jararaca desponta do laboratório. Dois pesquisadores do Instituto Butantã testam a substância para tratar a pré-eclâmpsia, um tipo de hipertensão que acomete uma em cada dez gestações no Brasil.
A pré-eclâmpsia atinge especialmente mulheres na primeira gravidez. Também há certa predisposição quando elas apresentam doenças como hipertensão crônica, diabete e problemas renais, entre outras.
Além da pressão alta, a pré-eclâmpsia se caracteriza pela retenção de líquidos e a eliminação de proteínas na urina. Se não for tratada, ela pode evoluir para convulsões e coma, a eclâmpsia. Apesar de evitável, essa condição responde por até 25% das mortes maternas no Brasil.
O estudo ainda está em fase inicial, mas os resultados preliminares são tão animadores que o instituto já entrou com pedidos de patente nacional e internacional, nos Estados Unidos e na Europa. Os detalhes do estudo serão publicados só depois da obtenção das patentes.
Os farmacêuticos Juliano Guerreiro e Claudiana Lameu, do Centro de Toxicologia Aplicada do Butantã, sintetizaram um dos peptídeos presentes no veneno para tratar ratos com pré-eclâmpsia.
A síntese estimula indiretamente enzimas da camada mais interna dos vasos sangüineos a produzirem óxido nítrico, que atua nas células. Ele promove uma queda na concentração de cálcio intracelular, o que faz o músculo liso - então contraído, na hipertensão - a relaxar.
Guerreiro espera a aprovação de um novo financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para continuar testes toxicológicos com animais.
Saiba Mais
A aplicação de um composto achado no veneno da jararaca para tratar a pré-eclâmpsia é parte de uma série de pesquisas baseada na mesma origem.
Desde a década de 1960, quando o médico Sérgio Henrique Ferreira, da USP em Ribeirão Preto, descobriu um grupo de moléculas no veneno que induz a hipotensão (o inverso da hipertensão), diversos compostos têm sido analisados pelos cientistas.
O Instituto Butantã estuda pelo menos seis aplicações para as moléculas. Quatro delas são conduzidas em parceria com a Jararaca Bio (JBio), empresa brasileira-americana sediada nos Estados Unidos que busca justamente desenvolver ensaios clínicos baseados no veneno.
As parcerias entre o Butantã e Jararaca Bio envolvem o tratamento de hipertensão pulmonar, disfunção erétil, citrulinemia e Alzheimer.