Notícia

Folha de S. Paulo - Vale (São José dos Campos)

Veneno de cobra é testado contra a doença

Publicado em 11 outubro 2008

Cientistas do Laboratório de Genética do Instituto Butantã estão testando os efeitos da jararagina, uma toxina presente no veneno da jararaca (Bothrops jararaca) para tratar o melanoma, a forma mais agressiva de câncer de pele. De acordo com a coordenadora dos estudos, Itamar Romano Garcia Ruiz, os resultados obtidos até agora são promissores.

Segundo ela, a literatura científica internacional indica que toxinas presentes em diversos organismos são eficientes para diminuir a proliferação de células tumorais in vivo e in vitro. Isso levou o grupo, que trabalha com a genética do câncer desde 1996, a investigar os efeitos da toxina da jararaca sobre tecidos cancerosos. Estudamos culturas de células de melanoma tratadas com jararagina, uma das toxinas que compõem o veneno da jararaca. Tivemos uma série de resultados, incluindo uma significativa inibição da proliferação do tumor, disse Itamar à Agência Fapesp.

A pesquisadora afirma que o grupo está testando os efeitos da toxina na morfologia, adesão, migração e invasão celular. Em todos os casos, segundo ela, os resultados são promissores. O tratamento mostrou uma importante redução das metástases. No entanto, ainda falta um longo caminho para que essas pesquisas resultem efetivamente em uma alternativa para o tratamento da doença, afirmou.

Responsabilidades

O trabalho é feito em parceria com a Divisão de Ciências Fisiológicas e Químicas, que extrai a jararagina do veneno das serpentes do Instituto Butantã. O veneno das serpentes é uma sopa de vários tipos de substâncias que produz um efeito anestésico e degrada os tecidos. A jararagina é uma proteína que faz parte dessa sopa, explicou Itamar.

O veneno dos animais, em especial as cobras e os anfíbios, serve como proteção ou arma natural, instalada durante a evolução. Cada um tem seu mecanismo. No caso das cobras o veneno é importante, já que elas não têm braços para agarrar as presas. As substâncias presentes ali anestesiam e paralisam a presa. Procuramos aproveitar a riqueza desse composto de substâncias, disse a pesquisadora.

Um metal posicionado em determinado local de sua estrutura dá à jararagina a capacidade de degradar outras proteínas.

O que possibilita o uso contra o câncer é que essa proteína tem a capacidade de reconhecer uma parte da membrana da célula tumoral, ligando-se a ela e impedindo sua evasão, bloqueando a metástase. A literatura científica mostrava que o nível de metástase diminuía com o uso do veneno. Nós começamos a usar apenas esse componente do veneno para aumentar a eficiência dessa propriedade, explica Itamar.

Além de estudar as células tumorais do melanoma, o grupo realiza uma série de pesquisas sobre a estrutura do DNA e a expressão gênica desses tumores