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Veneno de cascavel gera o mais potente analgésico Tamanho do Texto

Publicado em 12 outubro 2006

O Instituto Butantan, órgão vinculado à Secretaria de Saúde de São Paulo, desenvolveu uma nova substância a partir do veneno de cobra cascavel, com um poder analgésico 600 vezes maior que o da morfina. A vantagem da nova droga é que ela não causa dependência física como a morfina, já que age em receptores diferentes, e será mais eficaz que os analgésicos hoje existentes para dores crônicas como as do câncer.
A idéia nascida com o fundador do instituto e pioneiro no estudo de serpentes no Brasil, Vital Brazil, somente agora pôde ser colocada em prática, quando se conseguiu isolar as moléculas do veneno responsável pela analgesia. O próximo passo é a realização de testes clínicos, com apoio da Fapesp e do Consórcio Farmacêutico (Coinfar).
'A descoberta desta nova substância, extremamente potente e sem poder de dependência, pode modificar, de maneira única a utilização de analgésicos em pacientes', afirma o diretor do instituto Butantan, Otávio Mercadante.
A proteína do veneno da cascavel, a Enpak, responsável pelo formigamento e adormecimento do local da picada, só foi caracterizada, isolada e sintetizada 70 anos depois de ter sido usada empiricamente por Vital Brazil para aliviar as dores de pacientes com câncer.
Segundo a pesquisadora Yara Cury, do Laboratório de Fisiopatologia do Butantan, que coordena os estudos sobre a nova substância, o primeiro efeito da picada de uma cascavel é uma sensação de formigamento, seguida de adormecimento local. 'Então a pergunta óbvia é: seria efeito de um componente analgésico do veneno?', questiona a pesquisadora. 'Procuramos registros e documentos sobre o assunto em arquivos e gavetas do instituto e descobrimos que Vital Brazil diluía o veneno e o enviava para o exterior', contou Cury. Os médicos conhecidos de Vital Brazil utilizavam o remédio em pacientes com câncer e depois enviavam relatos que indicavam que o veneno (soluto) era muito eficiente no alívio da dor. Não havia menção à reações adversas.
Os documentos sobre o assunto remontam à década de 30 quando não havia estudos experimentais como os de hoje, daí a falta de informações mais detalhadas sobre o tratamento. 'O que se sabia, conta Yara, é que o veneno da nossa cascavel, diferentemente de outras espécies de cascaveis, como as norte-americanas, é neurotóxico, mais parecido com o das najas indianas. Depois do soluto crotálico, desenvolvido pelo instituto, o Butantan passou a produzir o que eles chamam de 'anaveneno', tratado com formol, que era usado para aliviar dores reumáticas e nevralgias. Os produtos foram descontinuados na medida em que as normas de fabricação de medicamentos se tornaram mais rígidas para preservar a segurança dos tratamentos.
A partir daí a equipe da dra. Cury começou as pesquisas em 1991 e conseguiu caracterização farmacológica da substância analgésica contida no veneno da cascavel. A grande surpresa é que ela revelou, em uma única dose, um poder de analgesia 600 vezes maior que o da morfina, resultado que se prolonga por até cinco dias, sem efeitos colaterais. Agora o medicamento entra em testes pré-clínicos, que vão determinar sua introdução no mercado.

Golpe na dor
Proteína Enpak (endogenous pain killer, ou exterminadora endógena da dor)
Origem
Veneno crotálico (cascavel), responsável pela sensação de formigamento e adormecimento do local da picada
Descoberta
A Enpak foi caracterizada, isolada e sintetizada há 70 anos pelo cientista brasileiro Vital Brasil, fundador do Butantan
Utilização
O cientista brasileiro enviou o veneno diluído para o exterior, onde médicos o utilizaram no tratamento de câncer
Redescoberta
Em 1991, a cientista brasileira Yeda Cury conseguiu fazer a caracterização farmacológica da substância analgésica
Poder
Uma única dose tem poder analgésico 600 vezes maior que o da morfina e seu efeito se prolonga por até cinco dias
Pesquisa
Desde então, se obteve o isolamento, a identificação e a síntese da substância ativa, para os ensaios pré-clínicos
O que falta
A substância precisa ser testada em seres humanos antes de chegar ao mercado, em um prazo mínimo de seis anos
Indicações
A Enpak pode aliviar dores inflamatórias, neuropáticas e de câncer. Ao contrário da morfina, ela não caus dependência