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Diário do Comércio (SP)

Vem aí o vinho paulista de qualidade "gaúcha"

Publicado em 14 agosto 2007

Técnicos e agrônomos do Projeto SP Vinho querem obter vinho nobre, alterando as espécies de uvas cultivadas e o manejo, em quatro municípios que atualmente desenvolvem produtos populares.

Foi dada a largada para o Estado de São Paulo se tornar um produtor de uva e vinho de melhor qualidade. Técnicos e pesquisadores afirmam que a vitivinicultura é viável na região, dando base para o projeto de revitalização da cadeia vinícola paulista (SP Vinho) encabeçado por quatro municípios — São Roque, Jundiaí, Jarinu e São Miguel Arcanjo. "São Paulo se coloca como um novo competidor na atividade vitivinícola", afirma o diretor de Turismo e Desenvolvimento Econômico de São Roque, e coordenador do projeto SP Vinho, Vorneis de Lucia.

Como o gaúcho — As regiões escolhidas terão experimentos com 12 variedades de uva para vinho — sete para vinho fino, duas para vinho de mesa e três híbridas. O objetivo é produzir vinhos de qualidade igual aos da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, e de Petrolina, em Pernambuco.

O desenvolvimento do projeto é do Instituto de Economia Agrícola (IEA) em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) , o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisadores e técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade Uva e Vinhos, também integram o projeto, que foi aprovado no Programa de Políticas Públicas da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo os responsáveis, os quatro municípios paulistas onde estará a base da inovação têm 1.356 produtores de uva e 50 vinícolas com potencial para produzir vinho de boa qualidade. Na primeira fase foram feitos estudos de campo, análise de solo e de clima e estudos socioeconômicos.

Para o pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Maurilo Terra, melhorar a qualidade em São Paulo é viável. "Mas é necessário ir com cautela. Os produtores terão de fazer altos investimentos, pois o custo de produção é bem elevado", afirma. Ele acredita que para os pequenos produtores o ideal será a opção pelos vinhos de mesa, pois na produção de vinho fino a demanda de capital é maior.

Segundo Vorneis de Lucia, a produção de uva de mesa em São Paulo tem registrado queda por causa da especulação imobiliária (que expulsa as culturas), da dificuldade da fixação do homem no campo e da falta de investimentos em pesquisas para aumento da produtividade e competitividade. Em 1985, foram produzidas mais de 12 mil toneladas de uva para a indústria e, em 2005, foram menos de duas mil toneladas. Mas ele acredita que a situação pode se alterar com o aumento do consumo — em dez anos é possível aumentar o consumo anual de vinho per capita no País dos atuais 1,9 litro, para 9 litros. "O hábito brasileiro de beber vinho fino está crescendo", diz. Atualmente, segundo Maurilo Terra, do IAC, o Brasil tem estoques altos — três anos de vinho fino e quatro meses de vinho de mesa. Conseqüência do dólar desvalorizado em relação ao real e do contrabando. Mas o estado é o maior consumidor brasileiro. São consumidos em São Paulo, anualmente, 40 milhões de litros de vinho, dos quais 80% de mesa e 20%, finos. Em todo o Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), o setor vitivinícola movimenta anualmente R$ 1,2 bilhão, e a produção de uva emprega 40 mil trabalhadores.

Os pesquisadores e técnicos envolvidos no projeto SP Vinho devem tornar viável a mecanização da colheita e alterar a genética da uva para adaptá-la ao solo e clima paulistas e melhorar seu manejo. A produção de vinhos finos e vinhos de mesa será determinada de acordo com a procura do mercado.

Diferentemente das terras do Rio Grande do Sul, as paulistas são mais planas, o que facilita a mecanização da colheita. No entanto, a chuva no Estado de São Paulo é na época da colheita, e isso é ruim, pois estraga a fruta. O excesso de água no solo reduz o índice de açúcar na uva. "E o vinho com baixo teor de álcool não é bom", afirma de Lucia.

Melhoramentos — Numa segunda fase, com prazo de dois anos para diagnosticar os elos básicos da cadeia vitivinícola dos municípios envolvidos, o trabalho é determinar as áreas agrícolas que têm condições de produzir uva e realizar os melhoramentos genéticos necessários para uma produção com mais qualidade.

O consumo de suco da fruta também tem aumentado e deve receber mais atenção dos viticultores.

Diário do Comercio (São Paulo/SP) — Agronegócio — 14/08/2007 — Pág. 10