Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

Vem aí o remédio "made in Brazil"

Publicado em 15 fevereiro 2004

Por Ruth Helena Bellinghini
São Paulo - É uma questão de vida ou morte para a indústria farmacêutica nacional. Ou pesquisa e inova, ou morre, fecha as portas. Depois de décadas sem investir em pesquisa e desenvolvimento, os laboratórios brasileiros arregaçaram as mangas e partiram para parcerias com universidades e instituições de pesquisa. Nada que se compare aos US$ 500 milhões que as multinacionais juram investir no desenvolvimento de uma única droga, mas alguns milhões de reais aqui, alguns milhões ali, e ainda este ano um novo medicamento, produzido e desenvolvido no Brasil, entra em fase de testes clínicos. Ao todo, cinco compostos já foram patenteados. "Nossa indústria perdeu a tradição de pesquisar e, nos últimos 30, 35 anos, só copiava medicamentos, porque não havia uma Lei de Patentes que a obrigasse a pagar royalties e a estimulasse a pesquisar novidades", diz José Fernando Perez, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Com a aprovação da lei, em 1996, isso mudou. As nacionais passaram a produzir genéricos ou investiram em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Três delas - Biolab/Sanus, União Química e Biosintética - formaram um consórcio, o Coinfar, e, juntas, investem nas pesquisas do Centro de Toxinologa Aplicada (CAT), cujo objetivo é descobrir toxinas de animais e microrganismos para desenvolver novos fármacos. A aposta das três é o evasin, anti-hipertensivo, com menos efeitos colaterais que o captopril - baseado em toxina extraída da jararaca. O trabalho de pesquisa é do Departamento de Herpetologia do Instituto Butantã, referência internacional quando se fala de serpentes. O CAT é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), um dos programas da fundação que faz essa aproximação entre universidade e empresas privadas. O CAT reúne a competência do Butantã, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Perez adianta que a Fapesp já analisa a possibilidade de criar projetos dentro do Biota - que estuda a biodiversidade do Estado de São Paulo - para avaliar atividade bioquímica de plantas e microrganismos. "'Se der certo, teremos um espaço interessante para parcerias com a indústria farmacêutica e a de cosméticos", diz. O setor farmacêutico é uma das prioridades da política industrial do País. "Isso significa que vai haver linhas de crédito para a área." Ninguém espere, no entanto, que as prateleiras das farmácias fiquem repletas de novos fármacos Brazil em pouco tempo. Entre a identificação de um novo composto promissor para o tratamento de determinada doença e sua transformação em um remédio de eficácia comprovada vão de dez a 15 anos de trabalho e investimento.É preciso determinar a estrutura da molécula, verificar sua toxicidade, descobrir como é metabolizada pelo organismo, se tem efeitos teratogênicos - lembre-se da talidomida -, desenvolver métodos para sintetizá-la. Além disso, é preciso aprimorá-lo, melhorar sua solubilidade, garantir a estabilidade, checar a biodistribuição - para onde ele vai no organismo. E isso tudo ainda na fase pré-clínica, que consome cerca de 10% do total investido no desenvolvimento de uma nova droga. Depois vem o mais dispendioso, os testes clínicos, multicêntricos (em vários locais), envolvendo às vezes milhares de pacientes. Além disso, em qualquer uma dessas etapas, o produto pode se mostrar inviável e o projeto ser abortado.