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Variação genética é ligada a doenças mentais

Publicado em 13 janeiro 2003

Pesquisadores do Laboratório de Neurociências da USP descobriram provas de que a presença da forma variante de certo gene dobraria o risco de surgimento de problemas psiquiátricos graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar - doença antes conhecida como psicose maníaco-depressiva Roberta Jansen escreve para 'O Globo': Sabe-se, atualmente, que existem pelo menos 30 genes relacionados a doenças mentais; e que os problemas psiquiátricos seriam fruto da soma das alterações em diversos desses genes. Ainda assim, o feito dos cientistas brasileiros é considerado importante porque ajuda na compreensão dos mecanismos de desenvolvimento das doenças. Os cientistas Emmanuel Dias Neto, Wagner Gattaz e Cíntia Fridman analisaram o DNA de 164 portadores do distúrbio bipolar e o de 148 pessoas que não sofrem da doença. Num estudo que será publicado na 'European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience', eles constataram que uma pequena variação no gene ALOX-12 dobra o risco do desenvolvimento da enfermidade. A alteração constatada leva a uma troca do aminoácido arginina pela glutamina, o que modifica a ação da enzima cuja produção é determinada pelo ALOX-12. A enzima em questão está ligada ao processo de morte das células nervosas (apoptose). Aparentemente, a alteração no aminoácido faz com que a enzima ordene a morte de células saudáveis, abrindo caminho para a doença. - A morte programada das células faz parte do desenvolvimento normal do organismo - explicou Emmanuel Dias Neto. - Enquanto a diminuição da apoptose está relacionada a doenças como o câncer, uma aceleração deste processo pode causar o mal de Alzheimer e, em nosso caso hipoteticamente, o transtorno bipolar. Estudo abre caminho para diagnóstico genético precoce Os cientistas, que trabalham com apoio da Fapesp, começaram a estudar num outro grupo de pacientes, desta vez portadores de esquizofrenia, os efeitos da alteração genética no aumento do risco de desenvolvimento da doença. Os resultados iniciais indicam que o risco também aumentaria em 50%. O estudo dos brasileiros abre caminho para o diagnóstico genético precoce das doenças mentais - que será possível na medida em que as alterações genéticas que caracterizam os problemas forem determinadas. Wagner Gattaz acredita que, aos poucos, com os progressos da biologia molecular, será possível identificar os grupos de genes de risco, além de detectar e prevenir a doença antes que ela surja. Estima-se que a esquizofrenia esteja presente em 1% da população mundial. Um percentual semelhante de pessoas sofreria de distúrbio bipolar. No Brasil, cada uma das doenças atingiria cerca de 800 mil pessoas. A esquizofrenia se caracteriza por alucinações e pensamentos desordenados. Quem sofre de distúrbio bipolar alterna momentos de apatia e tristeza profunda com sentimentos de euforia. (O Globo, 13/1) JC e-mail 2198