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BeefPoint

Variabilidade entre linhagens da raça Nelore para produção de carcaças e carne de qualidade

Publicado em 02 setembro 2013

Por  Marina de Nadai Bonin e José Bento Sterman Ferraz*

O germoplasma de bovinos foi introduzido no Brasil há cerca de 450 anos, oriundo de Portugal e da Espanha e pertencente a animais da espécie Bos taurus. Em fins do século XIX, foram importados da Índia animais Bos indicus (Zebuínos) que se adaptaram muito bem ao Brasil, em função da semelhança das condições ambientais locais com as de seu país de origem, caracterizados pelo clima predominantemente tropical. O fator que motivou essas importações, foi a necessidade de animais para tração e para a produção de carne e leite, qualidades consideradas insatisfatórias nos animais nacionais ou europeus existentes na época e, principalmente, nos cruzamentos entre eles.

As importações fizeram surgir um período de multiplicação desse tipo bovino, quer pelo seu crescimento natural nos primeiros núcleos, quer pelo cruzamento contínuo e absorvente de touros indianos com a vacada crioula, fato que determinou o “azebuamento” progressivo de considerável parcela do rebanho brasileiro. A exploração do gado Nelore no Brasil teve importante papel no azebuamento do rebanho nacional e a introdução desta raça no rebanho brasileiro pode ser dividida em três fases bem distintas.

A primeira compreendeu meados da década de 1870 até 1930 em que uma importante importação de gado Nelore possibilitou a renovação de rebanhos, os quais apresentavam-se bastante mestiçados, devido às várias tentativas de formação do gado Indubrasil, ou então, devido ao fato de que muitos criadores não se preocupavam com a pureza racial ou com características étnicas das variedades indianas. Esta fase de importações teve seu auge em 1920 com um total de 1904 animais vindos da Índia e foi marcada pelo aparecimento da peste bovina em animais importados da Ásia, o que alarmou o Governo Federal que veio a determinar a proibição das importações e tornou obrigatório o período de quarentena para as levas que já estivessem a caminho do Brasil. Somente em 1930, a título de exceção, dois importadores conseguem licença para uma nova importação.

A segunda fase se estendeu de 1930 a 1960 e foi influenciada pela infusão de reprodutores relativamente puros, marcando uma fase de seleção genética em busca da pureza racial de muitos plantéis, tendo como valioso auxiliar o serviço de Registro Genealógico, oficialmente criado em 1936.

A terceira fase iniciou-se praticamente em 1960, como resultante da importação iniciada por Celso Garcia Cid, completada no ano seguinte por lotes trazidos da Índia por diversos criadores. Essa fase foi reconhecida como uma fase de introdução de “sangue novo”, sendo marcada pela entrada de cerca de uma centena de reprodutores, de ambos os sexos, que trouxe apreciável melhoria para o rebanho brasileiro da raça Nelore. Especificamente, a importação de 1962 se destacou pela vinda de animais excepcionais em características raciais, de desenvolvimento que os caracterizaram como raçadores da raça Nelore, pois se encaixavam perfeitamente ao padrão racial preconizado na época. Alguns reprodutores como Tajmahal, Godhavari, Kurupathy, Golias, Karvadi, Bima, Akasamu, Padhu, Cacique, Nagpur, Rastã, Checurupadu e Bazuá tornaram-se conhecidos e grangearam fama como melhoradores de plantéis, nos diferentes centros de criação de zebuínos da variedade Nelore, sendo classificados então como genearcas ou formadores de linhagens dentro da raça Nelore.

Revisando a literatura referente à introdução do Nelore no Brasil e a formação de linhagens dentro desta raça, pode-se constatar que em mais de 100 anos de seleção, apenas características relacionadas ao crescimento e reprodução foram bastante exploradas em pesquisas e programas de seleção dentro desta raça, no entanto aquelas referentes à qualidade de carne e carcaça na raça Nelore foram iniciadas há poucos anos no Brasil.

Foi partindo deste princípio que foram iniciados os estudos sobre linhagens da raça Nelore para carcaça e qualidade de carne no Grupo de Melhoramento Animal e Biotecnologia (GMAB) da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA/USP) sob orientação do Prof. Dr. José Bento Sterman Ferraz que deram origem aos trabalhos de mestrado (2008) e doutorado (2012) da aluna Marina de Nadai Bonin. Nestes trabalhos foram avaliados um total de 42.028 animais para estimativas das diferenças esperadas na progênie (DEP), bem como a influência dos genearacas Akasamu, Cacique, Checurupadu, Ghodavari, Golias, Karvadi, Nagpur, Padhu, Tajmahal, Kurupathy e Bima nas características de para área de olho de lombo (AOLus), relacionada a musculosidade da carcaça, espessura de gordura subcutânea no lombo (EGSus) e na picanha (EGPus), relacionada a precocidade de acabamento, todas avaliadas por ultrassom, além do marmoreio (MAR5) e maciez (MAC0-5) aos zero de maturação avaliados diretamente na carcaça, na 5ª costela, local onde se dá a separação dos quartos traseiro e dianteiro nas indústrias frigoríficas brasileiras.

Nestes estudos foram encontradas diferenças entre o genearcas quanto a produção de carcaças e carne com qualidade. Algumas linhagens como Golias e Akasamu apresentaram-se superiores para produção de descendentes com maior musculosidade na carcaça (Figura 1). Para EGSUS, Nagpur apresentou o menor valor e os demais genearcas não apresentaram valores significativamente diferentes de zero (Figura 2). Para EGPUS, Checurupadhu, Kurupathy e Tajmahal apresentaram valores positivos DEP indicando seu potencial genético para produção de descendentes com precocidade de acabamento das carcaças (Figura 3). Para marmoreio, os maiores valores de DEP foram para Golias e Padhu (Figura 4). É interessante notar que alguns genearcas que apresentaram DEP negativa para EGSUS e EGPUS apresentarem DEP positiva para marmoreio, como é o caso dos genearcas Golias, Padhu, Rastã e Bima (Figuras 2, 3 e 4). A explicação para estes resultados pode ser fundamentada pela ordem de deposição de gordura na carcaça, que segue uma ordem lógica, iniciando-se pela deposição de gordura abdominal, seguida da deposição subcutânea e intermuscular e por último sendo depositada a gordura intramuscular, no entanto, os diferentes locais de depsição de gordura parecem não estar altamente correlaciondados geneticamente e por isso pode haver animais que não tenham alto grau de acabamento, mas que apresentem deposição de gordura intramuscular (marmoreio).

Figura 1 – Comparação das diferenças esperadas na progênie para a característica área de olho avaliada por ultrassom (AOLUS) dos principais genearcas da raça nelore. *ns = P>0,05. 

Figura 2 – Comparação das diferenças esperadas na progênie para a característica espessura de gordura subcutânea no contrafilé avaliada por ultrassom (EGSUS) dos principais genearcas da raça nelore. *ns = P>0,05.

Figura 3 – Comparação das diferenças esperadas na progênie para a característica espessura de gordura subcutânea na picanha avaliada por ultrassom (EGPUS) dos principais genearcas da raça nelore. *ns = P>0,05.

Figura 4 – Comparação das diferenças esperadas na progênie para a característica marmoreio na 5ª costela (MAR5) dos principais genearcas da raça nelore. *ns = P>0,05.

A característica maciez, avaliada pela força de cisalhamento, expressa a força em quilogramas necessária para romper uma amostra, sendo assim, quanto maior a força de cisalhamento, mais dura será a carne. Por isso, quando avaliamos DEP para maciez medida por esta técnica buscamos animais com DEP negativa, ou seja, que produzam progênies com menor força para rompimento das fibras e, consequentemente, carnes mais macias. Sendo assim, neste estudo as DEP´s mais negativas foram obtidas por Cacique, Padhu, Golias e Karvadi (Figura 5), demonstrando o alto potencial genético destas linhagens para produção de progênies com carnes mais macias.

Figura 5 – Comparação das diferenças esperadas na progênie para a característica maciez (MAC5-0) dos principais genearcas da raça nelore. *ns = P>0,05.

Com base nestes estudos, podemos afirmar que existe variabilidade entre linhagens da raça Nelore para características de carcaça e qualidade de carne e estas informações podem ser utilizadas para seleção de reprodutores e melhoramento genético destas características dentro da raça.

Agradecimentos:

À Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Agro-Pecuária CFM, Nelore do Golias, Fazenda Santa Helena, Frigoríficos Marfrig e Minerva pelo auxílio na condução deste estudo.

Marina de Nadai Bonin – Doutoranda em Melhoramento Genético e Qualidade de Carne – Grupo de Melhoramento Animal e Biotecnologia (GMAB), FZEA/USP.

José Bento Sterman Ferraz – Professor Titular, Grupo de Melhoramento Genético Animal e Biotecnologia (GMAB), FZEA/USP.

Referencias Bibliográficas:

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BONIN, M.N. Avaliação de características de desempenho e qualidade de carne em linhagens e touros representativos da raça Nelore, utilizando ultrassonografia, análise de imagens e NIRS. 2012. 135 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2012. Dados ainda não publicados.

BONIN, M.N. Estudo da influência de touro e de genearca da raça Nelore nos aspectos quantitativos e qualitativos de carcaça e da carne. 2008. 179 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2008.

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