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Valores da conservação

Publicado em 18 janeiro 2011

A conclusão é de uma análise sobre a valoração econômica e os instrumentos para a conservação e uso sustentável da biodiversidade coordenada por Luciano Verdadeprofessor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

Verdadeque é membro da coordenação do Programa Biota-FAPESPapresentou os resultados do estudo durante a conferência internacional Getting Post 2010 Biodiversity Targets Rightrealizada em dezembro pelo Programa Biota-FAPESPpela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O professor coordena o Projeto Temático Mudanças socioambientais no Estado de São Paulo e perspectivas para a conservaçãofinanciado pela FAPESP.

A reflexão sobre valoração econômica e conservação da biodiversidade foi feita a partir de uma análise das mudanças socioambientais ocorridas na região de Angatuba (SP) município situado a cerca de 210 quilômetros a oeste da capital paulista.

A análise das mudanças ao longo do tempo mostrou que a configuração que encontramos hoje na região estudada tem uma base mais histórica que propriamente geográfica biológica. As transformações econômicas no decorrer do processo histórico foram o motor das mudanças nos processos ecológicos e agrícolas. Ao mesmo tempoo estudo indica que a atividade econômica às vezes vista como uma panaceia para combater a perda da biodiversidade pode ser também a causa dessa perdadisse Verdade.

A localidade de Angatuba foi elevada à categoria de município no ano de 1885. Entre 1889 e 1929a população rural era predominante na área onde foi realizado o estudo. Havia pelo menos 30 famílias instaladas na zona rural.

Era uma região com concentração de poder políticode onde saíram senadores e governadores naquela época. Na área de educaçãohavia ali um esforço maior que em outras cidades do mesmo porte. Em função desse desenvolvimentohouve um grande desmatamentocom a introdução de culturas de caféfeijãomilho e frutas. Havia uma pressão de caça significativa e intensa extração de madeira. Naquele períodoa população escrava foi substituída por imigrantesdisse Verdade.

Com a crise financeira de 1929a cultura de café foi subitamente abandonadaacarretando a recuperação da vegetação nativa. A depressão econômica causou um êxodo rural os descendentes de escravos não permaneceram na região perda do poder político e retração dos esforços educacionais.

Entre 1930 e 1975houve um considerável processo de revegetação nativa área de transição entre Cerrado e floresta semidecídua e uma diminuição sensível da pressão de caçadisse.

Entre 1975 e 2005a população rural da área estudada passou por outra retração: restaram apenas cerca de dez famílias. Mas o desmatamento da vegetação nativa voltou a aumentarcom o avanço dos pastos e da pecuária. Algumas árvores permaneceram no meio dos pastosmodificando a composição da paisagem. A pressão de caça voltou a ser significativadisse o pesquisador.

Em 2005com a chegada da silviculturaa população diminuiu ainda mais. Restaram duas ou três famílias. A legislação ambiental garantiu a implementação de áreas de preservação permanente (APP) e da reserva legal (RL).

Graças a issoestá ocorrendo um novo processo de revegetação nativa e a pressão de caça voltou a diminuir. O esforço educacional do começo do século 20 também retornouna forma de um esforço científicocom o nosso Projeto Temático e outras ações de pesquisa. Hojeencontramos uma paisagem ainda mais modificada pelo advento da silviculturacom eucaliptos no meio dos campospor exemploafirmou.

O caso de Angatubasegundo Verdadeilustra os processos que ocorreram de maneira geral em todo o Estado de São Paulo. As mudanças ocorridas no estado se devem a transformações econômicas ao longo do processo histórico e não tanto a transformações biológicas. As atividades econômicas vêm movendo os processos ecológicos e agrícolasdisse.

Perspectivas econômicas A biologia da conservação passou por diferentes momentos desde sua origem na década de 1970a partir da obra do biólogo norte-americano Michael Souléque hoje atua na Universidade da Califórnia em Santa CruzEstados Unidos. No inícioa preocupação estava voltada principalmente para as populações pequenassubmetidas ao risco de extinção.

A partir dissohouve o desenvolvimento de outras disciplinas ligadas á conservação biológicaincluindo a Ecologia da Paisagem e a medicina da Conservação. Em um dado momentopassou-se também a pensar nas dimensões econômicas ligadas aos processos de conservação de biodiversidade. Nesse sentidoRobert Costanzada Portland State Universitydos Estados Unidosdestaca que o investimento na conservação sempre implica em custosdisse Verdade.

Outra correnteliderada pelo australiano Graeme Caughley (1937-1994) prega que são os processos demográficos de declínio populacionalenvolvendo taxas de natalidade e de mortalidadeque empurram as populações para as extinções. A extinçãoportantonão seria apenas um problema de populações pequenas.

Nessa perspectivahá poucas alternativas em termos de conservação. Em um primeiro momentopodemos tentar aumentar o número de indivíduos de uma espécie que sofreu declínio populacional indevido. Nesse sentidopode-se considerar a conservação como uma prática de manejo de espécies ameaçadasexplicou.

Outras práticas possíveis são o controle de populações que tenham crescido indevidamenteou o manejo para se alcançar o máximo rendimento sustentável de populações com valor econômico para caçapesca ou coleta.

Mas a motivação econômica para o manejo ocorre especialmente em duas categorias de populações: as pragas e as espécies com valor econômico. As espécies consideradas pragassão algumas dezenas. As de valor econômico assim como as espécies ameaçadas são contadas às centenas. A maior parte das espécies alguns milhões delas não se encaixamno entantoem nenhuma dessas categoriasdisse o professor da Esalq.

Quando se trata de controle na perspectiva da dimensão econômicao objetivo é promover a extinção da espécie em questão. Mas raramente temos sucesso com isso. Estudos mostrampor exemploque fêmeas de coiotes de populações sob alta pressão de caça ovulam mais que fêmeas de populações não caçadas. Exceto em relação a alguns grandes mamíferospredominam exemplos de fracasso no manejo visando ao controle. Nunca vamos extinguir as barataspor exemploafirmou.

Quanto à exploração econômica das espéciesVerdade conta que os fatores culturais têm um papel que nem sempre é levado em conta. No Brasilpor exemplosomos muito conservadores em relação à pesca e muito liberais em relação à pesca. Na caça não se pode nadacom algumas exceções. E na pescapode-se tudocom algumas exceçõesdisse.

A visão da sociedade em relação à caça/pesca esportivasegundo o cientistaé muito mais negativa que em relação à caça/pesca comercial. Mas a caça esportiva traria consigo um componente culturalnão econômico: o caçador quer perpetuar o animal para poder caçar sempre.

O aspecto cultural assegura que o objetivo da atividade em si seja não econômicoo que permite sua perpetuação. A lógica econômica da caça comercialpor outro ladotem como objetivo a exaustão de uma espécie eem seguidaa busca de outra espécie até sua exaustão e assim sucessivamente. No entantoela é mais tolerada que a caça esportivadisse o membro da coordenação do Biota-FAPESP.

Desenvolvimento de mão dupla A agricultura tem um impacto muito maior do que a caça na alteração do ambiente. A atividade agrícola traz benefícios inegáveisde acordo com elepermitindo o acúmulo de alimento. Mas traz também problemas ambientais.

Justamente por ter permitido o adensamento populacional urbanoa atividade agrícola tem um custo ambiental altíssimogerando poluição e doenças. A agricultura gera riqueza e podemos dizer que ela viabilizou a civilização. Até mesmo as guerras só passaram a existir graças a elaporque os exércitos só podiam se locomover se tivessem comida acumulada. Antes da agricultura só havia guerrilhadisse Verdade.

Fenômeno ligado à economiao desenvolvimentode modo geraltraz consigo dois custos ambientais significativos: o aumento do consumo de energia e a destruição do habitat de certas espécies. Essa destruição do habitat teria extinguindo mais espécies que a própria caça.

O processo de desenvolvimento leva a uma situação peculiar: quando a vontade individual se sobrepõe à vontade coletivanormalmente se opta pelo benefício individualo que leva ao colapso do sistema. Se não houver certa regulamentaçãonão se pode pensar na manutenção da funcionalidade do sistema. Para a coletividade brasileirapor exemploseria mais interessante manter um Código Florestal mais conservador. Maspara setores individuaiso benefício vem com a relativização do códigoafirmou.

Nesse contexto a solução pode estar na valoração da economia dos serviços de ecossistemas como a água e os polinizadorespor exemplo. Mas esse processo de valoração tem limitações e requer avanços tecnológicos. As regulações exigem fiscalização. E os preços de mercado são flutuanteso que dificulta a tarefadisse Verdade.

Para o cientistao estudo do caso de Angatubacolocado em perspectiva histórica da biologia da conservaçãosugere que a atribuição de valor econômico não basta para preservar os recursos naturais. Segundo elehá valores econômicos envolvidos valores históricosculturais e estéticos que não podem ser negligenciados.

O mercado varios preços caem e as crises acontecem. Há possibilidade de agregar valores à conservação da biodiversidadede forma que o processo evolutivo seja mantido da melhor maneira possível. Nesse aspectoas dimensões econômicas podem ser interessantes. Masse não agregarem valores não-econômicosserão incapazes de garantir por si só a conservação da biodiversidade, disse.

da Associação Brasileira do Ministério Público do Meio Ambiente