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Jornal Joseense News

Validado método para quantificação de estímulos no treinamento de tenistas

Publicado em 30 março 2014

Por Noêmia Lopes, da Agência FAPESP

Um grupo de pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP) validou um método considerado seguro e rápido para avaliar os estímulos desencadeados no organismo de tenistas após sessões de treinamento para competições oficiais.

A técnica, chamada Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) da sessão, foi desenvolvida pelo norte-americano Carl Foster, da University of Wisconsin-La Crosse, na década de 1990. Ela consiste na aplicação de uma pergunta (Como foi a sua sessão de treinamento?), 30 minutos após os treinos, sobre como foi a intensidade do esforço físico, em uma escala de 0 a 10.

O método já é utilizado em esportes como futebol, natação, rúgbi e canoagem e, agora, foi validado também para o tênis, pelo Grupo de Adaptações Biológicas ao Exercício Físico da EACH.

Para tanto, o estudo Quantificação da carga de treinamento no esporte, que teve apoio da FAPESP, cruzou dados de frequência cardíaca e informações coletadas a partir da PSE da sessão.

“Concluímos que a resposta do coração e o esforço percebido pelo tenista aferido pela PSE da sessão têm uma ótima concordância, validando o método. Além de confiável, esse método é facilmente aplicado, apresenta baixo custo e não requer intervenções laboratoriais”, disse Marcelo Saldanha Aoki, coordenador da pesquisa e professor do curso de Educação Física e Saúde da USP, à Agência FAPESP.

Monitorar de forma segura os estímulos desencadeados pelas sessões de treinamento é fundamental, de acordo com Saldanha, para que técnicos e preparadores físicos quantifiquem a carga de exercícios de modo a maximizar o desempenho do atleta – o que depende da variação e da progressão dos estímulos, bem como de períodos de recuperação apropriados –, sem abrir mão dos cuidados necessários para evitar lesões e fadiga crônica ocasionadas por excesso de treinamento (overtraining).

O cruzamento da PSE com os dados de frequência cardíaca – medidos com o auxílio de frequencímetros – incluiu o acompanhamento de 400 sessões de treinamento, realizadas em clubes e academias de tênis das cidades de São Paulo e Guarulhos.

Além disso, os atletas foram monitorados durante a preparação de cinco semanas pré-torneio. “Depois de validar o método da PSE para períodos de treinamento, nós o aplicamos durante a preparação para uma competição oficial, avaliando parâmetros hormonais, imunológicos e o desempenho físico dos atletas”, disse Saldanha.

Para tanto, essa etapa contou com a coleta de outros marcadores (cortisol, testosterona, IgA), além da PSE e da frequência cardíaca, chegando a uma nova concordância entre os dados. “Em um cenário de percepção de esforço aumentado, por exemplo, verificamos elevação no nível do hormônio relacionado a situações de estresse, o cortisol. Ou seja, o comportamento da PSE refletiu a resposta de alguns parâmetros fisiológicos investigados”, explicou Saldanha.

Os resultados da primeira etapa estão em fase de submissão para publicação e os da segunda deram origem ao artigo Monitoring training loads, stress, immune-endocrine responses and performance in tennis players, publicado em Biology of Sport.

Dano muscular induzido pela partida de tênis

Outra etapa do estudo conduzido na EACH/USP buscou avaliar o que acontece em uma partida oficial de tênis em termos de dano muscular. Para isso, os pesquisadores organizaram uma partida simulada e realizaram diferentes medições imediatamente após a competição, 24 e 48 horas depois.

Foram feitos testes bioquímicos (com medição da concentração, no plasma, de enzimas encontradas no músculo esquelético – sinal de que houve dano muscular), testes de funcionalidade (caso tenham passado por processo de lesão, os músculos apresentam perda de força) e testes subjetivos (sensação de desconforto muscular).

Os resultados, também publicados no periódico Biology of Sport, no artigo Muscle damage after a tennis match in young players, apontaram para danos musculares moderados.

“Nosso estudo esbarra na limitação de não ter investigado partidas seguidas – cinco ou seis jogos em uma semana, como frequentemente acontece nas competições oficiais. Nesses casos, acreditamos que o efeito das partidas seja acumulado e o dano muscular possa ser maximizado. Além disso, os atletas que acompanhamos são altamente treinados e acostumados com grandes exigências físicas. Acreditamos que tenistas iniciantes podem apresentar maior dano muscular em resposta a uma única partida”, disse Saldanha.

“É possível que, no futuro, ampliemos as pesquisas para avaliar cenários com partidas subsequentes, tentando descobrir a magnitude das lesões, o quanto elas influenciam a performance do tenista e quais estratégias de recuperação podem minimizar os problemas detectados”, afirmou o pesquisador.

O grupo também pretende aprofundar os estudos sobre a distribuição da carga de treinamento, a fim de testar e comparar diferentes modelos. Um primeiro passo nesse sentido foi a organização dos dados coletados nos questionários da PSE, durante a pré-temporada de cinco semanas, em três zonas: respostas de 1 a 4 (intensidade baixa), de 4 a 7 (intensidade moderada) e de 7 a 10 (intensidade alta).

“Conferimos quantas sessões os atletas ficaram em cada zona ao longo do período. Constatamos que, em geral, a maior parte das sessões de treinamento – 90% delas – é realizada em intensidade baixa e moderada – diferentemente do que ocorre nas competições oficiais”, disse Saldanha.

Além dos artigos, os estudos renderam apresentações nos congressos do European College of Sport Science de 2012 e 2013.

“Atualmente, nosso grupo também investiga métodos para monitorar e quantificar a carga de treinamento em outras modalidades, como basquete, judô e tiro com arco”, contou Saldanha. São parceiros desses estudos os professores Alexandre Moreira, da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE), da USP, Aaron James Coutts, da University of Technology Sydney, e Kazunori Nosaka, da Edith Cowan University, ambas na Austrália.

Os resultados dessas investigações são parte da tese de doutoramento de Rodrigo Vitasovic Gomes, atualmente pós-graduando da EEFE/USP, orientado por Saldanha.

Agência FAPESP