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Revista DBO

Validação de marcadores atrai mais projetos

Publicado em 01 julho 2006

Entrou na fase de validação de marcadores moleculares o Projeto Genoma Funcional do Boi, desenvolvido há três anos pela Fapesp, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em parceria com a Central Bela Vista. Além das iniciativas citadas em reportagem da DBO de junho, o mercado de seleção pode aguardar ainda outro fornecedor dessa tecnologia para breve. "Pretendemos começar em bovinos no próximo ano", diz Jesus Martinez, diretor da ABS para a América Latina.
Os primeiros marcadores da em presa devem se voltar ao gado de lei te. Estão em elaboração produtos pa ra identificar vacas mais longevas na lactação, e com resistência à mastite e ao calor, descreve Martinez.
Para um momento seguinte, se planeja trabalhar com o gado de cor te, a princípio com marmoreio e rendimento de carcaça. Essa nova área de atuação se tornou possível por uma espécie de "herança".
O grupo britânico Genus, dono da ABS, adquiriu recentemente a Sygen, empresa especializada em genética suína. O departamento de pesquisas da companhia desenvolveu marcadores comerciais pan porcos. Somado a esse conhecimento, relata Martinez, há a tecnologia remanescente da Infigen, empresa que a ABS desenvolveu, mas interrompeu, para atuar no segmento de clonagem.
Parceria - A validação do Genoma Funcional do Boi será coordenada pela Central Bela Vista em parceria com a ANCP, a Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores. "Vamos testar de 30 a 40 potenciais marcadores moleculares", relata o professor da Unesp Luiz Roberto Furlan, pesquisador do projeto. "A ANCP que conta com a base de da dos de uma série de propriedades, será a responsável em confirmar estatisticamente as vali dações", afirma.
Segundo Furlan, dentro de seis meses a um ano a Central Bela Vista vai oferecer ao mercado os primeiros marcadores moleculares validados pa ra características como resistência e tolerância a doenças, precocidade e até qualidade de carne, que tem base de dados ainda bastante incipiente. "O objetivo é garantir ao pecuarista a plena eficácia dos marcadores, se guindo os mais rigorosos parâmetros recomendados pela comunidade científica mundial", descreve Furlan.
Em palestra que ministrou no Congresso Inter nacional Feicorte 2006, realizado em junho no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo, Furlan apresentou um re lato detalhado sobre o trabalho de seqüenciamento parcial do genoma do Nelore, inicia do em 2003 na parceria da FAPESP com a Central Bela Vista.
ZEBU - "Identificamos algo em torno de 22.000 genes, representando cerca de 80% do genoma do Nelore", destaca. Foi possível fazer uma análise das variações na seqüência do DNA, os chamados polimorfismos, o que permitiu identificar potenciais marcadores moleculares. "Partimos em seguida pa ra estudar os genes e suas características específicas, especialmente ligadas à produção, como velocidade de crescimento, qualidade da carne, resistência ao carrapato, eficiência nutricional e adaptabilidade", explica Furlan.
Para ter uma base Comparativa para as prováveis características identificadas geneticamente, 20 Nelore e 20 Angus foram submetidos a diversos testes biológicos, sendo todos da mesma era e procedência, desmamados aos oito meses sob as mesmas condições nutricionais. "Foram realizadas, regularmente, biopsias nos tecidos e músculos, e, ao atingirem determinada idade, os animais foram abatidos para avaliação das carcaças. Recolhemos amostras e checamos em 'laboratório todos os parâmetros relacionados a precocidade e qualidade da carne", esclarece o professor.
O experimento se repetiu ainda para comparação de características relacionadas a resistência ao carrapato, com a coleta de amostras ligadas ao sis tema imunológico, principalmente da pele. Tudo isso foi fundamental pan afunilar a identificação, realizada posteriormente com a bioinformática, pan aumentar o "grau de acerto" na determinação dos possíveis marcadores moleculares. "Passamos de milhares para centenas", ressalta Furlan.
O quadro que acompanha a primeira página deste texto ilustra co mo funciona o método de cálculo da DEPh em relação à convencional. O estudo da GenSys sugere o exemplo de escores visuais para característica indicadora de qualidade, como ocorre no sistema CPMUT — Conformação, Precocidade, Muscu losidade, Umbigo e Temperamento, atribuídos hipoteticamente a seis fi lhos de três diferentes touros cada um. "Ou então as séries de números podem ser entendidas como medi das feitas sobre a linha dorso-lombar dos animais", explica Fries. Nas duas situações, os valores podem ser interpretados como escores numa escala de 1 a 6 ou então como milímetros de gordura de cobertura.
Para os três touros, com resultados muito distintos, a média aritmética é a mesma. O reprodutor 4 tem distribuição uniforme de valores. O B tem metade dos produtos concentrados num extremo superior e a outra, no extremo inferior. O C tem números muito uniformes, centrados ao redor da média, O quadro é claro: a média harmônica se aproxima mais da média aritmética quando a distribuição é mais uniforme (touro C) e se aproxima mais do menor valor quando ela é mais desuni forme (reprodutor B).
Prêmio na carne - Os especialistas da GenSys extrapolam o exemplo pa ra uma situação premie ou aceite apenas como de qualidade carcaças com valores entre 3 e 6 — podem ser usados como escore mesmo ou como milímetros de gordura.
Nesse caso, seriam premiadas 50% das carcaças do touro B, dois terços dos filhos de A e 100% do reprodutor C. Resumo da ópera: a valorização pela qualidade individual dos produtos identifica-os pela média harmônica enquanto que a média aritmética não propicia essa distinção entre o três grupos de medidas.
O estudo comprova esse refina mento no cálculo da própria DEP, estimativa de desempenho da progênie de cada reprodutor ou de cada um dos exemplares mensurados. Ainda no mesmo exemplo dos três touros, as DEPs deles teriam o mesmo valor. Mas, com a DEPh, haveria uma ordem de mérito similar dada pela média harmônica, com os touros ordenados por maior e mais uni forme produção, no caso 3,015 para A, 2,676 para B e 3,467 para C.
Segundo Fries, o valor das DEPh permite fácil interpretação pelos criadores e agentes econômico-financeiros que não detenham conhecimento técnico mais profundo sobre as metodologias de cálculo a partir de modelos estatísticos.
No caso de as 18 medidas apresentadas no quadro à parte corres ponderem a seis produtos de cada um dos três touros, se pode calcular a DEPh de cada um desses animais jovens, com base na DEPh dos pais e do próprio desempenho de cada um.
Entre os animais com medida 6 e filhos do touros A e B, o que é fi lho de A, reprodutor de melhor distribuição, apresenta DEPh superior. O mesmo ocorre em relação aos produtos com medida igual a 4 e filhos de A e C. A maior DEPh para produtos com escore 4 e filhos de C reflete a maior probabilidade de produção de progênie de qualidade mais consistente e uniforme na comparação com A. Fries esclarece que não se trata de deixar a DEP usada até aqui para trás. Afinal, a correlação entre as duas estimativas é alta. Mas de agregar ao número a uniformidade da progênie.