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Global 21

Vale pretende criar "MIT" brasileiro

Publicado em 27 setembro 2010

Por Cristina Grillo e Denise Menchen

Inspirada no instituto dos EUA, empresa investe R$ 400 milhões em 3 centros e quer atrair "cérebros" do exterior. Diretor do ITV diz que, ao contrário dos EUA, necessidade no Brasil de institutos como o da Vale "não é muito clara".

A Vale, segunda maior empresa de mineração do mundo -atrás só da BHP Billiton e com valor de mercado de cerca de US$ 145 bilhões-, vai investir perto de R$ 400 milhões nos próximos quatro anos para criar três centros de pesquisa tecnológica de ponta e de ensino de pós-graduação no país.

Para comandar as pesquisas e orientar os futuros alunos, ela está buscando "cérebros" em todo o mundo. Uma empresa foi escolhida para selecionar os doutores e os pós-doutores que serão contratados -50 para cada uma das unidades, estima a Vale.

"É a chance de repatriarmos "cérebros" brasileiros que, por falta de oportunidade aqui, fizeram carreira lá fora. E de trazer estrangeiros que apostem no crescimento do Brasil", explica Luiz Mel- lo, diretor do ITV (Instituto Tecnológico Vale).

O modelo inspirador é o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), fundado em 1865 e de onde já saíram 73 ganhadores do Prêmio Nobel -com o qual, inclusive, a Vale já fez um convênio que permitirá o intercâmbio de professores e alunos.

Cada um dos centros terá sua linha própria de pesquisa. O orçamento de implantação é de R$ 300 milhões.

O primeiro deles, em fase inicial de construção, ficará em Belém (PA). Lá a Vale quer desenvolver estudos na área de sustentabilidade. O projeto é de Paulo Mendes da Rocha, premiado em 2006 com o Pritzker, e de José Armênio de Brito Cruz.

Em Ouro Preto (MG), as pesquisas estão voltadas para a área de mineração. A empresa já tem a área onde será instalado o núcleo.

As construções ficarão a cerca de três quilômetros do centro histórico da cidade e aguardam aprovação do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para serem iniciadas.

O núcleo de São José dos Campos será o último a ser implantado e é voltado para pesquisas sobre energia.

Bolsistas

Cada um dos núcleos poderá receber até 160 pesquisadores bolsistas, em processo de seleção pelas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) de Pará, Minas Gerais e São Paulo. As bolsas poderão ser de iniciação científica, mestrado e doutorado. No total, serão destinados R$ 120 milhões para os bolsistas -R$ 72 milhões da Vale, R$ 48 milhões das FAPs.

A seleção tem várias fases. Consultores das fundações fazem a primeira avaliação e encaminham para a mineradora, que elabora uma espécie de lista de prioridades. A decisão final é tomada pela diretoria científica de cada uma das fundações. "Já recebemos cerca de 70 propostas", disse Douglas Eduardo Zampieri, membro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

"A ideia é que a Vale contribua com a produção local de conhecimento. Nosso maior desafio é a atração e a fixação de cérebros para a região", diz Maurílio Monteiro, secretário de Desenvolvimento e Tecnologia do Pará.

O objetivo da mineradora ao criar o ITV é simples -e ao mesmo tempo ambicioso. "A Vale, como empresa de mineração, tem perspectivas para os próximos 100 anos. Se temos atividade econômica com previsibilidade dessa magnitude, devemos planejar esse futuro", diz Mello.

Mello veio do meio acadêmico. Pós-doutor em neurofisiologia pela Universidade da Califórnia, era pró-reitor de graduação da Unifesp quando recebeu o convite da Vale para montar o ITV.

Sabe das dificuldades de integrar os meios acadêmico e industrial. "Há um fosso, há resistência dos dois lados. Em outros países, como os EUA, a necessidade de instituições como o ITV é muito clara. Aqui, ainda não."

Fonte: Folha de São Paulo